Descrição de chapéu New York Times

O que é glitter? Conheça uma das principais fábricas do produto nos EUA

Partículas decorativas de plástico criadas nos anos 1930 levam séculos até se biodegradar

Caity Weaver

Ele enfeita vitrines de lojas, como se fosse uma nevasca deslumbrante. Brilha, dourado, nas unhas postiças de mulheres jovens. Cintila como uma estrela de contornos milimétricos em um ornamento que mostra um urso dirigindo um carro que reboca um trailer de camping.

Nas casas, shoppings, escolas, bancos, hospitais, concessionárias de veículos e escritórios ele reluz. Brilha. O polietileno tereftalato metalizado com alumínio. O glitter.

O que é glitter? A resposta mais simples causa uma leve insatisfação, mas ao menos você continuará a confiar em sua capacidade de compreender as propriedades físicas básicas do material. O glitter é feito de glitter. Glitter grande gera glitter menor; glitter menor se espalha por toda parte; é impossível remover qualquer forma de glitter.

Se você exigir uma definição mais detalhada, fica o aviso: o caminho que conduz ao esclarecimento está repleto de segredos comerciais, vapores, lingotes de alumínio, enrolação digna da CIA e regiões invisíveis do espectro luminoso, além de de uma unidade de medida expressa como “10-6 m”. E envolve Nova Jersey.

 

Os seres humanos gostam de glitter. Coisas reluzentes nos atraem da mesma maneira selvagem que levava nossos ancestrais a se deixar dominar pela compulsão de procurar mel. Uma teoria que ganhou popularidade entre os psicólogos experimentais (sustentada, em parte, por um estudo que monitorava o entusiasmo de bebês por lamber placas com acabamento reluzente) é a de que nossa atração pelo que reluz deriva da necessidade inata de buscar água fresca. 

O glitter é um produto tangível —ou um aglomerado de produtos tangíveis (“glitter” é um substantivo coletivo; consiste de um agregado granular, como o arroz)—, e sua invenção é tão recente que ele mal conta com definições. 

O dicionário Oxford de inglês explica o glitter principalmente como um tipo intangível de luz brilhante. Até que a substância usada em artesanato fosse inventada, no século 20, o observador podia observar o “glitter” [brilho”] de alguma coisa (digamos, um vidro), ou segurar em suas mãos alguma coisa com glitter (por exemplo, cacos de vidro).

As pequenas e reluzentes partículas decorativas teriam surgido, segundo a crença popular, numa fazenda do estado na década de 1930, quando um imigrante alemão inventou uma máquina para cortar excedentes de material em pedacinhos minúsculos. Curiosamente, ele só começou a pedir patentes sobre suas máquinas, que cortavam folhas metálicas para produzir o que ele inicialmente definiu como "slivers", em 1961.

Os eventos específicos que conduziram à dispersão inicial do glitter são nebulosos: em maneira bem característica do glitter, de repente ele estava em toda parte.

Um artigo publicado pelo The New York Times em dezembro de 1942 —possivelmente a primeira menção ao material em um jornal— sugeria aos moradores da cidade de Nova York que os vasos contendo ramos verdes usados para decorar suas janelas na temporada de festas poderiam oferecer "cintilação adicional" se "enfeitados com 'glitter' ou mica, comprados em lojas de presentes". Os vasos estavam em uso para substituir as velas natalinas, cujo uso o exército havia proibido depois do anoitecer —assim como proibiu os sinais em neon na Times Square e a luz na tocha da Estátua da Liberdade—, depois de determinar que o brilho iluminava os navios aliados em silhueta contra a linha da costa, fazendo deles alvos fáceis para os submarinos alemães.

POR DENTRO DA FÁBRICA

A maior parte do glitter consumido nos Estados Unidos é produzida em duas fábricas, ambas em Nova Jersey.

Um desses estabelecimentos, no local da suposta fazenda em que o glitter foi inventado, se recusou a responder a perguntas. "Somos uma empresa muito reservada", um representante da companhia afirmou por email.

