Descrição de chapéu Livros

Livro 'Senhores do Orvalho' narra um Haiti exuberante e histórias míticas do país

Romance, que sai agora no Brasil, é considerado fundador da literatura moderna do país

Itamar Vieira Junior

Escritor e doutor em estudos étnicos e africanos pela UFBA, é autor de "Torto Arado" (Todavia)

Senhores do Orvalho

  • Preço R$ 79,90 (240 págs.)
  • Autor Jacques Roumain
  • Editora Carambaia
  • Tradução Monica Stahel

Existe um tabu no meio literário, sempre revisitado de forma errônea por alguns autores e críticos, de que a política não cabe nas narrativas ficcionais pelo iminente risco de tornar a obra “panfletária”. Esquecem, talvez, que ela é parte da condição humana, como assinalou Hannah Arendt.

A utopia movimenta a vida, segundo René Dumont, que escreve sobre “as utopias mais ou menos realizáveis” —​a principal seria a urgente mudança de atitude dos países colonizadores com os países explorados. Sem isso, não seria possível reduzir as desigualdades sociais que criaram um fosso entre dois mundos.

E a literatura, como parte da nossa dimensão humana, é capaz de abrigar em seu seio a política e a utopia sem prejuízos à obra, como ocorre em "Senhores do Orvalho" do haitiano Jacques Roumain, publicado originalmente em 1944 e relançado no Brasil com nova tradução de Monica Stahel.

Nesse romance, fundador da moderna literatura haitiana, a utopia realizável é um traço que marca as ações do personagem Manuel Jean-Joseph. Vindo de uma comunidade rural negra, Fonds-Rouge –ou fundo vermelho, uma alusão à cor do solo na região–, Manuel retorna a seu país depois de passar 15 anos trabalhando numa propriedade rural em Cuba, remanescente dos grandes latifúndios de cultivo de cana-de-açúcar.

Essa longa experiência permitiu a ele conhecer o surgimento do movimento sindical, além de participar das "huelgas", ou greves, que irão influenciar a nova aliança que irá estabelecer com o seu lugar.

Ao retornar à casa dos pais, Bienaimé e Délira, Manuel encontra Fonds-Rouge imersa numa grande estiagem, aparentemente intransponível, com famílias marcadas por rivalidades herdadas da estrutura colonial, que por sua vez remanesce na estrutura de acesso à terra. As famílias de Bienaimé e Larivoire, de ascendência comum, estão fraturadas por conflitos internos, agravados pela grave estiagem que espalha a fome, o medo e a violência na comunidade.

Jacques Roumain, escritor, político e etnógrafo, morto em circunstâncias misteriosas, apresenta a narrativa de um exuberante Haiti, que ecoa natureza e histórias quase míticas.

criança com blusa na boca
Criança no píer do bairro de Cité Soleil, em Porto Principe, Haiti - Danilo Verpa/Folhapress

Vale lembrar que se trata do país que viveu a Revolta de São Domingos, se tornando o primeiro das Américas a abolir a escravatura e culminando na independência e expulsão dos colonizadores franceses. A revolta foi vertida numa experiência de governo afrodiaspórico, com controle da população negra e que durou só poucas décadas.

Essa experiência de nação, construída nos alicerces da resistência e da solidariedade, ecoa na Fonds-Rouge do romance, habitada por personagens resilientes às investidas de Hilarion, chefe da polícia local, que os deseja subjugar ao os ver derrotados pela seca e abandonando suas terras.

A solidariedade é uma constante na vida dos trabalhadores, o próprio romance se inicia durante o "coumbite", ou mutirão de trabalho, uma alusão à união que deverá ser alcançada pelos moradores para atravessar a grande estiagem.

Da mesma forma, o vodu haitiano, despido do exotismo habitual, surge como a cosmovisão de um grupo, além de representar importante elo de sociabilidade solidária, um parentesco além dos laços consanguíneos.

O universo rural do Haiti de "Senhores do Orvalho" é atravessado pela força de personagens incontornáveis como Délira, Annaïse e Manuel Jean-Joseph. Este último é quem, ao encontrar uma fonte de água num pequeno oásis, vislumbra a chance de mitigar a seca. Mas, para transpor essa fonte em irrigação, será necessária a reconciliação de toda a comunidade.

É nesse ponto que a obra se converte em poderosa alegoria –e utopia– não só de um povo, mas de toda a humanidade.

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