Governista rejeita contagem de votos no Paquistão após denúncias de irregularidades

Forças de segurança teriam expulsado observadores de zonas eleitorais ao redor do país

Carolina Vila-Nova
São Paulo e Islamabad | Reuters

Um dos principais candidatos a premiê nas eleições desta quarta-feira (25) no Paquistão afirmou que não irá reconhecer o resultado da contagem dos votos após inúmeras denúncias de que observadores eleitorais acreditados teriam sido expulsos das zonas eleitorais pelas forças de segurança.

O Exército colocou nas ruas quase 400 mil homens para acompanhar a votação, numa jornada em que atentados contra recintos de votação deixaram quase 40 mortos.

Shehbaz Sharif, 66, irmão do ex-premiê Nawaz Sharif e candidato pela Liga Muçulmana Paquistão-Nawaz (PML-N, governista),  rejeitou a contagem "devido a irregularidades manifestas e maciças", enquanto os resultados começam a ser contabilizados e não havia um vencedor claro.

“Se o mandato do povo tivesse sido alcançado de maneira justa, teríamos aceitado com alegria", disse Sharif nas redes sociais. 

"Jamais na minha carreira política havia visto esse tipo de malversação."

Ele afirmou que, em uma reunião na quinta (26), seu partido vai discutir suas opções "políticas e legais". 

Diversas projeções davam maioria ao partido do candidato oposicionista Ihram Khan, o Tehreek-e-Insaf (PTI), com entre 94 e 102 dos 272 assentos. Já o PML-N obteria entre 40 e 58 assentos. São necessários 172 assentos para obter uma maioria.

Pelas projeções, nem o partido de Khan nem o de Sharif conseguiriam maioria na Assembleia Nacional. As projeções foram feitas com 20% dos votos contabilizados.

O porta-voz do PTI, Fawad Chaudhry, manifestou confiança nos primeiros números: "Parabéns à nação pelo novo Paquistão! Premiê Imran  Khan."

O terceiro maior partido, o Partido do Povo do Paquistão (PPP), também reclamou que seus observadores foram expulsos durante a contagem de várias zonas eleitorais. O candidato a premiê pelo partido é Bilawal Bhutto, filho da ex-premiê assassinada Benazir Bhutto.

"Este é o sinal de alerta de uma ameaça séria", afirmou Sherry Rehman, senador pelo PPP. "Essa eleição inteira pode ser declarada anulada, e não queremos isso." 

Ao menos seis partidos, incluindo o extremista Tehreek-e-Labbaik, fizeram reclamações similares. 

O líder do partido Muttahida Qaumi Movement-Pakistan (MQM-P), Faisal Sabzwari, disse ainda que chefes das zonas eleitorais não estão fornecendo resultados certificados.

A campanha eleitoral foi marcada por acusações de manipulação pela Forças Armadas, por intimidações à imprensa e por uma série de atentados contra candidatos, o que fez com que esta fosse chamada de "a eleição mais suja da história".

"Essa eleição pode ser sumarizada como uma disputa entre ser pró-militares ou anti-militares. Imran Khan claramente se posicionou como líder de torcida dos militares, feliz em receber seu apoio, mesmo quando esse apoio ocorre em detrimento do processo democrático", disse à Folha a analista paquistanesa Samira Shackel. "Por sua vez, Nawaz Sharif e o PML-N posicionaram a campanha inteira como uma luta contra o controle dos militares sobre o Paquistão e uma tentativa de supremacia civil."

 "Muitos analistas apontam que não é necessariamente que os militares amem Khan, mas sim que eles odeiam Nawaz Sharif e querem mantê-lo fora do poder de qualquer maneira, por causa de seus esforços para reparar o balanço de poder civil-militar e as relações com a Índia", disse Shackel. "O cenário ideal para os militares é um aparato civil fraco que eles possam manipular e comandar. Isso significa que eles devem favorecer uma coalizão frágil, idealmente liderada por alguém disposto a cooperar, como Khan." 

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