Descrição de chapéu

Vídeo do governo com Mario Frias traz visão caquética da história

O elogio da história como monumento, como faz campanha do Sete de Setembro, é elogio da volta ao passado

Será preciso um dia fazer a história das maluquices dos secretários da Cultura do governo Bolsonaro. Um abriu o jogo e foi logo esclarecendo quem inspirava seu trabalho (Goebbels). Depois, Regina Duarte teve um ataque histérico defendendo as belezas da tortura. Agora chega Mario Frias.

A rigor, Frias não tem tanta culpa assim. Não tomou a iniciativa. Parece ser mais um pau mandado do governo, a criadora da campanha patriótica destinada a celebrar o Sete de Setembro.

O secretário começa sua celebração lembrando que temos uma história e que seria muito bom se a pudéssemos ver, como ele ali, clara e transparente. Ele está num museu, olha quadros e objetos, parece não saber direito o que vê ou do que fala. Há cheiro de história em estado de mumificação.

Após esclarecer que nos momentos de crise descobrimos ter uma coragem até então desconhecida, o secretário informa que fala por nós, os brasileiros, pois, diz, conhece a nossa gente –somos “essas pessoas que amam o próximo e dividem o solo —literalmente”.

Será que conhece mesmo? E literalmente, no caso, quer dizer o quê? Que estamos fazendo a reforma agrária? Temos, sim, notícia de muita invasão de terras (indígenas, sobretudo), de quilombolas expulsos de suas roças, de floresta queimada para criação de gado ou mineração, coisas assim. Mas o nome disso não é exatamente divisão de terras. Seria gentil Frias esclarecer quem são essas pessoas que tão generosamente dividem suas terras.

Seguimos na trilha dos equívocos. Comemora-se a Independência, mas dom Pedro 1º aparece apenas lateralmente –o foco é d. Pedro 2º. Até a princesa Isabel tem mais destaque, com direito a um momento de admiração extática do secretário. Ele prepara a troca do amor ao próximo pelo heroísmo. Somos um povo heroico, afinal.

Olhe em sua casa. Lá mesmo há um insuspeito herói trabalhando pela família. Mais que isso, estamos dispostos a morrer pela pátria. Morre-se muito de Covid-19, morrem os médicos e enfermeiros que cuidam de vítimas da Covid-19, morre-se por condições sanitárias infames, morre-se de viver na rua no inverno, morre-se de bala perdida etc.

Daí a povo heroico vai uma distância. Aceitemos. Mas cadê ele? Não há povo algum no filmete. O povo vale como abstração. De concreto há Mario Frias passeando entre florianos e deodoros, um velho microfone de rádio, a primeira Constituição da República. Será que o governo não se enganou de data? A República não era 15 de novembro? Não duvide. A ignorância é a bandeira número um do governo Bolsonaro.

De concreto, ainda, pode-se lembrar, por exemplo, a “tomada da Cinemateca” por um subordinado de Frias acompanhado de uma tropa de choque. Será este um ato heroico?

De volta ao filmete de propaganda. Ali, Mario Frias é visto quase sempre em contre-plongée, de baixo para cima. Quando de pé, a figura engrandecida engrandece ainda mais os vultos nacionais representados. Quando sentado, afunda-se numa poltrona enorme: estamos no mundo dos “grandes senhores” travestidos de povo. Entenda-se: os militares.

A música de fundo, ininterrupta, infla ainda mais o quadro solene, como a nos lembrar do papel da secretaria de Cultura no governo Bolsonaro: ser pano de fundo de uma visão caquética de história ou guardião armado de bens culturais que deveriam estar em circulação.

Não é o caso de rir dessas coisas. A propaganda contempla a todos que importa contemplar: monarquistas, ministros do Supremo (ciosos da Constituição), militares em geral, paulistas (representados, se bem vi, no quadro de um soldado da Revolução de 1932). Todo o “povo heroico” (e bem concreto) que essa peça ideológica pretende agradar. De contrabando, entra o “homem comum”, encarregado do sustento da família (temos aí, então, Pátria, Trabalho, Família —onde foi que já ouvi isso?).

Esse elogio da história como monumento é, na verdade, um elogio da volta ao passado. Não qualquer passado, mas o da ditadura de 1964. Para tanto, traz ao primeiro plano o secretário encarregado de resgatar essa “história tão bela e grandiosa quanto desprezada e vilipendiada por anos de destruição de identidade nacional” —seja isso o que for—, como pretende o governo no texto que introduz, em sua postagem no Twitter, a peça publicitária. Ou, para falar mais claramente, trata-se de encarcerar e, se possível, aniquilar a atividade cultural viva (portanto subversiva) no país.

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