'Deixa saudade e uma grande obra', diz Gilberto Gil sobre Moraes Moreira

Compositor 'está junto com os maiores do Brasil e do mundo', afirma Dadi Carvalho, dos Novos Baianos

São Paulo e Rio de Janeiro

A notícia de que Moraes Moreira, fundador dos Novos Baianos, morreu na manhã desta segunda (13), aos 72 anos, pegou muita gente do meio artístico de surpresa.

O cantor, compositor e violonista teve um infarto no miocárdio às 6h da manhã, no seu apartamento, na zona sul do Rio de Janeiro, segundo a sua família. Por causa da pandemia do novo coronavírus, que levou vários estados e municípios do país a decretarem medidas de distanciamento social, local e horário do enterro não serão divulgados aos fãs.

Em depoimento à Folha, o baixista Dadi Carvalho, que integrou os Novos Baianos nos anos 1970, diz que o nordestino "está junto com os maiores compositores do Brasil e do mundo".

Ele diz se recordar da dedicação do músico ao criar melodias. "Ele pegava o violão e ficava em cima de uma ideia, às vezes três dias, num canto no sítio, ali ao ar livre, desenvolvendo aquela ideia. E ia crescendo, crescendo e resultava nessas músicas que a gente, essas pérolas", afirma Carvalho. "E tinha uma risada maravilhosa que vai deixar saudade."

"Deixa saudade e uma grande obra", fez coro Gilberto Gil ao escrever seu conterrâneo nas redes sociais. Na postagem, acompanhada ainda de um pequeno poema ("Menino do sertão da Bahia/ ouviu encantado a música do mundo/ e fez dela seu universo expressivo"), ele e Moraes aparecem abraçados numa foto antiga.

Caetano Veloso também trouxe o passado à tona ao falar da morte de Moraes Moreira nas redes sociais. "Sua voz encantava [...] e nos ajudou a aguentar a pena sob a ditadura militar. E ele não é só o componente do grupo que lançou disco roqueiro [...] Tampouco o músico/cantor/compositor da virada joãogilbertiana desse mesmo Novos Baianos de 'Acabou Chorare' [...] Sem ele não haveria o axé", escreveu. "A alma não pode acabar de chorar."

Outro membro do Novos Baianos que lamentou a morte foi Paulinho Boca de Cantor, que disse que Moraes era seu grande amigo —"a gente se falava todos os dias, as nossas ligações ou eram de trabalho ou eram pra dar risada". "É importante que a gente fale desse amor, que começou há 50 anos, quando eu encontrei ele, encontrei Galvão, e a gente pensou que poderia fazer alguma coisa."

Ele ressaltou a afinidade dos membros do grupo, que para ele formaram uma família. "Pode acontecer o que acontecer, mas na hora que a gente se encontra é uma alegria, uma festa, e aí a música flui tranquilamente, naturalmente", disse.

"O Moraes Moreira era um grande timoneiro, com aquele violão que não existia nada igual. [...] O Moraes viveu intensamente, a música, a festa, a alegria, o Carnaval."

O cantor e instrumentista Armandinho, que chamou a notícia da morte do músico de "uma porrada", foi outro que qualificou Moraes como um parente honorário. "Nós somos quatro irmãos [na família Macedo, do trio elétrico Dodô & Osmar], e nós considerávamos Moraes o quinto irmão."

"Tem dois dias que nós falamos por telefone. Ele ligava de madrugada. Na pandemia, ele estava sozinho, me ligava entre uma e duas horas da manhã", diz o guitarrista.

Ele lembra que em 1985, ao comporem juntos a canção "Chame Gente", Moraes ordenou a ele: "pegue aquela saudade sua e transforme em frevo". "Ele veio com uma letra, rapaz", diz Armandinho. "'Virou um hino. Até os pagodeiros tocam no Carnaval."

Primogênito de Caetano Veloso, Moreno Veloso também ressalta a importância de Moraes para o Carnaval de rua, "inegável". “Na primeira vez em que fui passar o carnaval no Recife, eu vi todas as bandas, todo mundo tocando as músicas de Moraes Moreira", afirma.

