Em vez de ajudar, voucher de desconto pode gerar mais dívida

Empresário deve ver promoção como forma de crédito e avaliar se não vale mais a pena pedir empréstimo a banco

São Paulo

Muitos negócios que tiveram de fechar as portas ou funcionar de maneira restrita durante a quarentena encontraram nos vouchers de desconto uma saída para a crise. Especialistas dizem que a prática é válida neste momento de exceção, mas que é preciso cuidado ao adotá-la.

O modelo funciona assim: o cliente compra hoje, mais barato, um produto ou serviço que só vai consumir quando a situação voltar ao normal. Na prática, o empresário pega um empréstimo com o freguês.

“A lógica por trás disso é a de uma operação de crédito. Você compromete o resultado futuro para conseguir um dinheiro emergencial”, afirma Rubens Massa, professor do centro de empreendedorismo da FGV (Fundação Getulio Vargas).

“Se o empresário não tiver um controle muito grande, ele pode ter um acúmulo de pedidos que não vai conseguir entregar lá na frente”, completa.

Felipe Buranello, 32, fundador da rede de franquias de limpeza Maria Brasileira 
Felipe Buranello, 32, fundador da rede de franquias de limpeza Maria Brasileira  - Divulgação

Wilson Poit, superintendente do Sebrae-SP, explica que pode ser mais barato procurar uma linha de crédito para passar pelo período da pandemia. Ele lembra que há opções com juros baixos, que chegam a 0,35% ao mês —dependendo do desconto ofertado, o voucher pode sair mais caro para o empreendedor.

Ele afirma, porém, que essa é a opção mais simples para quem tem pressa. “As linhas de crédito são mais burocráticas, e há gente que não consegue a aprovação porque não tem o nome limpo.”

Para quem preferir emitir os vouchers, a recomendação é oferecê-los primeiro, aos clientes mais antigos, que tendem a aceitar descontos menores. Na hora de planejar as promoções, é importante levar em consideração a formação do custo do produto e a inflação, tomando cuidado para não dar um abatimento que leve ao prejuízo.

Dono da rede de franquias de limpeza Maria Brasileira, Felipe Buranello, 32, liberou a prática para seus 250 franqueados. Segundo ele, cerca de 15% das unidades aderiram aos vouchers. O resto preferiu outros tipos de promoção.

“Não foi algo obrigatório, só mais uma opção para quem precisasse e achasse que daria certo”, diz ele. Cerca de 500 vouchers já foram emitidos na rede.

Um dos franqueados que adotou o modelo foi Daniel Caldeira, 34, que tem quatro unidades, todas em São Paulo. “Começamos emitindo apenas para novos clientes, em 20 de abril. Atraímos cerca de 20 pessoas”, afirma. O programa agora deve valer também para clientes antigos.

Em suas lojas, o consumidor pode comprar o serviço de limpeza para utilizá-lo quando se sentir confortável para receber alguém em sua casa.

A tática do desconto tem ajudado a pagar as contas, já que as unidades tiveram queda média de 70% de faturamento entre março e abril.

Já Adislene Araújo Pécora, 36, dona do restaurante Fazendinha, na zona sul, prefere evitar esse tipo de promoção.

“Pra mim, isso seria só segurar meu problema. Vendo os vouchers e amanhã vou ter de cozinhar tudo de uma vez. E se não tiver dinheiro para comprar os insumos? Faço outra dívida? Viraria uma bola de neve”, afirma.

Ela tinha acabado de ampliar o estabelecimento quando foi decretada a quarentena e ainda está pagando pela reforma —mais um motivo para querer passar longe de novos compromissos de pagamento futuros.

Ela, agora, está trabalhando com delivery e retirada de pedidos. Para não perder os clientes, não tem repassado a eles o aumento do preço dos alimentos no atacado.

Adislene diz que a prática tem funcionado. “Vendo mais ou menos o quanto vendia antes da crise. O ruim é que, com a ampliação, pretendia triplicar os ganhos, mas não acho justo repassar os preços agora”, afirma ela, que fatura cerca de R$ 40 mil por mês.

Adislene Araújo Pereira, 36, dona do restaurante Fazendinha, na zona sul de São Paulo
Adislene Araújo Pereira, 36, dona do restaurante Fazendinha, na zona sul de São Paulo - Mathilde Missioneiro/Folhapress

O empresário Henry Hernandes, por sua vez, confiou nos vouchers para atingir uma meta. Após fazer contas, viu que precisaria de R$ 15 mil para pagar as contas de 40 dias do salão de beleza Henry Hernandes Coiffeur, na zona leste.

Ele ofereceu 30% de desconto para as clientes que comprassem o serviço agora para recebê-lo em até um mês após a volta às atividades.

“Peguei a moto e fui à casa de cada uma delas para passar a maquininha. Quem mora longe pôde pagar online”, conta. Essa alternativa, junto com a venda de produtos capilares, já rendeu ao empresário pouco mais de R$ 16 mil.

Ele diz que preferiu fazer esse tipo de promoção em vez de ir atrás de linhas de crédito porque queria fugir da burocracia e também garantir o serviço do salão para o primeiro mês pós-pandemia.

“Há clientes que não vão ter condições de vir no começo. A crise afetou todo mundo, e ir ao salão é supérfluo, por isso não tenho medo de não dar conta de atender todo o mundo quando reabrir”, diz.

O sistema de vouchers também tem funcionado para a Delinea, que fabrica e vende cortinas e persianas sob medida. A empresa fez, em dez dias, 30 vendas dessa maneira. O desconto é de 10%, e o pagamento, que antes da pandemia poderia ser dividido em duas vezes, agora pode ser feito em até quatro parcelas.

“Não é um desconto tão agressivo, mas suficiente para manter a equipe. Não posso me desfazer de ninguém para conseguir cumprir esses compromissos depois”, afirma Taniceli Meira, 28, sócia.

A instalação só será feita quando o cliente se sentir confortável para receber os profissionais em casa.

A companhia, que tem nove funcionários, faturou R$ 1,8 milhão no ano passado. Por causa da crise gerada pela Covid-19, a cifra deve ficar em R$ 1 milhão em 2020, segundo a sócia.

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