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'O Problema de Nascer' aborda pedofilia com criança-robô, mas falha

Diretora Sandra Wollner, que evita sexualização explícita nas cenas, entrega filme pouco conclusivo

O Problema de Nascer

  • Onde Exibição na Mostra Play (plataforma online da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo)
  • Elenco Lena Watson e Dominik Warta
  • Produção Áustria/Alemanha, 2020

A pedofilia talvez seja o tema mais complicado de levar ao cinema. E, como a sensibilidade moderna traça parâmetros rígidos sobre como os podres do mundo podem (ou merecem) ser representados na tela, o assunto parece cada vez mais inabordável.

Mas a austríaca Sandra Wollner, diretora de "O Problema de Nascer", topa o desafio.

Ela conta a história de Elli, uma criança-robô que um homem treinou para ser sua filha, em substituição à Elli humana que sumiu anos antes —provavelmente, fugiu por ser molestada por ele.

A Elli androide é afável, doce e repete frases que já ouviu do "pai" --ela crê que as coisas que ele diz sobre sua filha verdadeira fazem parte de sua própria história. No começo do filme, os dois passam alguns dias sozinhos como que num eterno fim de semana numa mansão isolada.

Wollner evita a sexualização explícita nas cenas entre Elli e o pai —inclusive providenciou para a atriz-mirim protagonista uma prótese facial e um pseudônimo —Lena Watson— para proteger sua identidade. Muitas vezes, a relação pai-filha sugere sobretudo afeto e companheirismo.

Há instantes incômodos, mesmo que relativamente pudicos. No geral, a cineasta consegue um equilíbrio ao retratar a relação --mas muitos verão ali erotização exacerbada.

Wollner não gosta de entregar as coisas de maneira óbvia, fácil; prefere a ambiguidade e por isso o filme é quase sempre pouco conclusivo. Há margem para várias leituras.

Mesmo a fotografia é em geral muito escura, o que contribui para o mistério. Pena que a cineasta leve, vez ou outra, seu método ao extremo, como nas cenas noturnas na floresta, em que o espectador não enxerga absolutamente nada.

Nada no filme parece se completar, nem como ideia nem como proposição de debate. A própria abordagem da pedofilia recebe um tratamento por demais oblíquo; não há nem esboço do que poderia render alguma discussão.

Qual o motivo, então, de trazer esse assunto tão delicado se não é para levantar alguma questão específica sobre ele?

Na segunda metade do filme, Elli vai para a casa de uma idosa e é reprogramada para agir como um irmão da velhinha, morto décadas antes.

A ideia é falar sobre a solidão da velhice e uma provável rixa entre irmãos, mas a diretora volta a focar a criança-androide enigmática, que repete o palavrório que ouviu ao longo de sua existência. E o filme anda em círculos.

A premissa geral tem parentesco com as de "A.I.", obra de 2001, de Spielberg, ou com as do mangá "Chobits". É uma crítica à desumanização das pessoas —no caso, mostrando o oposto, o caso de uma robô que, por algum "erro", é capaz de humanidade.

Isso poderia render discussões promissoras, mas o que ocasionou essa falha? O filme não traz a menor pista. Elli é uma experiência única? A sociedade distópica do filme não tem questões éticas com a existência de robôs-humanos? Também são assuntos ignorados por Sandra Wollner.

A obsessão dela é pela incompletude —que, na arte, pode até ser muito instigante. Mas é preciso que o artista entregue alguma coisa minimamente sólida ao público. Mesmo que seja um simples trampolim, para o espectador se lançar em dúvidas.

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