Ele também fala da influência das composições do baiano para a música brasileira. "Pra todo mundo que acompanha a tradição do violão brasileiro –João Gilberto, Gilberto Gil, João Bosco, esses grandes violonistas, cantores, compositores–, Moraes era uma dessas vertentes de importância extrema", diz. "Pra gente que é músico, é muito forte. Não sei nem explicar exatamente quanto, mas só olhando pro instrumento, principalmente pro violão, e ele vai te dizer."

Elba Ramalho e Zé Ramalho, que junto a Geraldo Azevedo receberam Moraes numa participação especial para a gravação do álbum "O Grande Encontro 3", de 2000, também lamentaram a morte do músico.

"Grande artista que selou, lacrou um patamar histórico na música brasileira!", escreveu Elba no Instagram, chamando Moraes de "eterno novo baiano". Mais tarde, ao Jornal Hoje, Elba lembrou que interpretou mais de 17 músicas do compositor.

“A sua arte era muito grande. Não só pela sua genialidade, que é os Novos Baianos, mas também pela sua individualidade como músico e como artista”, declarou.

Já Zé Ramalho postou uma foto histórica com o colega, de 1976, em que os dois aparecem ao lado de Fagner.

Também ao Jornal Hoje, a cantora Fafá de Belém lembrou a importância de Moraes Moreira para a juventude dos anos 1970. "Moraes foi o cara que embalou a minha geração, trazendo alegria, frescor e liberdade. Os Novos Baianos foram e são o som de toda uma geração. O país ficará mais triste", afirmou.

Fora do campo das artes, políticos também se manifestaram. O ex-presidente Lula chamou "Brasil Pandeiro" de um dos maiores hinos não-oficiais do Brasil, e disse se juntar aos seus familiares, amigos e fãs ao lamentar sua morte.

"Uma pessoa muito querida que tanto bem fez para nossa cultura, tanta alegria deu aos brasileiros e tantas contribuições para a imagem do nosso país no exterior", escreveu Lula.

O ex-presidenciável Ciro Gomes, do PDT, também honrou a memória do músico no Twitter, com uma imagem do disco "Acabou Chorare", o mais famoso dos Novos Baianos, tocando na vitrola. "Neste momento de grande aflição do nosso povo, perder sua voz e seu talento é desalentador", escreveu o político, em referência à pandemia da Covid-19 no país.

O time de coração de Moraes, o Flamengo, foi um dos primeiros a homenageá-lo no Twitter. No seu perfil oficial no Twitter, o clube de regatas disse lamentar "profundamente a morte do músico e ilustre rubro-negro", e desejou força aos seus familiares e amigos.

Moraes compôs algumas canções sobre o time, como "Vitorioso Flamengo" e "Espírito Vitorioso". O baiano também é retratado vestindo a camisa rubro-negra na capa de "Pintando o Oito", de 1983.

O álbum traz uma homenagem a Zico, um dos jogadores mais icônicos do time –chama-se "Saudades do Galinho", em referência ao apelido do esportista, Galinho de Quintino. Nela, Moraes canta: "Agora como é que eu me vingo de toda derrota da vida/ Se a cada gol do Flamengo/ Eu me sentia um vencedor".

Ao Jornal Hoje, Zico disse que Moraes "foi um dos grandes rubros-negros" de sua geração. "Que a obra dele continue firme", afirmou.

Por fim, a cantora Bebel Gilberto, que no ano passado perdeu o pai, o inventor da bossa nova, João Gilberto, lembrou a gênese de "Acabou Chorare", composta para ela.

Nas redes sociais, ela contou que tinha cinco anos quando ela e o pai foram visitar os Novos Baianos no meio da madrugada. Quando eles chegaram no lugar, ainda sonolenta, ela escorregou e começou a chorar. "Moraes então escreveu 'Acabou Chorare'. E assim nossa história começou."

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