Construção sofre com parada em obras caseiras e recuo em lançamentos

Setor fechou o primeiro trimestre com queda de 2,4%, segundo dados do PIB

Rio de Janeiro

Apesar da manutenção de obras na maior parte do país, o setor de construção civil fechou o segundo trimestre consecutivo em queda e depende de novos lançamentos imobiliários para tentar reverter o cenário negativo nos próximos meses.

O recuo do primeiro trimestre reverte expectativas de crescimento em 2020, motivadas pela perspectiva de efeito da queda nas taxas de juros nos financiamentos imobiliários. No acumulado de 2019, o setor havia registrado avanço de 1,6%.

Segundo a Cbic (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), o resultado do primeiro trimestre de 2020 refletiu mais a paralisia de pequenas obras e reformas do que impactos da pandemia do novo coronavírus em projetos de infraestrutura ou construção de grande porte.

A indústria de construção fechou o primeiro trimestre com queda de 2,4%, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), aprofundando um cenário que já se mostrava negativo no fim de 2019, quando o setor recuou 2,3%.

Na avaliação do presidente da Cbic, José Carlos Martins, os dados do emprego no setor mostram que a contração foi mais concentrada em pequenas obras: enquanto dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) fala em perda de 22 mil vagas formais, o IBGE apontou o fechamento de 885 mil vagas até abril.

Foi o setor com maior fechamento proporcional de vagas no trimestre encerrado em abril, com queda de 13,1%. No período, segundo o IBGE, os trabalhadores informais foram muito mais afetados que os formais, somando 75% das 4,9 milhões de vagas fechadas.

"A nossa leitura é que realmente o trabalho informal, aquela reforma, aquele biscate, aquela ampliação [de residência], foi paralisado totalmente", diz Martins. "Ninguém quer pessoas estranhas em casa para correr risco de contaminação."

Segundo Martins, apenas três estados pararam obras públicas no início da pandemia: Pernambuco, Ceará e Piauí. Outros dois (Sergipe e Pará) tomaram a decisão depois do crescimento do contágio. Em Santa Catarina e Goiás as obras foram paralisadas por breves períodos.No setor imobiliário, diz ele, empresas com empreendimentos em curso mantiveram as obras. Pesquisa feita pela Cbic, porém, mostra que 79% dos lançamentos previstos para os meses de pandemia foram suspensos, à espera da melhoria do cenário.

"O emprego daqui para frente vai depender muito da retomada desses projetos, que absorvem os empregados de obras que já estão sendo concluídas", diz ele. Assim, a Cbic espera que no segundo trimestre a paralisação de obras tenha um efeito maior no cálculo do PIB.

Dados divulgados nesta segunda (1º) pelo SecoviSP (sindicato do setor imobiliário de São Paulo) mostram que abril foi o segundo mês consecutivo de queda nas vendas de imóveis novos na capital paulista. O número de lançamentos avançou 8% relação a março, mas ficou 44,5% inferior ao verificado em abril de 2019.

"A decisão de adiar um lançamento é muito difícil", disse o vice-presidente de Incorporação Imobiliária e Terrenos Urbanos da entidade, Emilio Kallas. "O cenário ainda é nebuloso, incerto, mas as empresas não podem ficar paradas."

Nos últimos anos, sob efeito da Operação Lava Jato e da crise fiscal dos governos, o setor imobiliário passou a ter mais relevância do que grandes obras no valor total de obras de construção civil no país. Em 2018, a construção de edifícios representou 45,5% do valor total de incorporações. A infraestrutura equivalia a 31,3%."O setor público perdeu capacidade de investimento", afirma Martins. Ele diz que houve uma queda na infraestrutura também no primeiro trimestre de 2020, mas o movimento pode estar relacionado a questões sazonais. "Uma grande parte do Brasil tem muita chuva, daí obras não se desenvolvem."

Para retomar o ritmo no segundo semestre, o setor espera medidas de incentivo em estudo pelo governo, como o reforço a programas de habitação de interesse popular e a retomada de grandes obras.

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