Descrição de chapéu estado islâmico terrorismo

Como o Oriente Médio está lançando as sementes de uma nova Primavera Árabe

Demandas como emprego e liberdades sociais voltam a levar populações de vários países às ruas

Juízes fazem vigília durante paralisação de duas horas em Túnis, capital da Tunísia - Fethi Belaid - 1º.mar.2018/AFP
Andrew England Heba Saleh
Londres e Cairo | Financial Times

“Amigos meus foram baleados ao meu lado, em frente e atrás de mim”, conta Mohammed Soghayer, recordando os dias turbulentos de 2011 quando forças de segurança tunisianas tentaram reprimir protestos em massa que acabaram pondo fim ao governo brutal de Zine el-Abidine Ben Ali. Os acontecimentos em Túnis acabaram servindo de catalisadores da Primavera Árabe, quando populações oprimidas havia muito tempo se rebelaram contra regimes corruptos e autocráticos.

Mas agora, sete anos mais tarde, Soghayer, universitário formado que luta para pagar suas contas com os US$ 6 a US$ 8 (R$ 19 a R$ 26) por dia que ganha trabalhando em um café, está de volta às ruas, ao lado de milhares de outras pessoas.

O gatilho dos protestos antigoverno de janeiro foi dado pelos cortes ao subsídio da gasolina e o aumento dos impostos sobre carros, uso da internet e telefonemas. Para muitos, porém, como Soghayer, as medidas de austeridade tomadas pelo governo não passam do exemplo mais recente da elite governante prejudicando os pobres.

“Os jovens não têm mais como viver. Tudo o que queremos é alcançar a situação dos escravos, aos quais, pelo menos, eram garantidos alimentação, roupas e abrigo”, diz o Soghayer, 36. “Não é normal que um homem da minha idade não tenha meios para se casar ou ter sua própria casa.”

O sentimento de revolta dele reflete um tema comum em toda a região, que tem o maior índice mundial de desemprego de jovens –30% das pessoas na faixa dos 15 aos 24 anos estão desempregadas—, além de um dos maiores índices de crescimento populacional, e onde os governos em situação financeira difícil procuram reformar sistemas caros de subsídios.

Em dezembro o Irã foi sacudido pelos maiores protestos em quase uma década contra o regime, movidos em grande parte por medidas de austeridade e pelo repúdio popular à corrupção. Argélia e Jordânia também encararam protestos menores este ano contra altas nos preços dos alimentos e cortes nos gastos públicos.

Os protestos pontuais refletem a desilusão sentida por muitos no Oriente Médio, que criticam seus líderes por ignorar suas reivindicações de sistemas mais equitativos que garantam emprego, liberdades sociais e prosperidade.

Estudante participa de protesto na Universidade de Teerã enquanto bomba de fumaça é jogada pelas forças policiais iranianas - 30.dez.2017/Associated Press

Esse sentimento de revolta represada catalisou os levantes de 2011 na região, desencadeando conflitos na Síria, Líbia e Iêmen e criando um campo fértil de recrutamento para organizações extremistas, como o Estado Islâmico.

Essa organização jihadista está batendo em retirada, depois de ter perdido seus redutos no Iraque e Síria. Mas especialistas avisam que a região continua a ser dominada por uma crise que fervilha em fogo baixo e que representa uma ameaça ainda maior à sua estabilidade no longo prazo: o fato de os governos regionais não terem conseguido consertar sistemas quebrados que durante décadas uniram repressão com favores do Estado para manter a estabilidade.

“A não ser que surjam novos discursos políticos e econômicos, uma nova versão do EI vai aparecer”, diz Marwan Muasher, ex-ministro do Exterior jordaniano e vice-presidente do think tank Carnegie Endowment for International Peace. “As fraturas na sociedade constituem o maior problema, e, lamentavelmente, muito poucos líderes estão prestando atenção a ele."

“Se não o fizerem, poderemos encarar uma nova primavera árabe, desta vez ainda mais radical e mais violenta”, ele acrescenta. “Ninguém pode prever quando vai acontecer; ninguém previu a ocorrência da primavera árabe. Mas o status quo é insustentável.”

Poucos países árabes ficaram intocados pelas revoltas de 2011. Alguns, como o Marrocos, implementaram reformas em certa medida. A maioria reverteu aos métodos tradicionais para conter populações revoltadas: oferta de benefícios e repressão a manifestantes. Mas o contrato social tradicional do Oriente Médio, formado por benefícios do Estado financiados por petrodólares e contrapostos a liberdade política restrita, está se desgastando.

