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Cinema

'Lua Vermelha' constrói um mundo fantástico cor de vinho tinto na Mostra

Filme de Lois Patiño une experimentação a capacidade de narrar em filme destaque do festival

Lua Vermelha

  • Onde Exibição na Mostra Play (plataforma online da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo)
  • Elenco Ana Marra, Carmen Martínez, Pilar Rodlos e Rubio de Camelle
  • Direção Lois Patiño

Um mundo de fantasmas, náufragos e bruxas é o que nos apresenta o cineasta Lois Patiño em sua estreia na ficção, "Lua Vermelha". Vindo da videoarte, Patiño soube trazer para o cinema um nível de experimentação que ele consegue aliar muito bem à capacidade de narrar.

Na trama, um navio encalha na costa da Galícia. Rubio, um dos moradores do vilarejo mais próximo, desaparece. Três bruxas surgem para tentar encontrar o desaparecido, mas o que elas encontram são fantasmas. Elas os cobrem com lençóis, fazendo deles fantasminhas, como os de histórias infantis. Um tempo depois, Rubio retorna. Estará vivo?

Em linhas gerais, o parágrafo anterior é uma pálida descrição do que acontece no filme. Porque Patiño está muito mais interessado no mistério e na atmosfera onírica do que no desenrolar de uma trama compreensível pelo espectador. Sua linguagem é poética, e sua poética é fantástica.

As paisagens belíssimas e diferentes da costa espanhola permitem esse nível de estranheza em que névoas, luzes vermelhas e até o vento parece carregar algo místico, de uma outra dimensão.

A natureza morta em interiores escuros e envelhecidos, os túneis e a represa, a natureza e seus acidentes geográficos, os fenômenos meteorológicos –a forma como o vento, as águas, os interiores são filmados por Patiño o afasta de Pedro Costa, a quem o filme lembra no início, e o liga a AndreiTarkovski e Alexander Sokurov. Da natureza à abstração.

Ouvimos os pensamentos dos solitários habitantes locais. Aceitamos naturalmente o teor poético desses pensamentos porque estamos num espaço-tempo alternativo, um outro mundo, algo como o oceano do "Solaris" de Tarkovski, no qual mergulhamos para uma investigação mais detalhada.

A insistência em mostrar os fantasminhas irrita um pouco. O efeito é interessante no início, pelo inusitado, depois começa a se tornar mais infame, um tanto deslocado do tom mais soturno do longa e das vozes que ouvimos.

O mistério é o forte do filme, e tudo que se afasta desse mistério o enfraquece. Pedro Costa é mais terreno, social, político. Patiño é espiritual, soturno, enevoado. A lua vermelha desperta os fantasmas, que passam a vagar entre os fantasminhas, num mundo então avermelhado como se embebido em vinho tinto.

"Lua Vermelha" é um filme forte, de imagens intensas, extremamente controlado (o que pode desagradar alguns). Revela finalmente o talento de seu diretor. Lois Patiño é um nome a ser seguido de perto.

Erramos: o texto foi alterado

Uma versão anterior deste texto afirmava erroneamente que "Lua Vermelha" é o longa de estreia do diretor Lois Patiño, quando na verdade trata-se de sua estreia na ficção. O texto foi corrigido. 

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