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Após queda histórica do PIB, o que esperar de 2021?, escreve economista da Rio Bravo

Prolongamento da pandemia, fraqueza do mercado de trabalho e atrasos na vacinação ameaçam recuperação

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João Leal

Economista da Rio Bravo Investimentos

O PIB retraiu 4,1% em 2020, a maior queda na série histórica do IBGE que iniciou em 1996. No quarto trimestre, a economia brasileira cresceu 3,2% quando comparada ao trimestre anterior. Pelo lado da oferta, o resultado trimestral foi positivo e puxado principalmente pelo desempenho no setor de serviços, que parte de uma base menor e que teve uma surpreendente recuperação no último trimestre do ano, com crescimento de 2,7%. Pelo lado da demanda, destaque para o consumo das famílias, que cresceu 3,4% no quarto trimestre.

Apesar do resultado trimestral positivo, no ano houve contração na maior parte dos setores. Serviços retraíram 4,5% em 2020, sendo o setor com o pior desempenho e o que foi mais afetado pela pandemia com as necessárias medidas de distanciamento social. A pandemia também levou a uma forte retração na indústria (3,5%), que teve parte dos setores paralisados durante o primeiro semestre do ano passado. Mesmo com a forte expansão no final de 2020, o consumo das famílias teve uma retração de 5,5% no ano, devido à queda da demanda no segundo trimestre, quando o estímulo do auxílio emergencial ainda não era integral.

A queda no PIB em 2020 foi forte, mas o resultado poderia ter sido consideravelmente pior. Em abril do ano passado, no pior momento da pandemia, as projeções de economistas, principalmente do mercado financeiro, no relatório Focus, indicavam uma retração de 6,5% em 2020. Esse cenário só não se confirmou devido aos estímulos monetários e, sobretudo, fiscais, com destaque para o auxílio emergencial que levou a uma rápida recuperação do consumo a partir de abril, impulsionando o comércio e a indústria no segundo semestre, e ao programa de manutenção dos empregos formais. Vale destacar também as medidas de crédito, como o Pronampe, que disponibilizou cerca de R$ 34 bilhões em capital de giro para micro e pequenas empresas, possibilitando a retomada das atividades com a reabertura econômica.

Com o crescimento de 3,2% no último trimestre de 2020, o Brasil tem um carry over de 3,6% para 2021. Isso significa que, mesmo se o país não crescer em nenhum trimestre de 2021, ainda teria uma expansão de 3,6% no PIB. O crescimento do final do ano passado, contudo, não é uma mostra do que deve acontecer no início de 2021. O recrudescimento da pandemia, a perda de força do mercado de trabalho, o fim do auxílio emergencial e a alta da inflação são alguns dos fatores que devem levar a um desempenho mais fraco da economia no começo deste ano. O PIB do primeiro trimestre deve cair em relação ao do final de 2020. Esperamos uma retração de 0,5% no primeiro quarto do ano e estabilidade no segundo. Ao fim de 2021, a economia brasileira deve crescer 3,2%, sustentada pela retomada no segundo semestre com o avanço da vacinação.

Esse cenário base, contudo, tem inúmeros riscos. O prolongamento da pandemia, a fraqueza do mercado de trabalho e os atrasos no programa de vacinação são os principais fatores que ameaçam a recuperação da economia. Se o Brasil não focar no controle efetivo da pandemia e em um amplo programa de vacinação, corre o risco de entrar novamente em recessão técnica (dois trimestres de retração) e ter um crescimento consideravelmente mais baixo que 3,2%.

A pauta fiscal tem ainda mais importância neste ano. Com as medidas fiscais do ano passado, a dívida bruta do governo geral aumentou de 74,3% do PIB em 2019 para 89,3% em 2020. Apresentar um programa de controle fiscal é fundamental para reativar investimentos, melhorar o clima de negócios e as condições financeiras, recuperar os empregos e voltar a crescer. O baixo crescimento do país, contudo, não se deve somente à situação fiscal. É preciso definir um caminho de crescimento para a produtividade e, para isso, as reformas tributária e administrativa são essenciais. Não há uma receita mágica, é necessário um comprometimento com a sustentabilidade fiscal, com as reformas e com o futuro do país.

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