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'Menino de Ouro' tem delicadeza e a voracidade de um thriller

Estreia da autora Claire Adam descreve com urgência angústias de família pobre em Trinidad e Tobago

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Menino de Ouro

  • Preço R$ 67 (272 págs.)
  • Autor Claire Adam
  • Editora Todavia
  • Tradução André Czarnobai

A muitas horas de Port of Spain, a capital de Trinidad e Tobago, numa área rural onde só há “mato e bandidos”, como descreve um personagem, se passa a história hipnotizante e desesperadora desse belo romance de estreia.

O país, muito pobre, enfrenta níveis altíssimos de corrupção e violência, o que faz o leitor brasileiro se sentir em território familiar. O efeito disso na sociedade é destruidor e perpassa todas as personagens da história. Infelizmente, esse é mais um ponto comum com a nossa realidade.

A família de Clyde Deyalsingh mora em uma casa simples que parece estar desmoronando. Ele, o pai da família, é um homem sério, que se esforça o tempo todo para ser justo. Não quer consertar nem melhorar nada em sua casa porque junta dinheiro para prover um futuro melhor para seus filhos e sua mulher, Joy. Clyde trabalha duro numa usina petrolífera e ganha pouco. Joy cuida da casa e dos dois filhos, Peter e Paul, gêmeos idênticos de 13 anos, mas completamente diferentes de personalidade.

Peter é a grande esperança dos Deyalsingh. Sua inteligência acima da média o destaca desde pequeno na escola em que os irmãos estudam. Tira nota máxima em todas as provas e nunca decepciona os pais com seu comportamento impecável. Clyde e Joy torcem para que ele vença um prêmio em dinheiro no último ano do ensino médio para poder pagar uma faculdade nos Estados Unidos.

Paul nasceu meia hora depois de Peter, seu parto difícil teve de ser feito a fórceps e ele ficou um tempo sem oxigênio. Por isso, é considerado “levemente retardado”, como ele mesmo se define. Tem dificuldade para ler e vai mal na escola. Tem horror à ideia de cortar o cabelo por conta de um trauma na infância, e é chamado de Tarzan pelos garotos do bairro. Sonha com abandonar os estudos, arrumar um emprego e usar o dinheiro para comprar jeans modernos e óculos escuros.

Uma tarde, Paul sai andando de casa e não volta. Chega a noite, as ruas ficam vazias, e nada do menino aparecer. No dia seguinte, com um misto de preocupação e raiva, Clyde se vê obrigado a faltar no emprego para procurar pelo filho que já deu tanto trabalho e que ele não entende direito. A mãe, em desespero, torce para que o menino tenha apenas perdido a noção do tempo. Paul já fez isso antes. Mas nunca deixou de dormir em casa.

Para qualquer pai ou mãe, o sumiço de um filho é um dos medos essenciais, que nascem junto com a criança. Para uma mãe de gêmeas, como eu, a ideia de ter um abertamente favorito provoca um desconforto adicional. Mas ninguém precisa ter filhos, muito menos gêmeos, para apreciar essa trama, escrita com delicadeza e a voracidade de um thriller.

Enquanto a busca por Paul vai se alongando, a autora introduz particularidades da família e do país. A sociedade de Trinidad é descrita com cuidado e muita informação, mas não chega a fazer o leitor se desviar do suspense. Em flashbacks, ficamos sabendo o que aconteceu quando os gêmeos nasceram e os detalhes de um assalto que a família sofreu recentemente.

O paradeiro de Paul é finalmente revelado e complica ainda mais a trama e as relações entre os personagens. Mas sem mais spoilers. Esse é um livro que merece ser lido. Claire Adam é uma escritora capaz de ter uma visão profunda de seu país de origem (ela nasceu e foi criada em Trinidad, mas mora em Londres atualmente) e o apresentar por meio de diferentes aspectos da vida de seus personagens.

Mulher morena de franja de lado sentada em cadeira
A escritora Claire Adam, autora de 'Menino de Ouro', que nasceu em Trinidad e Tobago e vive em Londres - Tricia Keracher Summer/Divulgação

A preocupação exacerbada com dinheiro de quase todos eles, a dedicação dos padres que dirigem a escola onde Peter e Paul estudam, o desejo dos irmãos de irem a uma festa em Port of Spain, a atitude dos parentes de Joy, que convivem com a família e fazem coro para a preferência dos pais por Peter.

O coração da trama, no entanto, é uma decisão terrível que o pai, Clyde, precisa tomar no final do livro. Obrigado a escolher entre investir tudo o que tem no futuro e na vida de um filho ou de outro, ele é tomado de angústia e incerteza. O homem que passou a vida inteira tentando ser justo e honesto tem que fazer uma opção impensável, em que inevitavelmente vai ser injusto e desonesto com um dos gêmeos.

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