Dólar supera os R$ 4,10 e Bolsa perde os 90 mil pontos

Ibovespa fecha abaixo dos 90 mil pontos; dólar vai a R$ 4,11 durante o pregão

Júlia Moura
São Paulo

O mercado brasileiro não se recuperou das perdas da véspera nesta sexta-feira (17). O dólar continuou a subir e fechou a R$ 4,1020, valorização de 1,58%. A Bolsa brasileira fechou abaixo dos 90 mil pontos, pior desempenho do ano.

Analistas destacam que não houve mudança no quadro político em direção ao avanço da reforma da Previdência. A crise entre governo Bolsonaro e Câmara e investigações envolvendo o filho do presidente, Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), preocupam investidores.

No exterior, o dia também foi de perdas após negativas da China quanto a um acordo com os Estados Unidos para por fim à guerra comercial. As Bolsas chinesas recuaram mais de 2%.

Nos EUA, índice Dow Jones recuou 0,38%. S&P 500 caiu 0,45% e Nasdaq teve queda de 1%. 

O Ibovespa, maior índice acionário do país, operou em alta durante a maior parte do pregão. A recuperação após a queda de quinta (16), no entanto, não se sustentou. A Bolsa fechou com leve recuo de 0,03%, a 89.992 pontos, pior patamar do ano. O giro financeiro foi de R$ 16,4 bilhões. Na semana, o índice acumula queda de 4,5%. 

A retração da Bolsa não foi impactada pela decisão da Câmara de priorizar um texto alternativo da reforma da Previdência, e não o apresentado pelo governo Bolsonaro. A mudança no plenário foi noticiada por Gerson Camarotti no portal de notícias G1 às 17h07, minutos antes do pregão se encerrar.

“É uma ameaça pública da Câmara para ver até onde o governo aguenta. Caso a mudança na proposta a ser votada se concretize, é o fim da articulação política do governo. Isso é péssimo porque o governo não vai conseguir aprovar mais nada até o seu fim”, afirma Victor Cândido, da Guide Investimentos.

Na véspera, o índice caiu 1,75%, a 90 mil pontos. O recuo foi impulsionado pela queda nas ações da Vale, com risco de rompimento de duas barragens. Hoje, com o recorde no preço do minério de ferro, os papeis da companhia se recuperaram e tiveram alta de 2,8%.

Durante a sexta, o dólar continuou trajetória de alta e chegou a R$ 4,1140. A moeda encerrou cotada a R$ 4,1020, alta de 1,58%. O valor é o maior desde 19 de setembro de 2018, período pré-eleitoral. 

Na quinta, a moeda americana havia fechado acima dos R$ 4 pela primeira vez desde 1º de outubro.

Na semana, o dólar acumula valorização de 4%. Este é o pior período para o real desde a semana de 20 de agosto, quando a moeda americana teve alta acumulada de R$ 4,80. Dentre as divisas emergentes, o real foi a que mais se desvalorizou, com 2,48% de perdas, bem à frente do Florim húngaro, segundo mais desvalorizado, que perdeu 1,21% frente ao dólar.​

Em evento do setor de construção civil, no Rio de Janeiro, nesta sexta, o ministro da Economia comentou a oscilação da semana. "Se a bolsa cai ou o dólar sobe um pouco, isso é barulho. Ninguém tem de ficar preocupado", disse Paulo Guedes. 

Em resposta a alta demanda pela moeda americana, o Banco Central anunciou, nesta sexta, leilão de linha na segunda, terça e quarta da próxima semana. A venda com o compromisso de recompra pode somar US$ 3,75 bilhões (R$ 15,3825) nos três dias, com o limite de US$ 1,25 por dia.

Para Sidnei Nehme, diretor da corretora de câmbio NGO, a alta do dólar não deve se manter. “O patamar de R$ 4,10 já é de altíssimo risco para quem aposta na alta do dólar. Se o governo der um passo firme em direção a reforma da Previdência, a cotação da moeda americana desmorona”, afirma.

Para o economista, a valorização do dólar reflete o cenário de incertezas domésticas. “Neste caso, a guerra comercial entre EUA e China não teve grande pressão. A cotação reflete uma aposta de que o dólar continue a subir, uma aposta no caos. O câmbio é um dos únicos segmentos que não temos problema, com grande reserva e mecanismos para suprir liquidez do mercado. O real é a moeda mais bem defendida e a que cai mais, por especulação de que o cenário político vá piorar”, diz Nehme.​

Para o panorama econômico mudar, o país depende, em grande parte, da volta do investimento estrangeiro. As incertezas políticas e a falta de articulação para aprovação da reforma da Previdência têm afastado este aporte. No ano, a saída de investidores estrangeiros na Bolsa soma R$ 4,2 bilhões.

O início da investigação judicial contra Flávio Bolsonaro e a citação a Rodrigo Maia em delação sobre suposto pagamento de propina por um sócio da companhia aérea Gol podem ser mais um entrave no panorama político. Maia é o principal articulador político da reforma da Previdência, vista como a salvação das contas públicas brasileiras.

Protestos contra o corte de verbas da Educação e a postura conflituosa de Jair Bolsonaro também preocupam o mercado.

Dados econômicos do início do ano tampouco geram otimismo. Segundo o Banco Central, a atividade econômica no primeiro trimestre recuou e as projeções para o PIB do período são negativas.

O clima no exterior também piorou na semana, com novos capítulos da guerra comercial entre China e Estados Unidos. Na segunda, o governo chinês anunciou o aumento de tarifas para importações americanas, o que derreteu os mercados globais.

Nesta sexta, o governo chinês afirmou que não tem pressa de fechar um acordo e que a decisão do governo de Donald Trump de elevar as tarifas de importações chinesas feriu "profundamente" as negociações. De forma protecionista, os chineses ainda anunciaram novos incentivos para o mercado interno.​

Erramos: o texto foi alterado

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), é citado em delação de um sócio da companhia aérea Gol como beneficiário de um suposto pagamento de propina, e não citado em delação da companhia aérea Gol por pagamento de propina, como foi publicado na primeira versão do texto.
 

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