Após um período prolongado de preços baixos do petróleo, instabilidade e estagnação econômica, com os governos enfrentando déficits orçamentários e uma dependência crescente da dívida externa, esses governos estão finalmente limitando os benefícios sociais.

De acordo com o Fundo Monetário Internacional, governos do Oriente Médio gastaram US$ 74 bilhões com subsídios de combustível em 2016 –um quarto dos subsídios energéticos mundiais. Muitos governos também estão reduzindo seu funcionalismo público ineficiente, que funciona como rede de proteção social, mas consome cerca de um terço do dinheiro gasto pelos governos.

Especialistas dizem que as reformas já eram necessárias havia muito tempo, mas estão ocorrendo em um ambiente volátil caracterizado por um sentimento crescente de injustiça entre a população jovem, urbanizada e mais bem informada. Muitos árabes acham que sua vida piorou desde 2011.

“Era melhor antes da revolução, porque o dinheiro dava para comprar mais. Agora tudo está caro. Não encontro trabalho há dois anos”, diz Mourad Zaabouti. O tunisiano de 34 anos vive com sua mãe e sobrevive da pensão de seu pai morto. “Eu tinha esperança de que a revolução traria melhoras, mas nada mudou.”

Zaabouti na realidade vive em uma das partes mais tranquilas da região. Enquanto em outros países a repressão vem sendo crescente, a Tunísia é o único Estado árabe que pode se gabar de ter tido uma transição democrática após as revoltas de 2011.

Mas os ganhos políticos do país não foram acompanhados por avanços econômicos: a Tunísia continua a sofrer desemprego juvenil de 25% e disparidades enormes entre as regiões costeiras, mais ricas, e o interior miserável.

Em 2016, Túnis acordou um empréstimo de US$ 2,8 bilhões do FMI para aliviar a pressão sobre seu cofre público sobrecarregado. Mas isso implicou na adoção de reformas dolorosas, incluindo as medidas de austeridade que causaram os protestos de janeiro.

O Egito seguiu caminho semelhante, conseguindo um empréstimo de US$ 12 bilhões do FMI, um acordo pelo qual Cairo teve que cortar os subsídios aos combustíveis e desvalorizar a libra egípcia. As medidas foram saudadas por investidores e empresas cuja situação fora dificultada pela escassez de dólares, mas aumentaram o sofrimento da população, levando os preços dos alimentos a subir muito e a inflação a passar de 30%. Quando o governo procurou modificar o sistema de subsídio do pão, explodiram protestos, obrigando-o a recuar.

Protestos de grande escala no país mais populoso do mundo árabe foram evitados em parte porque os cortes nos subsídios vêm ocorrendo ao mesmo tempo em que o regime intensifica seu controle autocrático.

Desde que o ditador Abdel Fattah al-Sissi tomou o poder em um golpe em 2013, milhares de pessoas foram detidas e 450 sites na internet foram bloqueados, num movimento de pressão descrito pela entidade Human Rights Watch como “repressão desmedida de todas as formas de dissensão”. Sissi tem a garantia de conseguir um segundo mandato nas eleições presidenciais deste mês.

Fãs femininas assistem a partida no estádio da King Saudi University em Riad; proibição de mulheres em estádios foi levantada - Fayez Nureldine - 6.mar.2018/AFP

Na Arábia Saudita, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, 32 anos, está adotando uma abordagem em várias frentes para reformar uma economia dependente do petróleo e um sistema de bem-estar social que protege os cidadãos do nascimento até o fim da vida.

O herdeiro ao trono está cortejando os sauditas jovens com promessas de criar uma sociedade mais tolerante e aberta, incluindo o fim da proibição de mulheres ao volante de carros. E ele está procurando reduzir o déficit fiscal, reduzindo os benefícios ao setor público, elevando os preços dos combustíveis em até 127% e introduzindo um imposto sobre o valor adicionado.

Porém, ao mesmo tempo em que a dissensão está sendo sufocada no reinado, com a prisão de príncipes e jornalistas, o príncipe Mohammed percorre uma corda baba. Riad restaurou os benefícios dos funcionários públicos e militares após apenas seis meses. Dias após a introdução do IVA de 5% e da elevação dos preços dos combustíveis, este ano, Riad respondeu a queixas concedendo um abono mensal de US$ 267 aos funcionários públicos por um ano.

