Banco Central Europeu pode estimular economia se inflação não acelerar

Munição do presidente do banco, porém, é limitada, o que leva dúvidas sobre eficácia de medidas

Sintra (Portugal) e Washington (EUA)

O BCE (Banco Central Europeu) precisará afrouxar a política monetária de novo caso a inflação não acelere, afirmou o presidente do banco, Mario Draghi, nesta terça-feira (18), sinalizando uma das maiores reviravoltas de seu mandato de oito anos.

Depois de quatro anos de estímulo sem precedentes para reanimar a economia da zona do euro após a crise da dívida, o BCE vinha preparando o mercado para um aperto na política monetária, chamado de "normalização" –apenas para ver uma guerra comercial global prejudicar seus planos em questão de meses.

Presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi
Presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi - Ralph Orlowski/Reuters

O problema é que, com os juros em mínimas históricas e a carteira do BCE já inchada para € 4,7 trilhões (R$ 20,3 trilhões), sua munição restante é limitada, levantando dúvidas sobre a provável eficácia de quaisquer outras medidas.

"Na ausência de melhora, como se o retorno da inflação ao nosso objetivo estiver ameaçado, estímulo adicional será necessário", disse Draghi em conferência anual do BCE em Sintra, Portugal.

Com apenas quatro meses restantes de seu mandato, a desaceleração também é uma ameaça ao legado de Draghi. A promessa do italiano em 2012 de fazer "o que for preciso" para salvar o euro possui bastante crédito por ter mantido o bloco monetário unido durante os dias mais sombrios de sua crise.

"Usaremos toda a flexibilidade dentro de nosso mandato para cumprir nosso mandato –e faremos isso de novo para responder a qualquer desafio à estabilidade de preços no futuro", disse Draghi.

"A política monetária continua comprometida com seu objetivo e não se resigna à inflação baixa demais."

Mas Draghi não é o único em ter que recuar.

O Fed (Federal Reserve), banco central americano, primeiro desistiu do aumento da taxa de juros e pode, nesta semana, sinalizar cortes nos custos dos empréstimos já que a turbulência global tem afetado a confiança, atingindo as ações e o comércio global.

Draghi disse que o BCE, que não alcança sua meta de inflação de pouco menos de 2% desde 2013, ainda pode cortar os juros, ajustar sua orientação de política monetária e afirmou ter um "espaço considerável" para mais compras de ativos.

Ele também disse que o BCE pode oferecer "medidas de contenção" para compensar os efeitos indesejados dos juros negativos, um comentário que sinaliza que uma taxa de depósito escalonada também está em consideração.

O BCE agora usará as "próximas semanas" para estudar suas opções, disse ele, sugerindo que uma ação pode acontecer em breve.

Os comentários, interpretados pelos mercados como inesperadamente "dovish", derrubavam o euro em cerca de 0,3% em relação ao dólar, enquanto as ações devolviam as perdas anteriores e os rendimentos dos títulos caíam ainda mais, muitos para um território de mínima recorde.

Os mercados já precificam um corte de 15 a 25 pontos básicos na taxa de depósito do BCE já negativa em 0,40% –uma grande mudança em comparação ao início do ano, quando elevações dos juros ainda estavam em consideração.

Reação

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, criticou as declarações do presidente de Mario Draghi sobre possíveis mudanças na política monetária pelo BCE, afirmando que elas provocariam competição injusta da Europa contra os EUA.

"Mario Draghi acabou de anunciar que mais estímulo pode ocorrer, o que imediatamente derrubou o euro contra o dólar, tornando injustamente mais fácil para eles competirem contra os EUA. Eles têm conseguido isso por anos, junto com a China e outros", escreveu Trump no Twitter.

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