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Ao combater desinformação, big techs enfrentam dilema da parcialidade

Plataforma rotula mais posts dos trumpistas porque eles mentem mais; mas, acuada, não pode dizer isso

São Paulo

Lá pela metade das quase quatro horas de audiência no Senado americano com os presidentes das chamadas big techs, a senadora republicana Marsha Blackburn, membro da tropa de choque do presidente Donald Trump, perguntou ao presidente-executivo do Twitter, Jack Dorsey: “Senhor Dorsey, vocês censuraram o Joe Biden (candidato democrata à presidência) zero vezes, e censuraram o presidente Donald Trump 65 vezes.”

A frase foi seguida de crítica semelhante do senador Mike Lee, também republicano. “Vocês sempre rotulam, derrubam ou desmonetizam sites e comentários de pessoas republicanas ou conservadoras...mas eu não vejo esse tipo de supressão de comentaristas progressistas famosos...vocês já censuraram um senador democrata? E o (ex)presidente Obama? E o candidato democrata à presidência?”

Diante das indagações, Dorsey, do Twitter, Mark Zuckerberg, do Facebook, e Sundar Pichai, do Google, garantiram que não usavam o critério ideológico para moderar conteúdo. Mas não conseguiram responder de forma mais assertiva aos questionamentos, nem nomear políticos progressistas que haviam sido “censurados”. Isso levou republicanos a comemorarem –nas mesmas redes sociais– que as plataformas haviam admitido tacitamente que havia perseguição aos conservadores.

Será que há?

O CEO e fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, depõe remotamente durante audiência no Senado americano.
O CEO e fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, depõe remotamente durante audiência no Senado americano. - Greg Nash/AFP

Os três executivos não podiam dizer a verdade aos inúmeros senadores republicanos que usaram a audiência no Senado para politizar o problema da desinformação eleitoral nas redes sociais.

Se pudessem, teriam perguntado: "O candidato democrata Joe Biden afirmou que a Covid-19 não é mais grave que um simples resfriado e que as pessoas simplesmente precisam abrir o país e aprender a viver com ela? O candidato democrata disse que a votação pelo correio com certeza será fraudada e que as pessoas devem votar duas vezes para se garantir? a campanha de Biden usou um símbolo nazista em seus anúncios? O candidato incitou violência nos protestos contra racismo?" Não, foi o presidente Trump que fez tudo isso, e teve seus tuítes e posts rotulados ou derrubados.

A resposta sincera dos executivos seria: as declarações dos trumpistas são alvo de um número maior de rotulagem e checagem porque eles fazem mais afirmações que contrariam a ciência, ameaçam a integridade das eleições, e glorificam a violância.

Mas as grandes plataformas não podem exagerar na sinceridade com os republicanos, porque eles estão ameaçando revogar a seção 230 do Ato de Decência nas Comunicações de 1996. A seção 230 essencialmente afirma que as plataformas de internet não são publicadoras de conteúdo, são apenas distribuidoras –e, portanto, não podem ser processadas, nem responsabilizadas, por conteúdo postado por terceiros. A lei foi essencial para que as redes sociais se desenvolvessem e prosperassem. Se pudessem ser responsabilizadas por conteúdo ofensivo de terceiros, teriam censurado previamente tudo quanto é coisa. Mas, 24 anos depois, as plataformas são grandes monopólios –e continuam virtualmente imunes a responsabilização. Isso, na prática, faz com que elas tenham menos incentivos para coibir linguagem de ódio e desinformação.

Os republicanos, no entanto, querem cassar a seção 230 porque acusam o Vale do Silício de ser dominado por progressistas que querem censurar os conservadores –e não pela preocupação com interferência estrangeira nas eleições ou operações de desinformação de atores domésticos. Os trumpistas abraçaram a bandeira da liberdade de expressão para manter desinformação no ar.

As plataformas de tecnologia "representam a maior ameaça à liberdade de expressão na América e a maior ameaça para que tenhamos eleições livres e justas", disse o senador republicano Ted Cruz.

Até pouco tempo atrás, as próprias plataformas mantinham esse posicionamento de liberdade de expressão acima de tudo e de conservar conteúdo por seu valor noticioso. No entanto, na medida em que foram ficando claras as consequências das operações de influência e desinformação dos russos e de outros na eleição de 2016, as plataformas entenderam que precisavam fazer algo para evitar um repeteco do show de horror.

Twitter começou proibindo propaganda política, no ano passado. E, neste ano, começaram a rotular, diminuir o alcance ou derrubar posts que infringiam os termos de uso. É claro que isso pode levar a exageros. Em 2016, as redes sociais e a mídia tradicional foram usadas pelo Kremlin para infuenciar a eleição, ao disseminarem amplamente o vazamento de emails do comitê democrata, hackeado pelos russos. Desta vez, com medo de estarem diante de outra operação "hackear e vazar", censuraram ou diminuíram o alcance de reportagem do conservador New York Post sobre e-mails obtidos em laptop de Hunter Biden, filho de Joe. O twitter reviu sua posição e admitiu o erro de ter censurado. As duas redes afirmaram que estavam esperando confirmações sobre a veracidade.

Na audiência de quarta-feira, indagado pela senadora Blackburn sobre liberdade de expressão, Zuckerberg demonstrou sua visão mais nuançada sobre o assunto: "Eu acredito firmemente na liberdade de expressão, mas ela precisa se equilibrar diante do direito à segurança e à privacidade. Até pessoas que tem a interpretação mais radical da Primeira Emenda ainda acreditam que deve haver alguns limites para liberdade de expressão, no caso de ela representar risco iminente de danos físicos –o famoso exemplo da pessoa que grita 'fogo!' dentro de um cinema lotado."

Tal como a mídia tradicional, as plataformas haviam escorregando para o dois-ladismo, ou a falsa equivalência, na tentativa de evitar acusações de parcialidade. Reportagens recentes mostram que havia orientações no Facebook para evitar moderação que parecesse perseguição a conservadores. Mas as plataformas sabem que, ao tentar evitar um repeteco do show de horror de 2016, inevitavelmente serão acusadas de ter um viés.

Após resistir bravamente a qualquer mudança na seção 230, Dorsey sugeriu, na audiência, mudanças na seção, que iria exigir que as empresas publicassem informações sobre suas decisões de moderação, um processo mais claro para apelar de decisões de moderação e deixar que usuários escolham os algoritmos que determinam o que eles veem nas plataformas. Zuckerberg também afirmou ser preciso "atualizar" a seção para que ela funcione como esperado.

As plataformas estão se rendendo à realidade de que será inevitável uma atualização na seção 230, seja com os republicanos, por causa da acusação de moderação de conteúdo com viés anti-conservador, ou democratas, pela crítica de não controlarem linguagem de ódio e manipulação de eleições. Sabem que o melhor a fazer, neste momento, é tentar reduzir danos.

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