No entanto, se o príncipe Mohammed quiser alcançar suas metas, a próxima geração terá de reduzir suas expectativas salariais e de benefícios quando competir por empregos no setor privado. Dois terços dos sauditas trabalham para o Estado, e os salários dos funcionários públicos consomem mais de 10% do PIB. De acordo com o FMI, os salários dos funcionários públicos são em média 150% mais altos que os do setor privado.

“Estamos ingressando em território novo”, fala Khaled al-Dekhayel, ex-professor de sociologia política na Universidade King Saud, em Riad. “Se o arrocho econômico continuar a se agravar, tudo pode acontecer. Será que o governo vai levar em conta a reação da população? É possível. Se não o fizer, poderemos enfrentar tempos políticos muito difíceis aqui.”

Ragui Assaad, professor egípcio de planejamento e assuntos públicos na Universidade do Minnesota, diz que os problemas da região são agravados por setores privados fracos que são incapazes de absorver novos candidatos a empregos e as expectativas crescentes entre os jovens que procuram trabalho, devido à alta dos níveis de educação.

“Imaginou-se que depois que o Estado recuasse, o setor privado assumiria o papel de criador de bons empregos”, disse Assaad. “Mas isso simplesmente não aconteceu. Os investimentos do exterior não chegaram, e os investimentos domésticos se voltaram para áreas muito seguras e que não geram bons empregos –por exemplo o setor imobiliário.”

Nos anos 1970 e início da década seguinte, um egípcio que ingressasse no mercado de trabalho com instrução secundária ou superior tinha 70% de chances de conseguir um emprego no setor público. Nos anos 2000, essas chances já tinham caído para 25%, e hoje, segundo Assaad, a pessoa que ingressa no mercado de trabalho tem apenas 15% de chances de conseguir um emprego formal no setor privado.

Há mais empregos na construção –muitas vezes trabalho informal— que na mineração, no setor manufatureiro e nas empresas de água, eletricidade e afins, todos somados, ele observa ainda. A população egípcia passou de 69 milhões de pessoas em 2000 para quase 96 milhões hoje, e o número de universitários diplomados subiu para cerca de 500 mil por ano.

“Quando você educa jovens, você eleva as expectativas deles, e, quando não consegue atender essas expectativas, o resultado é muita raiva e frustração”, diz Assaad. “A maior parte do desemprego na região não se deve a pessoas que perdem seus empregos, mas a pessoas que não conseguem seu primeiro emprego. Com o tempo, depois de passar vários anos esperando na fila, essas pessoas conseguirão trabalho no setor informal.”

A repressão, para ele, só pode sufocar essas frustrações por certo tempo. “O risco é de haver mais agitação ou mais repressão. Os setores mais insatisfeitos são a classe média e os que aspiram tornar-se classe média, porque é com ela que o contrato social tinha sido fechado.”

O FMI tem consciência dos riscos. Em janeiro Christine Lagarde aconselhou os países árabes a acelerar a geração de empregos: “A insatisfação popular que vem borbulhando em vários países nos recorda da necessidade de ação ainda mais urgente”, disse a diretora gerente do Fundo, acrescentando que outros 27 milhões de pessoas vão ingressar na força de trabalho árabe nos próximos cinco anos.

Mas a dificuldade para os governos é atrair investimentos para setores que geram empregos, como o manufatureiro. Para aliviar as tensões, o FMI advoga mais “programas de proteção social” seletivos, como pagamento de auxílio aos setores mais pobres da sociedade, ao invés de subsídios mais amplos.

Mas Muasher, o ex-ministro jordaniano, insiste que reformas econômicas só vão funcionar se forem acompanhadas por reformas políticas.

“Não podemos ter esses sistemas autocráticos, quer seja na Arábia Saudita, no Egito, no Irã ou qualquer outro país, e querer que o processo econômico avance sem atritos”, ele fala. “Ninguém está falando em liberdades totais e democracia total da noite para o dia, mas, quando se pede que a população faça mais sacrifícios econômicos, é preciso também permitir algumas vozes políticas.”

Soghayer está convencido de que a manutenção do status quo vai acabar levando à revolta. “A ira pública cresce constantemente e vai alcançar um nível perigoso”, ele diz.

Tradução de CLARA ALLAIN

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