Nos 80 anos de Bob Dylan, fãs se reúnem para cantar parabéns na sua antiga casa

Evento integra programação em homenagem ao músico em Duluth, em Minnesota, onde ele morou até os seis anos

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Duluth (EUA)

A apenas cinco minutos a pé do hospital onde Bob Dylan nasceu há exatos 80 anos, dezenas de fãs do incansável trovador se reuniram na tarde de segunda-feira (24) para cantar suas músicas em frente à sua casa de infância em Duluth, interior do estado de Minnesota, no norte dos Estados Unidos.

O músico local Greg Tiburzi se apresentou na varanda da modesta residência de dois andares, construída em cerca de 1910. Ele embalou os presentes com os hits “New Morning”, “Chimes of Freedom”, “Like a Rolling Stone”, além de liderar um animado “Happy Birthday”. Na calçada, havia bolo e cupcakes para celebrar a data, além de venda de broches e ímãs de geladeira.

A residência é uma das duas antigas casas da família de Dylan que pertencem a um superfã chamado Bill Pagel, um farmacêutico aposentado de 79 anos. A segunda propriedade fica em Hibbing, a 120 quilômetros ao norte, onde Dylan morou entre 1948 e 1959.

Pagel, um dos maiores colecionadores de Bob Dylan do mundo, comprou a casa de Duluth em 2001 por US$ 82 mil, após a encontrar no site eBay. Mas ele diz que já gastou muito mais do que isso com as reformas.

“A varanda estava em mau estado, refiz praticamente todo o telhado e troquei todo o corrimão para madeira que era o estilo original. Pintei na cor original também”, disse à repórter, enquanto varria a entrada da casa à espera dos fãs.

Um dos presentes na cantoria foi o engenheiro mecânico aposentado David Rian, de 79 anos, que estudou por quatro anos na mesma turma que Dylan, em Hibbing.

“Ele era um estudante mediano, não era excelente. Apenas um garoto normal”, contou Rian, lembrando que uma vez tirou Dylan numa troca de presentes de Natal e deu a ele um conjunto de cartas de tarô. “Ele adorou e tirou a sorte de todas as meninas da turma.”

Rian perdeu contato com Dylan, mas o músico voltou a Hibbing para uma reunião da escola em 1969. “Todos os caras que não queriam saber dele na escola o ficaram rodeando na festa. Eu fiquei feliz que ele me cumprimentou, não precisei pedir autógrafo”, disse.

Pagel levou a repórter para um tour pela casa, parando na porta da entrada do porão para mostrar uma mezuzá pintada que provavelmente foi usada pela família de Dylan.

No segundo andar, há móveis de época, mas não originais. A exceção é um cadeirão de bebê usado pelo pequeno Robert Zimmerman —nome original de Dylan— que Pagel comprou nos anos 1990 de uma amiga da mãe do músico.

“Se eu pudesse perguntar uma única coisa a Bob Dylan, e só ela, seria qual foi o seu quarto nesta casa”, disse Pagel, que tem mais de 15 mil fotografias, 4.000 pôsteres de shows e 18 gaveteiros entupidos de manuscritos diversos, além de já ter visto mais de 500 shows de Dylan pelo mundo.

Duluth é uma cidade portuária de 85 mil habitantes, à beira do lago Superior, o maior dos cinco Grandes Lagos, na fronteira dos Estados Unidos com o Canadá. Dylan fala da cidade em sua autobiografia “Crônicas - Volume Um”, de 2004. Diz que suas memórias mais fortes são os céus cinzentos sombrios, as tempestades violentas e as sirenes de nevoeiro dos navios que aportavam no lago Superior.

Ele lembra dos “ventos uivantes impiedosos que vinham do grande lago negro misterioso, com ondas traiçoeiras de três metros”, segundo escreveu no livro.

Nesta segunda, o tempo amanheceu bem de acordo, com muita neblina cobrindo o lago, ventos gelados e temperatura de 5 ºC.

A cidade tem poucas lembranças relacionadas ao oráculo octogenário. Há uma rua batizada Bob Dylan Way, com duas tampas de bueiro feitas por artistas locais, uma delas inspirada nas letras de "Subterranean Homesick Blues".

Ao fim da rua, fica uma casa de shows histórica, a Armory, onde Dylan viu Buddy Holly tocar com Big Bopper e Ritchie Valens, em 1959. O trio morreria num acidente de avião duas noites depois. Nos fundos da Armory, há um mural em homenagem a diversos músicos, incluindo Dylan.

Duluth tem também uma padaria chamada Positively 3rd Street Bakery, uma brincadeira com o nome da canção “Positively 4th Street”, mas lá ninguém sabia do aniversário do astro. “Ele está fazendo 80 anos?”, perguntou, em tom de surpresa, a atendente Danielle Fitzsimmons, de 20 anos, que prefere hip-hop e R&B.

O cantor de “Forever Young” e “Blowin’ in the Wind” deixou a cinzenta Duluth aos seis anos para morar em Hibbing com seus pais e irmão mais novo. Depois de se formar no ensino médio, se matriculou na universidade em Minneapolis, a maior cidade do estado de Minnesota, mas logo desistiu com objetivos mais nobres em mente. Ele ainda tem parentes na região, embora seja bastante reservado sobre sua vida.

O evento na residência de Dylan em Duluth foi um entre os vários do festival de nove dias Duluth Dylan Fest, uma celebração anual cancelada em 2020 por causa da Covid-19 e que seguiu parcialmente virtual neste ano. A pandemia também atrapalhou os planos do próprio Dylan, que ficou longe das turnês pela primeira vez em mais de três décadas.

O aniversariante, que mora no sul da Califórnia desde os anos 1970, não fez comentários sobre a enxurrada de tributos dos últimos dias, como já era de se esperar devido à sua personalidade bastante reservada. Ninguém sabe onde ele passou o aniversário.

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