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Tradições perturbadoras milenares dão o tom para falso horror 'Midsommar'

Nova sensação de Hollywood, Ari Aster teve ideia para o filme após um término de relacionamento

Los Angeles

Términos de relacionamento raramente são fáceis. Entre a dor do fim e a aceitação do recomeço, há um espectro imenso de sentimentos que podem levar um dos lados a decisões drásticas.

No caso de Ari Aster, um dos diretores mais incensados de Hollywood após o sucesso do terror “Hereditário” (2018), o final de um namoro o levou à criação de “O Mal Não Espera a Noite - Midsommar”, que estreia nesta quinta-feira (19).

“Uma produtora sueca me procurou depois de ‘Hereditário’ para fazer um filme sobre jovens americanos de férias sendo mortos, mas não fiquei muito interessado. Tinha acabado um longo relacionamento e não estava bem”, conta o cineasta à Folha.

“Voltei para casa e percebi que deveria escrever algo, porque estava num péssimo estado. Foi quando encontrei uma maneira de misturar a trama sobre separação que gostaria de fazer com o projeto de um falso horror na Suécia. É algo bem pessoal.”

A trama segue Dani (Florence Pugh), uma jovem presa a um relacionamento inerte com Christian (Jack Reynor), um estudante de antropologia. Ela acaba perpetuando o namoro após a chocante morte da irmã e dos pais. 

No meio do luto, acaba se intrometendo na viagem do namorado com os colegas para a Suécia, onde eles estudarão os costumes de uma festa de solstício de verão baseada em antigas tradições locais.

“Existe um paralelo entre separações e a morte. A única razão de ser tão difícil romper uma relação é que sempre estamos procurando por uma família de aluguel, mesmo que isso seja inconsciente”, diz Aster.

“Dani lida com um dilema existencial, pois perdeu todo mundo, então tenta se segurar na única pessoa que pode chamar de família, ainda que os dois não sejam certos um para o outro.” 

Na isolada comunidade sueca, o grupo de americanos se depara com tradições milenares chocantes e perturbadoras.

“Fiz muita pesquisa. Mergulhei nas tradições, na história e no folclore da Suécia, mas também li sobre tradições inglesas e germânicas de solstício de verão. Há também muita invenção e imaginação”, diz o diretor. Apesar do clima de paranoia e de (raras) cenas grotescas, “Midsommar” não é um filme de terror, como foi vendido pelos produtores em busca de faturar em cima do sucesso de “Hereditário”.

O cineasta tem consciência de que pode decepcionar alguns fãs. “Não queria fazer um filme de terror, mas um conto de fadas adulto”, comenta. 

Nas suas 2h20 de duração, o longa de Ari Aster usa metáforas claras sobre feminismo e relações tóxicas. 

“Me ponho na pele de Dani, mas tenho certeza de que já fui um Christian em algum momento. Todos nós, na verdade, já estivemos em uma relação na qual não queríamos estar, mas tivemos medo de cair fora, porque não queríamos magoar a outra pessoa”, explica o americano, que deve dar um tempo no cinema de horror nos próximos anos.

“Acho que terminei com o horror por um tempo. Amo o gênero e tenho certeza de que voltarei a ele. Estou escolhendo o próximo projeto entre os roteiros que já escrevi. Pode ser uma comédia sombria ou um drama familiar épico”, diz Aster, completando com um sorriso de canto de boca. “Ambos são bem esquisitos.”

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