Luedji Luna foi buscar na África sons de um novo disco que celebra a mulher negra

Cantora lança seu segundo álbum, repleto de letras assertivas e influências de afrobeat e afrohouse

São Paulo

Ter um filho, gravar um disco, rodar um filme. Tudo isso na pandemia. Mas a baiana Luedji Luna dá a impressão de que “Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água” –a ideia é também o nome de seu segundo álbum, que ficou pronto num turbilhão de atividades.

“Parece que o universo se organizou para eu ser mãe”, diz a cantora e compositora de 33 anos. “Porque agora o disco já está pronto, fico em casa com meu filho, não dá para sair, para aglomerar. Só faço uma live ou outra, sem sair de perto do menino.”

Recém-lançado, o álbum que também terá um formato físico em CD sucede a bem-recebida estreia em “Um Corpo no Mundo”, de 2017. Começou a ser concebido em três shows feitos em São Paulo no ano passado, que ela classifica de “experimentais”.

Dessa forma, Luna já vinha maturando a ideia desse trabalho. Quando foi para o estúdio, a surpresa. “Quando eu me descobri grávida, meu desejo era lançar logo o álbum. Sabia que a data provável do parto seria em julho, então queria lançar no primeiro semestre.”

Ela viajou para gravar no Quênia, depois foi para a Bahia rodar clipes para um filme. Lançamento independente em formato de vídeo-álbum, “Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água” inclui um filme, dirigido por Joyce Prado, com narrativa visual de cinco das 12 faixas do disco.

Nesse ritmo de trabalho intenso para lançar o disco no primeiro semestre, veio a pandemia e mudou tudo. “Quando decidimos que não seria estratégico lançar no início da pandemia, quando só se falava disso, resolvemos esperar eu ter o meu filho e lançar o disco mais para o final do ano.” Segundo ela, “é aquela coisa de males que vêm para o bem”.

Feito então com mais rigor e calma, seu segundo trabalho tem uma diferença evidente em relação ao álbum de estreia. Este é menos percussivo. O clima é de um disco de jazz, com tramas sonoras intrincadas.

“O produtor que eu convidei para trabalhar comigo, o queniano Kato Change, é um guitarrista de jazz. E a banda é a que toca com ele. Então é a linguagem própria dos músicos que escolhi”, afirma a cantora.

“Um Corpo no Mundo” foi um disco fundado na percussão. O produtor era Sebastian Notini, percussionista sueco radicado no Brasil.

“No novo álbum, apenas duas ou três faixas têm percussão acentuada, outras têm alguns elementos percussivos sutis, coisa discreta. Tem a ideia da improvisação dos instrumentos, do trompete, do teclado”, ela conta.

Mesmo que algumas músicas tenham um potencial de hit, como a divertida “Chororô”, “Origami” e a poderosa faixa-título, o álbum pode soar sofisticado demais para o grande público?

“Com ‘Um Corpo no Mundo’ eu tinha essa impressão, achava que era um disco estranho, que eu iria fazer shows intimistas em teatros. Fui pega de surpresa com a receptividade, me peguei fazendo grandes festivais, cantando no Carnaval. Eu não vejo como o novo álbum possa não ser popular em certa medida, mas sinto que é sofisticado, nessa pegada jazz.”

Luedji Luna busca som na África, mas na nova geração, não em batuques já codificados e consagrados pelo público fora do continente. “Eu já tinha diálogo com o que é feito na música africana hoje. Eu me sinto inserida numa cena de cantoras da minha geração”, diz, lembrando Sara Tavares, de Cabo Verde, e Aline Frazão, de Angola. “Pesquiso muito afrobeat da Nigéria, o afrohouse feito na África do Sul. O último disco da Beyoncé é 100% referenciado nessa música feita hoje nos países africanos.”

Outra diferença acentuada entre seus dois álbuns é que neste as letras parecem mais assertivas, soam como firmes manifestos pessoais. “Sinto que no primeiro disco tem uma questão existencial, é muito metafórico. Agora, o amor está no campo do palpável, do material. Eu vivi essas coisas que eu escrevi, então é para desnudar mesmo.”

“A lógica do racismo é destituir nossa humanidade, e não tem nada mais constitutivo da nossa humanidade do que amar e ser amado. Então falar do amor enquanto mulher negra é reconstituir essa humanidade e também construir uma narrativa e um imaginário que é sistematicamente apagado."

Segundo ela, cantar essas músicas é também disputar uma narrativa. "Colocar a mulher negra como musa, mas também colocar como primeira pessoa, como alguém que ama, que faz sexo e que tem decepções. Como todo mundo.”

BOM MESMO É ESTAR DEBAIXO D’ÁGUA

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