Aplicativos que reescrevem artigos acendem alerta na academia

Softwares agem com base em mudança de ordem das frases e em uso de sinônimos

Juliana Sayuri

[RESUMO] Programas e aplicativos reescrevem textos com base em mudança de ordem das frases e em uma ‘caixa de sinônimos’ para artigos acadêmicos. Seu uso desperta discussões sobre originalidade, plágio e seus impactos na produção científica.

A economista russa Julia Baranova escrevia as primeiras linhas de um artigo inédito sobre internacionalização de startups para um periódico científico. Entre um parágrafo e outro, cogitou contratar uma editora para revisar sua redação em inglês —e apontar as diferenças linguísticas entre os padrões britânico e americano.

Graduada em economia internacional na Universidade Lobachevsky de Nijni Novgorod (Rússia) e radicada no Brasil desde 2005, Julia é adepta de ferramentas digitais para formatação de referências bibliográficas e transcrição de áudio. Curiosa, ela “googlou” ferramentas para redação de artigos acadêmicos. 

No meio do caminho, encontrou informações sobre softwares detectores de plágio e, para sua surpresa, sites pensados na direção inversa: programas que propõem “reescrever” textos a partir de paráfrases, mudança de ordem das frases e substituição por sinônimos.

Em outras palavras, permite trocar “seis por meia dúzia” para repaginar textos que talvez não sejam de autoria do usuário.

“Você pode pegar três artigos, que não necessariamente são seus, e jogar dentro do app. Ele altera a sequência dos parágrafos e troca as palavras, o que, no fim, tenta despistar testes de plágio. Fiquei indignada”, diz Julia, que está concluindo o mestrado profissional no Centro de Ciências da Administração e Socioeconômicas da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), em Florianópolis (SC). 

Em inglês, é possível encontrar ferramentas como Spinbot, Plagiarisma Spinner e Clever Spinner. Disponível em português, o Word Spinner, por exemplo, se anuncia abertamente como “programa para parafrasear textos online”, capaz de criar textos “autênticos” e “automáticos”, com “caixa inteligente de sinônimos” e “spinner de frases”.

No pé da página, o site informa: “O Spinner facilita sua vida na criação dos seus projetos, seja para o mercado de internet digital ou para trabalhos acadêmicos. Entretanto, nós não incentivamos e somos TOTALMENTE CONTRA o plágio. [...] Caso você infringir [sic] essa lei, é de inteira responsabilidade sua, e SOMENTE sua pelo [sic] seus atos”. A caixa alta consta no original.

A mestranda experimentou alguns apps, mas não foi adiante. “Não fez sentido. Em russo, por exemplo, costumo dizer que as expressões têm ‘50 tons’: uma palavra pode ter muitos sinônimos, mas cada termo se refere a uma ideia com nuances muito sutis”, define.

“Nessa cultura de soluções prontas, onde fica a originalidade? Será que a tendência a longo prazo é o pensamento crítico ser substituído pela inteligência artificial? Vejo um conjunto de questões éticas, editoriais e científicas, num contexto agravado pela filosofia ‘publish or perish’, isto é, ‘publique ou pereça’”, diz Julia.

A expressão se refere às pressões para publicação, acelerada e contínua, de artigos acadêmicos, um dos critérios de avaliação de produtividade de alunos e docentes

Burlar a produção, reescrevendo artigos apenas mediante paráfrases, sobretudo sem citar as fontes devidamente, é antiético —ou, nas palavras de Renato Janine Ribeiro, é vender “gato por lebre”.

Professor de ética e filosofia política na USP, ex-ministro da Educação e ex-diretor de avaliação da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), Janine destaca dois problemas: “De um lado, há a desonestidade intelectual do plágio. De outro, se esse mercado [de programas de paráfrase] existe, é porque existe demanda. Diante das pressões para publicação, abre-se margem para a produção de artigos não necessariamente originais e sem relevância científica. Estamos numa situação de excesso de escrita, de qualidade questionável, e falta de leitura”.

Essas pressões correspondem a um contexto de “aceleração social do tempo” investigado pelo historiador Rodrigo Turin, professor associado da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro).

“A pressão por performance —vinculada à nova fase de um capitalismo financeiro extremamente veloz, num mercado de trabalho pós-fordista em constante transformação—, promove a fabricação de novas tecnologias que irão intensificar ainda mais a aceleração. É como um círculo vicioso”, comenta Turin, atualmente no pós-doutorado na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, em Paris.

Os programas seriam sintomas dessa sociedade acelerada, marcada pelo “Ctrl+C + Ctrl+V”. Para Turin, as ferramentas trazem um “copia e cola” 2.0, organizado por algoritmos.

“Estamos vendo a emergência de uma ‘escrita algorítmica’, um modo de produção textual que prescinde dos elementos de criatividade e autoria. Esses programas reatualizam, a seu modo, elementos da retórica: organizam e dispõem uma série de lugares-comuns e ideias prontas em novas combinações, jogando com um critério de verossimilhança pré-estabelecido. Mas, ao contrário da retórica clássica, intencionalidade, inteligência e criatividade agora são terceirizados para um programa de computador”, critica.

