Crise na Venezuela já aparece no preço do petróleo e tem pouco efeito no Brasil

Cotações sobem no exterior em razão de queda de braço com Irã; Petrobras pode reajustar diesel

Mariana Carneiro
Brasília

A atual crise política na Venezuela tem pouco efeito sobre os preços dos combustíveis no Brasil. 

No último mês, a cotação do petróleo no mercado internacional chegou a escalar quase 10%, o que levou a Petrobras a reajustar o preço da gasolina três vezes nas refinarias. O último aumento, de 3,5%, ocorreu na segunda (29). 

Aqui e no resto do mundo, a escalada do petróleo é resultado da pressão de Donald Trump sobre os países que consomem óleo do Irã. O país está sob embargo desde novembro, mas os EUA ameaçam começar a punir os países que seguem comprando petróleo iraniano a partir deste mês. 

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Instalações petrolíferas em Cabimas, na Venezuela - Isaac Urrutia-29.jan.19/Reuters

Embora esteja sobre uma das maiores reservas do mundo, a Venezuela hoje produz cerca de um quarto do que já extraiu no passado, segundo Adriano Pires, diretor do Cbie (Centro Brasileiro de Infraestrutura).

Estima-se que o país produza hoje menos de 1 milhão de barris/dia, em razão da falta de investimentos provocada pela instabilidade política.

A turbulência da ditadura de Nicolás Maduro já está refletida nas atuais cotações do petróleo, afirma Pires. 

A opinião é compartilhada por quadros técnicos do governo, que acompanham os acontecimentos na Venezuela e as cotações internacionais do petróleo.

"A crise na Venezuela, na verdade, faz com que o preço do petróleo não caia", disse Pires.

Caso o regime mude de mãos e Maduro deixe o comando do país, o mais provável é que as cotações do petróleo caiam, acrescenta o analista, em razão da perspectiva de retorno de investimentos e maior produção.

Para o Brasil, isso poderia significar menor pressão para a Petrobras reajustar os preços nas refinarias, reduzindo o risco de greve de caminhoneiros.

"O governo brasileiro é o único acionista de petroleira do mundo que acha ruim quando o petróleo sobe", disse Pires. 

Nesta quarta (1º), o presidente Jair Bolsonaro afirmou que o agravamento da turbulência política na Venezuela poderia resultar em alta de preços no Brasil.

Enquanto a crise política da Venezuela não tem um desfecho, a Petrobras tem um problema mais imediato à frente.

Caso seja mantida a atual regra de reajuste para o diesel, a estatal deverá anunciar um novo aumento do combustível anunciar nos próximos dias.

O último reajuste, ocorrido após a interferência do presidente Jair Bolsonaro, ocorreu em 18 de abril, e a Petrobras se comprometeu em corrigir o preço do combustível em intervalos pouco superiores a 15 dias.

O prazo vence na próxima quinta (2) e, segundo Adriano Pires, é preciso corrigir os preços internos para adequá-los às cotações internacionais. A defasagem calculada na última segunda (29) variava entre R$ 0,09 e R$ 0,15.

Enquanto o preço do petróleo subia no mercado internacional, o dólar ficou praticamente estável no Brasil, o que não contribuiu para suavizar o aumento do combustível.

"Se a Petrobras tem autonomia de fato, será inevitável o reajuste do preço do diesel e da gasolina nos próximos dias", afirmou. 

Erramos: o texto foi alterado

A estimativa é que a Venezuela produza menos de 1 milhão de barris/dia e não 1 bilhão, como foi publicado na primeira versão. O texto foi corrigido.

 

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