Beleza de ator de 'Morte em Veneza' virou sentença para jovem, mostra documentário

Longa exibido em Sundance lembra como Björn Andrésen foi descartado após filme de Luchino Visconti

La Paz (México)

O diretor italiano Luchino Visconti lambe os lábios enquanto vê um desfile de meninos loiros para o casting de seu próximo filme, “Morte em Veneza”, de 1971.

Depois de procurar pelo ator ideal em outros países, Visconti viajou à Suécia e, em breve, ficaria deslumbrado por Björn Andrésen, um garoto de rosto angelical perfeito para o papel de Tadzio.

Então com 15 anos, Andrésen surge tímido e fica só de cueca quando Visconti pede para que seja fotografado. Nas palavras do diretor, é o “menino mais bonito do mundo”, frase que virou título do documentário da dupla sueca Kristina Lindström e Kristian Petri, que estreou no Festival Sundance na semana passada. O elogio marcaria Andrésen como uma sentença maldita.

jovem loiro de olhos azuis encara a câmera
Björn Andrésen como o menino Tadzio em cena de 'Morte em Veneza', de 1971 - Divulgação

Corta para os dias de hoje, e um velho barbudo, magérrimo e de longos cabelos brancos está prestes a ser despejado de seu apartamento por conta da sujeira. Andrésen está com pouco mais de 60 anos, mas parece bem mais velho. Os diretores narram a trajetória de sua vida, dramática antes mesmo do encontro avassalador com Visconti que o fez rodar o mundo, com uma parada alongada no Japão.

“Björn teve muita relutância em fazer o filme no começo. Mas ele entendeu nossa visão. O rosto de Tadzio o assombrou a vida toda, e ele resolveu contar sua própria história”, disse Petri ao público online de Sundance. “Filmamos por cinco anos. Ele foi nos convidando a entrar em sua vida. Não poderia ser de outra forma. Seria um horror se o explorássemos uma vez mais.”

O documentário “The Most Beautiful Boy in the World” traz fartas imagens de arquivo da época das filmagens de “Morte em Veneza”, uma adaptação do romance de 1912 de Thomas Mann que marca 50 anos em 2021. O filme segue um compositor doente que se encanta por um jovem polonês (Tadzio) de férias com a família no mesmo hotel no Lido.

"É uma história de amor puro, não sexual ou erótica. É a perfeição do amor”, dizia Visconti. “Um produtor queria que fosse Tadzia, e não Tadzio. Claro que disse não.”

Os diretores contam que Visconti havia proibido que o pessoal da equipe, formada praticamente por gays, assim como o próprio diretor, ficasse olhando para o ator mirim.

“Sem saber, de certo modo estava sendo protegido pelo homem”, lembra Andrésen. “Ele me dava apenas quatro direções —vá, pare, vire, sorria.”

Na estreia no Festival de Cannes, em entrevista a uma sala lotada de jornalistas, Visconti parecia ter se cansado do brinquedo. “Ele era muito mais bonito antes. Ele envelheceu”, disse o diretor ao lado do ator, então com 16 anos, causando risada na plateia.

“Ele está muito alto, seu cabelo está muito longo. Ele está mudando, pode virar um homem muito bonito. Mas, no momento, bem, digamos que está numa idade esquisita.”

Na noite da estreia, quando sua avó que o acompanhava na viagem foi dormir, Andrésen foi levado a uma boate gay com a equipe do filme. “As pessoas me devoravam com os olhos, rolavam suas línguas, molhavam suas bocas. Comecei a beber o que podia para apagar aquilo. Nem lembro como cheguei em casa”, diz o ator, órfão de mãe aos 11 anos e que nunca soube do pai.

Logo após o sucesso do filme, ele foi ao Japão para uma série de ações promocionais. Recebia muitas cartas de fãs locais, a maioria homens fascinados por sua beleza. Gravou discos cantando em japonês e influenciou uma geração de artistas de mangá.

“Parecia um sonho surrealista. As pessoas tinham tesouras na mão para tentar cortar meu cabelo”, lembra o ator, considerado o primeiro ídolo teen ocidental no país. “Eles me davam pílulas para me fazer bem. Tinha que estar em seis ou sete lugares por noite.”

Em 1976, foi fazer um filme na França e acabou ficando por um ano, vivendo na casa de homens ricos. “Recebia longos poemas de amor, presentes caros, me pagavam tudo. Tinha até mesada. Isso entrava no meu ego”, diz. “Achava que era porque gostavam de mim. Mas, na verdade, eu era só um troféu para eles.”

Andrésen virou músico e fez escola de atuação, com uma carreira de altos e baixos. O filme mais recente de destaque foi “Midsommar”, de 2019, no papel do líder da aldeia que se sacrifica do alto de um desfiladeiro. No momento, está na Finlândia gravando um seriado e prepara um novo álbum.

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