Segundo o historiador, nas universidades a aceleração se expressa através da incorporação de conceitos como “competitividade”, “eficiência” e “produtividade”. Sob pressões de prazos e metas, passa-se a privilegiar medidores numéricos de produção (a quantidade), em detrimento do interesse social ou da relevância científica (a qualidade).

“Escrever artigos em sequência, mecanicamente, inibe a dimensão criativa da ciência. Do mesmo modo, pela quantidade crescente de produção, temos produzido cada vez mais artigos sem leitores: se produz mais do que se lê”, analisa Turin.

Entre os efeitos da aceleração gerada pelas pressões de performance numérica nas universidades está a chamada “salami science”. Em bom português, “ciência salame”.

Trata-se da prática de “fatiar”, tal qual o produto da charcutaria italiana, um estudo para poder publicá-lo em partes, em diferentes periódicos científicos, ganhando mais “pontos”. 

“O pesquisador que adota esta prática passa a falsa imagem de que é muito produtivo. Essa conduta obriga o leitor interessado na pesquisa a ter que acompanhar as publicações ‘fatiadas’ para compreender o argumento original”, define a historiadora Roberta Cardoso Cerqueira, desde 2009 editora-executiva da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), no Rio.

“Escrever com outras palavras não significa que a ideia é sua. Parafrasear não dá permissão para que você não identifique o autor dos argumentos que você gostaria de ter descoberto e publicado antes”, afirma, lembrando que os novos programas não eliminam a obrigatoriedade de referenciar as obras originais.

Na Manguinhos, Roberta relata preocupações com autoplágio (às vezes presente na “ciência salame”) e plágio. “[É importante] manter políticas editoriais transparentes que atraiam bons autores e avaliadores e que estejam convencidos da importância da originalidade”, acrescenta o editor científico Marcos Cueto.

Há diferentes tipos de plágio. Um deles é o chamado de “buscar-substituir”, no qual palavras e expressões-chave são alteradas, mas se mantém o conteúdo essencial. Outro é conhecido como “mistura”, mescla de trechos de trabalhos de diversas fontes. Qualquer que seja o tipo, o plágio é uma violação dos códigos éticos nas universidades, o que se enquadra em “má conduta”. O tema está sob o guarda-chuva da “integridade acadêmica”.

“Plágio não é só uma questão de desonestidade ou má-fé”, afirma Mariana Rutigliano, gerente de inovação para América Latina da Turnitin, multinacional que desenvolve software detector de plágio. Muitas vezes, funciona como um tipo de “atalho” para contornar limitações do autor como o desconhecimento do uso correto de citações, falta de vocabulário e domínio das regras gramaticais, entre outros.

Presente em mais de 15 mil instituições de ensino em 150 países (no Brasil, USP e Unesp, por exemplo), o sistema da Turnitin faz uma varredura para identificar o percentual de similaridade de um texto diante de uma base de dados de 62 bilhões de páginas na internet, além de milhões de artigos, livros e teses. 
Há outras ferramentas como CheckForPlagiarism.Net, Plagiarism Detector e Duplichecker.

De acordo com pesquisa da Unicamp divulgada em fins de 2018, 87% dos alunos ingressaram na universidade sem saber o que é plágio; 36% admitiram paráfrases e/ou cópias sem citar a fonte original. O estudo foi coordenado pela Turnitin, ao lado da Data14, consultoria das pesquisadoras Ana Paula Morales e Sabine Righetti, colaboradora da Folha. Outro estudo de referência, realizado pela pesquisadora Sonia Vasconcelos, na UFRJ, indica que 46% dos casos de retratações de artigos acadêmicos brasileiros estavam relacionados ao tema.

Segundo Mariana, há uma tendência forte rumo ao desenvolvimento de tecnologias que utilizam a inteligência artificial para, a partir do “input” do autor, revisar e dar recomendações para melhorar um texto. “A escrita é um momento de aprendizagem. O ponto positivo é a possibilidade de usar essas ferramentas como parte do aprendizado, para enriquecer um texto —se o responsável final for o autor, não o algoritmo”, diz.

“O ponto negativo é o uso indevido de quem busca respostas prontas. Certamente a construção do conhecimento envolve diálogo com outros autores, a revisão bibliográfica. Mas o autor precisa trazer algo novo e original. Ferramentas não podem ser ‘muletas’”, define.

Trocando em miúdos, segundo especialistas, as novas ferramentas podem facilitar processos de escrita, mas espera-se que a articulação de ideias ainda carregue as impressões digitais do autor. Para citar o clichê: “Escrever é uma arte” —autoria desconhecida. 


Juliana Sayuri, jornalista e historiadora, é autora de “Diplô: Paris – Porto Alegre” (2016) e “Paris – Buenos Aires” (2018).

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