O segundo é a Glitterex. A Glitterex foi fundada em 1963. Babu Shetty, 69, se tornou presidente-executivo da empresa em 1999, mas trabalhou no desenvolvimento de alguns de seus produtos de glitter desde a década de 1970, quando chegou aos Estados Unidos, vindo de Mumbai, para fazer um curso de pós-graduação. Seu doutorado foi em ciência dos polímeros e engenharia. Ele brinca que caiu no negócio do plástico porque isso foi recomendado ao personagem de Dustin Hoffman em "A Primeira Noite de Um Homem".

Ele não queria que eu visitasse a fábrica de glitter. O jovial Shetty me disse pelo telefone que as pessoas não fazem ideia do conhecimento científico requerido para produzir glitter; que a tecnologia da Glitterex para isso está entre as mais avançadas do planeta; que as pessoas não acreditariam o quanto é complicado; que ele não permitiria que eu visse a produção do glitter; que eu não poderia nem visitar a ala do edifício em que o glitter é fabricado, de qualquer maneira; que nem os clientes da Glitterex tinham autorização para ver a fabricação do glitter; que ele não revelaria as identidades dos clientes da Glitterex —entre os quais algumas das maiores empresas multinacionais; uma delas por fim aceitou ser identificada: obrigada, Revlon—; e que, tudo bem, eu seria bem recebida se visitasse a sede da Glitterex para aprender mais sobre o que eu estava proibida de descobrir em pessoa.

A fábrica de glitter fica em um complexo industrial bege, perto dos escritórios de uma empresa que faz calçadas para aeroportos e de uma fábrica que processa frutas secas. No vestíbulo da Glitterex, havia poucos sinais adicionais quanto ao propósito do edifício. Pelo menos até entrarmos no armazém de embalagem, que parecia uma fábrica colonizada por fadinhas.

O assoalho estava recoberto do que pareciam ser raios de lua esmagados. Os elos metálicos da correia transportadora brilhavam com uma camada de arco-íris. Mas o espaço dava a impressão de ser limpo e ordenado. Perto da entrada, prateleiras metálicas mais altas que um homem estavam carregadas com mais de mil grandes vidros de amostras de glitter, ordenadas por formulação, cor e tamanho.

Meus guias na visita ao reino do glitter eram Lauren Dyer, gerente da Glitterex, e Jeet Shetty, que trabalha com o pai. O produto mais vendido é o glitter prateado, sempre. Eles abriram diversos vidros para que eu comparasse os diferentes tons de prata, lado a lado: prata com pontos de brilho, prata reluzente que parecia brilhar com a força de mil sóis.

Fui apresentada a Shetty sênior em uma sala de reuniões. Em sua tentativa de me explicar o que é o glitter, ele parecia estar discorrendo sobre diversos livros de química avançada ao mesmo tempo.

"Essa película de poliéster", ele começou, mostrando uma folha de material transparente com cerca de 13 centímetros de largura, "costuma ser chamada popularmente de mylar. É o mesmo polímero usado nas garrafas de água, o que quer dizer que foi aprovado pela FDA [Food and Drug Administration, a agência americana de fiscalização e regulamentação de alimentos e remédios]".

"Cortando esse material, você teria glitter transparente", disse. "Depois, vamos à próxima versão de um substrato, na qual a película transparente é metalizada", continuou. Ele apanhou uma faixa de material prateado. "Os pacotes de batatas chips começam com a mesma película de poliéster; ela é metalizada com alumínio".

Metalização, ele explicou, é processo pelo qual alumínio é depositado sobre os dois lados de uma película. Isso fazia algum sentido, em teoria, mas como é que o alumínio que não estava na película se transferia a ela, sem o uso de fita adesiva? "O alumínio é evaporado e depositado sobre a película", disse Shetty. Isso fazia sentido, em teoria, mas como o alumínio é evaporado? "É uma camada muito, muito fina; ela é colocada em uma câmara de vácuo e o alumínio é evaporado", disse Shetty. "Com o uso de calor", acrescentou seu filho.

Perguntei de que material o alumínio era evaporado. "Do alumínio", disse Shetty. Não faço ideia de como os seres humanos descobriram de que maneira fazer isso, ou por que lhes ocorreu a ideia de tentar, mas o processo parece dispendioso.

