Brasil deve ter segunda década perdida em 40 anos, diz banco americano

Relatório do Goldman Sachs aponta que, sem reformas, país pode somar 50 anos de crescimento fraco

Anaïs Fernandes
São Paulo

O Brasil caminha para encerrar os anos 2010 com mais uma década perdida, a segunda nos últimos 40 anos, afirma o banco americano Goldman Sachs em relatório divulgado nesta sexta-feira (3). E, sem reformas, acrescenta, os próximos dez anos também poderão ser perdidos.

A instituição aponta que o PIB (Produto Interno Bruto) per capita brasileiro —isto é, a divisão de todos os bens e serviços produzidos no país pelo número de habitantes— já caiu 0,3% entre 2011 e 2018. Entre 1981 e 1990, o recuo havia sido de 0,5%. 

"A economia estagnou até agora nesta década", escreveram Alberto Ramos, Paulo Mateus e Gabriel Fritsch. 

Apesar de o indicador registrar avanços de 0,9% entre 1991 e 2000 e de 2,5% entre 2001 e 2010, o relatório diz que "é impressionante e desconfortável a realidade de que o crescimento da renda real per capita decepcionou durante as últimas quatro décadas".

Nesse período (1981-2020), o crescimento real do PIB per capita deve ficar, na média, perto de 0,8%, estima o banco. Nesse ritmo, levariam 87 anos (ou quatro gerações) para se dobrar a renda real per capita dos brasileiros.

E esses 40 anos de economia fraca podem se tornar 50, dizem.

"Na nossa avaliação, se o país não conseguir lidar com a crescente solvência fiscal de médio prazo e complementar isso com reformas estruturais de grande alcance para abrir a economia, aumentar o baixo estoque de capital físico e melhorar a produtividade, a próxima década também pode se tornar perdida. Nesse caso, o Brasil não perderia apenas mais uma década, mas abandonaria meio século", afirma o relatório.

O documento ressalta que a contração de 2015-2016 foi a mais profunda por dois anos consecutivos em mais de cem anos —incluindo 1930-1931, após o crash de 1929 nos Estados Unidos— e que o crescimento do PIB decepcionou nos últimos dois anos.

O Brasil cresceu 1,1% em 2018, mesmo desempenho registrado no ano anterior, segundo o IBGE. Em 2015 e 2016, houve retração de 3,5% e 3,3%, respectivamente. 

A fraca recuperação brasileira sinaliza, de acordo com o banco americano, que há danos estruturais aos principais motores da economia do país.

Mas, enquanto a desaceleração da década de 1980 foi amplificada por fatores e choques externos, a década perdida dos anos 2010 reflete principalmente erros políticos e a falta de reformas, "porque o cenário externo manteve-se, no balanço, bastante favorável", diz o relatório.

Na próxima década, aponta o banco, o Brasil terá de crescer e investir. Isso, porém, enquanto o setor público precisa continuar, gradualmente, se desalavancando, e a população do país prosseguirá envelhecendo. "O perfil demográfico de envelhecimento irá agravar os desafios."

O Goldman Sachs projeta um avanço de 1,7% para o PIB do Brasil neste ano e de 2,8% em 2020.

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