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Livro sobre a reinvenção da Microsoft traz pouca surpresa

Presidente-executivo da empresa desde 2014 trata do avanço de novas tecnologias

O presidente-executivo da Microsoft, Satya Nadella, autor de 'Aperte o F5', durante conferência em Paris - AFGerard Julien - 24.mai.2018/AFPP
Filipe Oliveira
São Paulo

Aperte o F5

  • Preço R$ 39,90 (264 págs.)
  • Autor Satya Nadella
  • Editora Benvirá

Ao se tornar o terceiro presidente-executivo da história da Microsoft, em fevereiro de 2014, o indiano Satya Nadella assumiu o dever de reconstruir a cultura da empresa e dar novos rumos para seus negócios.

A companhia sofria, de um lado, com o acúmulo de burocracias internas e disputas pelo poder, e, de outro, com o encolhimento do mercado de computadores, que perdiam espaço para smartphones.

O executivo, que já estava na empresa há mais de duas décadas, narra como enfrentou esses desafios durante sua ainda curta jornada à frente da companhia no livro "Aperte o F5", em referência a tecla do computador usada para atualizar páginas na internet.

Na obra, Nadella descreve a busca da Microsoft por deixar de estar apenas associada ao Windows e mostra como a empresa procura destaque em áreas emergentes como computação em nuvem, inteligência artificial, realidade aumentada e computação quântica.

Para apresentar as oportunidades futuras, Nadella segue um formato bem desenhado e pouco empolgante.

Talvez para agradar a clientes e a funcionários, o autor faz uma breve apresentação de cada assunto, trata da importância dele para a Microsoft, cita projetos e conta que determinado executivo trabalha com isso na empresa.

Não há grandes revelações sobre os bastidores dessas transformações, relatos de discussões acaloradas na empresa nem explicações convincentes sobre negociações bilionárias da Microsoft, como a compra da Nokia (que Nadella foi contra) e do LinkedIn.

O que o livro tem em abundância são jargões insossos do mundo corporativo, como "criar uma cultura de crescimento", "conectar a empresa com a missão de empoderar pessoas" e "redescobrir a alma da Microsoft".

O relato de Nadella sobre sua vida pessoal também parece deixar muito de fora. Sem fatos extraordinários, o autor escreve sobre sua família, seus estudos na Índia e sua paixão pelo críquete, esporte popular em seu país natal.

A exceção fica para os trechos em que o executivo trata de seu filho, que nasceu paralisia cerebral.. 

A experiência deu ao executivo um senso de responsabilidade ao mostrar o impacto que tecnologias podem ter para melhorar a vida de pessoas, em especial as com limitações físicas. Também auxilia o autor em uma defesa enfática e convincente a respeito da importância da empatia em relação aos clientes na hora de fazer negócios.

Nadella é da mesma forma contundente quando deixa de fazer propaganda de si e da empresa e trata do equilíbrio delicado entre privacidade de usuários e tentativas de governos de obter esses dados para investigações criminais.

Ele defende a criação de leis para reger essas solicitações de informações, que só devem ser atendidas quando há provas de crimes e devem ser acompanhadas por órgãos independentes, escreve.

Também fica acima da média o capítulo em que o executivo trata da ambiguidade na relação das empresas de tecnologia. Mostrando que as mesmas companhias podem ser rivais e parceiras em negócios diferentes, Nadella escreve sobre o lançamento de aplicativos da Microsoft para iPhones e como isso teria sido uma quebra de paradigma.

Causa estranheza que, mesmo com as críticas duras de Nadella ao estado em que encontrou a Microsoft, seus predecessores, Bill Gates e Steve Ballmer, saiam praticamente ilesos após a leitura do livro.

Nadella pode estar se arriscando em várias frentes e fazendo um bom trabalho no comando da empresa. Porém seu texto pouco arrojado indica que a maior parte da história ainda está por ser escrita.

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