Saiba se é hora de fechar sua empresa para evitar um prejuízo maior

É preciso avaliar se o lucro que o negócio terá no futuro será suficiente para pagar as dívidas

Cristiane Teixeira
São Paulo

Neste momento de retração econômica, o empresário precisa avaliar se seu negócio tem chances de se recuperar ou se é melhor fechar as portas imediatamente para não se afundar mais em dívidas.

O empreendedor tem o desafio de tentar imaginar quanto tempo a crise vai durar e como será a retomada da economia, se imediata ou gradual, diz David Kallás, professor de estratégia do Insper e sócio da KC&D, consultoria de gestão empresarial. “Quanto mais demorar, maior será o déficit a recompor."

Outro componente fundamental é o interesse do público em consumir —ou voltar a consumir— determinado produto ou serviço, afirma Dariane Fraga, professora da FIA (Fundação Instituto de Administração), da Universidade de São Paulo.

Ela exemplifica com a situação de uma metalúrgica que continua fabricando escadas portáteis e as fornecendo para lojas de material de construção. “O consumidor quer comprar escadas agora ou nos próximos meses? Porque, se ele não quiser, os lojistas também vão parar de fazer pedidos”, explica.

Se o empresário não está alcançando lucro, mas faz o controle das finanças e tem a expectativa de bons resultados no ano que vem e nos dois seguintes, vale a pena enxugar tudo o que for possível a fim de não ficar no prejuízo agora e, assim, aguentar até o pior passar, diz a especialista.

Não é o mesmo que se aconselha a quem experimenta sérias dificuldades e está cheio de dívidas, seja por adiar o pagamento de impostos e fornecedores, seja por assumir empréstimos bancários.

A esse segundo grupo de empresários, os dois professores recomendam fazer-se uma pergunta: "Minha capacidade de gerar lucro no futuro será suficiente para quitar as dívidas que estou contraindo hoje e para cobrir as despesas que o negócio continuará tendo depois?".

“Se a resposta for negativa, às vezes é melhor tomar uma decisão drástica e fechar imediatamente”, afirma Dariane Fraga. Ela adverte que, nessas situações, o empreendedor nem deve recorrer à interrupção temporária dos contratos de trabalho ou à redução de jornadas e salários, porque essas medidas preveem estabilidade provisória pelo dobro do tempo que forem adotadas.

O empresário que desiste do negócio antes de falir tem a opção de tentar vendê-lo para um concorrente maior, com condições de absorver os custos e dívidas do pequeno, segundo Kallás. “Se a empresa era lucrativa antes da pandemia, crescem as chances de passá-la para frente.”

Já Wilson Poit, diretor-superintendente do Sebrae-SP, tem uma visão contrária. “Fazendo uso de todas as medidas governamentais, dá para manter o negócio quase parado, mas respirando, por até seis meses. O empresário não precisa fechar. Acreditamos que vamos sair dessa crise a partir de junho."

Quem necessita um empréstimo deve conversar diariamente com o gerente do banco até encontrar uma linha de crédito com juros realmente baixos e carência de até um ano para começar a pagar, segundo Poit. “Essas linhas existem, mas demora até o pessoal dos bancos conhecer os detalhes e começar a disponibilizá-las.”

Em vez de se desesperarem, o executivo do Sebrae recomenda que os micro e pequenos empresários busquem soluções. Entre elas, diminuir custos, pedir ajuda a fornecedores e clientes fiéis, recorrer ao digital para vender —mesmo aqueles que nunca fizeram isso—, capacitar-se e pensar em novas estratégias.

Alguns negócios estão se reinventando. Já sei de confecções que agora fazem aventais médicos e máscaras; de produtores de ovos que perderam clientes entre os restaurantes, mas estão atendendo aos mercadinhos; e até de uma oficina mecânica que passou a oferecer a revisão de carros enquanto eles estão sem uso”, diz Poit.

Os empresários que resistirem à crise devem encontrar vantagens no mercado, afirma Kallás. “Infelizmente, muitos ficarão pelo caminho. Isso significa que o perfil da concorrência será diferente: sobrarão as empresas mais sólidas."

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