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Pabllo Vittar homenageia música popular em disco sobre o arco do brega

Artista maranhense volta a olhar para dentro do Brasil em 'Batidão Tropical 2', com covers e versões de forró e brega

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Batidão Tropical 2

Se sobre o mapa do Brasil traçarmos uma parábola que liga Recife ao Pará, teremos o Arco do Brega. Nesta região, entendida aqui mais sonicamente que territorialmente, a música brasileira pulsa numa frequência incessante de renovação na qual o popular é fagocitado e regurgitado com vários nomes e novos repertórios: tecnobrega, tecnomelody, marcantes, brega, seresta, piseiro, forró eletrônico, forró de favela.

É neste arco em que nasce "Batidão Tropical 2", novo álbum de Pabllo Vittar. É também nesta região onde a artista se criou, entre interiores de Pará e Maranhão, ouvindo resquícios de festa de aparelhagem e shows de prefeitura, que davam na sua casa, ou se inspirando em cantoras como Joelma —figura cativa de programas de auditório das emissoras pernambucanas e paraenses antes de despontar para o Brasil nos anos 2000.

A drag queen cantora Pabllo Vittar em ensaio de fotos para o disco 'Batidão Tropical Vol. 2'
A drag queen cantora Pabllo Vittar em ensaio de fotos para o disco 'Batidão Tropical Vol. 2' - Gabriel Renné/Divulgação

O novo álbum de Pabllo, suíte de "Batidão Tropical" de 2021, repete o predecessor no objetivo: revisitar sucessos do cancioneiro populaça norte-nordestino, músicas que arrastaram multidões nos anos 1990 a despeito do conglomerado musical sudestino, goiano e baiano. Seja pela nostalgia dos iniciados, ou por ser novidade para o público do Centro-Sul, o disco acerta no alvo como da outra vez.

O álbum tem 14 faixas e apenas uma música autoral, "Idiota". Três faixas foram substituídas por mensagens de voz da cantora em que ela promete novas canções para logo. Soaria como novidade, uma obra editável no futuro via plataforma de streaming, mas parece mais com uma tentativa desnecessária de fazer o ouvinte voltar ao disco.

A manobra é dispensável porque quem ouvir "Batidão Tropical 2" deve voltar a ele. Não que o faça lendo o disco como algo alinhavado, indo de A a Z, mas sim tratando-o como um CD pirata cheio de covers perfeitos para uma boa festa —festa mesmo, daquelas nas quais a chance de haver diversão desavergonhada é a mesma de haver lamento descarado.

O trunfo de Pabllo e sua turma, aliás, está em tratar o cover como homenagem criativa em vez de cópia tediosa ou palco de virtuosismo. "Pra Esquecer", faixa que abre o álbum, é um dos maiores hits do Calypso. No disco, os indefectíveis metais da original são realçados, a guitarrada ganha brilho e as baterias vem encorpadas. Parece igual, mas é diferente.

Nessa faixa também somos apresentados a uma nova Pabllo. A cantora explora sua voz para além da diva norte-americana e o alcance de notas altas —algo que ela sabe fazer, já sabemos. Muito mais nuançado, seu canto se encaixa com doçura no tal batidão e chega a soar suave, como a versão piseiro de "Listen to Your Heart", do grupo Roxette.

A faixa, intitulada "Pede Pra Eu Ficar", também se destaca na ponte com batidas de reggaeton. Outro ponto forte do disco é reiterar, ainda que timidamente, a conexão latino-americana do Norte e Nordeste do país. "Idiota", por exemplo, é um piseiro com bachata cheio de potencial para ganhar as vozes de Nadson o Ferinha.

No polo rastapé do disco, Pabllo resgata cânones da virada dos anos 1990, quando os trios de forró perdem espaço para bandas como Forró do Muído e o sucesso "São Amores". Com seus produtores, a cantora resolve o encontro entre as duas escolas: "Me Usa", sucesso do Magníficos, é um tributo ajeitado, um casamento entre forró de arena e pé-de-serra.

No polo brega paraense, Pabllo faz um bem-vindo duo com Gaby Amarantos na marcante "Não Vou Te Deixar" e saúda as aparelhagens Rubi e Príncipe Negro. Menos conhecidas fora do quadrilátero formado por Santarém, Macapá, Belém e Imperatriz, no Maranhão, os dois sistemas de som são dos mais longevos representantes da música eletrônica nortista e aparecem no álbum em canções que proclamam em alto e bom som seus nomes.

Fazer os hinos dessas aparelhagens ecoarem pelo Brasil no álbum de uma artista com o alcance de Pabllo já valeria se fosse só pelo registro. Ainda assim, há um trato especial que beira o risco nessas duas faixas. Em "Rubi", com participação de Will Love —alçado a algum sucesso há dez anos com a Gangue do Eletro—, há texturas tímidas de dub.

Já em "Ai Ai Ai Mega Príncipe", Pabllo e sua turma ousam mais: a música soa como um pós PC-Music, cheia de acordes e sintetizadores erodidos tamanha saturação. É uma operação reforçada em "Não Desligue o Telefone", da Banda Djavú. Com cacife para entrar nas listas de melhores do ano, a música é um hyperpop extremamente brasileiro com batidas de rave e dembow desconstruído.

Se na horizontal, no mapa, "Batidão Tropical 2" se encontra no Brasil vivido por Pabllo, na vertical o disco sobe às nuvens do mundo digital que a música popular brasileira ocupa. É como se a artista tivesse conectado Kelvis Duran, um dos reis do brega pernambucano, com Kelman Duran, produtor dominicano que dobra o reggaeton em novas possibilidades de música eletrônica de pista.

As duas maiores cantoras pop do Brasil, hoje, voltam seus esforços ao mercado internacional. Após atingir números consideráveis nas rádios, TVs e streaming, parece não haver mais Brasil para elas. Pabllo, mesmo fazendo covers —algo que pode soar repetitivo—, prova o contrário: o pop brasileiro ainda pode correr muito chão de dentro.

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