A função primária do glitter é estética, evidentemente. O glitter existe para que possa ser colocado em coisas que antes não tinham glitter: palitos de pirulitos, olhos de animais de pelúcia, Newt Gingrich. 
Em 2011, o então candidato à Presidência foi o primeiro alvo famoso da campanha “bomba glitter”, protesto em que o ativista Nick Espinosa o cobriu de pedacinhos de glitter nas cores do arco-íris. 

 

NANÔMETROS

Há duas maneiras de conseguir o efeito arco-íris em partículas individuais de glitter. O glitter holográfico é produzido pela gravação de um padrão fino em uma película, para que a superfície reflita cores diferentes de luz em diferentes direções —o glitter em si nada tem de intrinsecamente multicolorido. Em contraste, o glitter iridescente é mais sutil e revela diversas cores luminosas a depender do ângulo do qual é visto. É feito de múltiplas camadas de película transparente, compostas de polímeros com índices de refração diferentes.

Quantas camadas estão envolvidas em um composto multicamadas? "Duzentas e trinta e três", disse Shetty, rindo e abanando uma folha plástica quase invisível. "A coisa é bem técnica", ele alertou. "Você sabe, o espectro visível e todas essas coisas".

Concordei com um aceno de cabeça, indicando que estava compreendendo.

"Cada camada tem metade do comprimento de onda da luz", ele disse. "O quê?", eu rebati, em tom de lamúria.

Se você quer escolher uma cor para alguma coisa, é quase sempre imperativo que a cor selecionada seja uma que o cérebro humano é capaz de processar. As cores do espectro visível, arranjadas em ordem do mais longo ao mais curto comprimento de onda, são: vermelho, laranja, amarelo, ciano, verde, azul e violeta.

Como as percebemos? Algo a ver com os cones de nossos globos oculares. O que os cones detectam? Ondas de luz em comprimentos de onda de cerca de 400 a 700 nanômetros. Qual é o tamanho de um nanômetro? A espessura de um cabelo humano é de 80 mil a 100 mil nanômetros. Qual é a coisa perfeita a dizer para devastar minha frágil sanidade? "Cada camada tem mais de 230 nanômetros", disse Shetty.

Porque o vermelho tem o maior comprimento de onda, as camadas de película vermelha iridescente são as mais espessas; as camadas violeta são as mais finas. Shetty começou a inclinar a película para trás.

"Lá está o vermelho", ele disse, quando surgiu um súbito brilho vermelho. Ele continuou inclinando a película. "Em algum momento aparecerá o azul", ele disse. A película ficou verde, depois azul, depois violeta. Ele apanhou outra película e começou a incliná-la. Essa não mostrou brilho verde ou vermelho, indo direto ao azul e violeta, e depois se tornando transparente de novo.

"Abaixo do violeta temos a radiação ultravioleta, e ela é invisível", ele disse. "Ou seja, um animal poderia ver algo que eu não consigo?", perguntei. "Se ele puder ver na banda ultravioleta, sim", respondeu Shetty.

A diferença de espessura das películas iridescentes era imperceptível pelo tato.

Há outras diferenças de tamanho, mais evidentes, é claro. O glitter usado para artesanato é o mais espesso e o menos avançado tecnologicamente. Para removê-lo, Shetty recomenda água e sabão, ou folhinhas de amaciante de tecido, para combater a adesão gerada pela estática do plástico.

O glitter cosmético, mais fino, é usado em produtos projetados para os lábios.

SEGREDOS

É impossível recriar o efeito de captura de luz do glitter sem usar partículas minúsculas de alguma coisa, o que significa que, se um objeto parece reluzir, quando olhado de perto (um cartão de crédito, um capacete da NFL, a pintura de um jet-ski), há boa probabilidade de que ele contenha glitter.

Pesquisadores e administradores de zoológicos às vezes colocam glitter na ração animal, para rastrear animais (ursos polares, elefantes, gatos caseiros) com base em suas fezes cintilantes. Os fabricantes de compensados de madeira inserem camadas ocultas de glitter em seus produtos para combater falsificações.

Porque o glitter é difícil de remover completamente de uma área em que tenha sido introduzido, e porque as variedades individuais podem ser distinguidas ao microscópio, ele pode servir como prova confiável, se identificado em cenas de crime. Anos atrás, o Serviço Federal de Investigações (FBI) contatou a Glitterex para catalogar amostras de seus produtos.

O americano médio vê glitter todos os dias; e a maior parte do glitter é hexagonal, diz Shetty. O menor glitter que a Glitterex produz tem 50 por 75 micrômetros de medida (um micrômetro é um milésimo de milímetro.) O pedido mínimo (4,5 quilos) que a empresa aceita é suficiente para prover brilho para "meio milhão de vidros" de esmalte de unhas, na estimativa de Shetty.

Os preços variam a depender do tamanho da partícula, das formulações e da combinação de polímeros usados, mas no extremo mais alto —ou seja, para os produtos de menor tamanho— um saco plástico com 4,5 quilos de glitter custa cerca de US$ 1.000. A empresa oferece 10 mil variedades do produto.

Tudo isso foi muito informativo, mas não explicou o ar de opressivo segredo que parece permear o setor de glitter. A Glitterex se preocupa com a possibilidade de que eu descreva seu equipamento com tanta precisão que os leitores aprendam a construir máquinas por conta própria, para produzir glitter em quantidade industrial?

Shetty disse que, desconsiderados os segredos comerciais, a confidencialidade é uma exigência dos clientes. As empresas não querem que concorrentes saibam que glitter seus produtos usam, a fim de impedir que eles produzam formulações idênticas.

Quando perguntei a Dyer se ela podia me dizer que setor econômico é o maior mercado da Glitterex, sua resposta foi instantânea: "Não. Tenho certeza absoluta de que não posso".

Fiquei espantada. "Mas você sabe qual é?" "Meu Deus, claro que sim", ela riu. "E você jamais adivinharia. Deixemos o assunto por aqui".

Perguntei se ela podia me explicar por que não estava autorizada a responder. "Porque eles não querem que ninguém saiba que aquilo é glitter". "Se eu olhasse para a coisa, saberia que é glitter?", perguntei. "Não, na verdade", ela respondeu. "Eu conseguiria ver o glitter?". "Você conseguiria ver algo. Mas... é, não posso dizer".

Perguntei se ela me diria em off. A resposta foi não. Perguntei se ela me diria em off depois da publicação deste artigo. Não. Disse a ela que não podia morrer sem descobrir. Ela mencionou pigmentos para tinta automotiva.

IMPACTOS AMBIENTAIS

Para as pessoas que amam o glitter, a boa notícia é que todo o glitter plástico já produzido continua entre nós. De acordo com Victoria Miller, professora de ciência dos materiais e engenharia da Universidade Estadual da Carolina do Norte, a película plástica da qual a maioria dos glitters é fabricada demoraria mil anos a se biodegradar.

Porque cada partícula tem menos de cinco milímetros de comprimento, o glitter plástico está enquadrado à definição de microplástico da Administração da Atmosfera e Oceano dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês), uma categoria de material que se tornou alvo de campanhas ambientais recentemente.

Em 2015, por exemplo, o presidente Obama assinou uma lei que proibia o uso de microesferas plásticas na fabricação de maquiagens laváveis.

Embora as pesquisas que apontam que os oceanos do planeta são uma microssopa de plásticos produzidos pelo homem sejam conclusivas, seu efeito não é plenamente compreendido. A página sobre "fatos oceânicos" do site da NOAA alerta que essas partículas representam "ameaça potencial à vida aquática", mas acrescenta que "não muito se sabe sobre os microplásticos e seus impactos, até agora".

Um problema mais fundamental, de acordo com Miller, é que, como todos os plásticos, "o glitter é um derivado de petróleo. Vem diretamente dos combustíveis fósseis, e está sendo usado para produzir coisas completamente descartáveis".

Há fontes naturais de materiais reluzentes, como a mica, substância usada em muitos cosméticos. Ela é obtida principalmente na Índia, muitas vezes em minas ilegais, onde é extraída por crianças.

Em resumo, Miller insiste em que o glitter "não faz bem" ao ambiente, mas não propõe sua proibição. "Creio que tenhamos causas maiores a defender", disse.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

The New York Times
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