Líder de Cuba estreia na ONU falando de Lula e defendendo Maduro

Miguel Díaz-Canel é primeiro não-Castro a discursar na ONU em mais de cinco décadas

Danielle Brant
Nova York

O aguardado discurso de estreia do novo dirigente cubano, Miguel Díaz-Canel, na Assembleia da ONU não tratou de abertura econômica ou política em Cuba, mas veio recheado de farpas aos EUA e uma crítica ao que chamou de "prisão com fins políticos” do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Díaz-Canel, que assumiu o poder em abril após uma sucessão planejada pelo ditador Raúl Castro, é o primeiro líder cubano que não integra a família Castro desde 1959. Usou sucintos 19 minutos, 7% dos históricos 269 minutos de duração do discurso do ditador Fidel Castro em 1960.

“Denunciamos o encarceramento com fins políticos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a decisão de impedir o povo de votar e eleger à Presidência o líder mais popular do Brasil”, afirmou nesta quarta (26) Díaz-Canel, que, nascido em 1960, após a Revolução de 1959, faz sua primeira viagem aos EUA. 

Lula está preso desde abril na sede da Polícia Federal em Curitiba, onde cumpre pena após ser condenado por corrupção e lavagem de dinheiro em um caso envolvendo um triplex no Guarujá (SP), e teve sua candidatura à presidência impugnada.

Díaz-Canel também acusou o governo do americano Donald Trump de implantar uma “política imperialista” na América Latina e de atacar “com uma especial sanha” a Venezuela

“Nesse contexto ameaçador, reiteramos o nosso absoluto respaldo à revolução bolivariana e chavista, à união cívico-militar do povo venezuelano e o seu governo legítimo e democrático, conduzido pelo presidente constitucional Nicolás Maduro Moros”, disse.

O líder cubano criticou a aplicação de sanções econômicas e comerciais contra a Venezuela, que, afirma, buscam “asfixiar economicamente” o país.

Ele disse rejeitar ainda as tentativas de desestabilizar o governo da Nicarágua, que definiu como “um país de paz” embora relatório da própria ONU indique que mais de 300 pessoas foram mortas pela repressão comandada pelo regime de Daniel Ortega desde abril deste ano, quando os protestos por sua saída se intensificaram. 

O cubano manteve o mesmo tom combativo adotado por Raúl Castro e, antes dele, por seu irmão Fidel, ao se referir aos Estados Unidos. O discurso que Fidel fez pelos 50 anos da ONU, em 1995, foi lembrado por Díaz-Canel. 

Nas declarações, o comandante-chefe da Revolução Cubana defendeu um mundo sem hegemonias, sem armas nucleares, sem intervencionismos e ódios nacionais e religiosos, sem ultrajes à soberania de nenhum país e que respeite a independência da livre determinação dos povos.

Ele pregou um discurso de continuidade, e não ruptura, com as políticas dos irmãos Castro. “Apesar do bloqueio, da hostilidade e das ações dos Estados Unidos para impor uma mudança de regime em Cuba, aqui está a Revolução Cubana, viva e pujante, fiel a seus princípios”, afirmou.

​Díaz-Canel acusou o governo de Donald Trump de restabelecer a Doutrina Monroe, que vigorou no século 19 e representava o forte nacionalismo resumido na expressão “A América para os americanos”.O líder cubano se juntou aos apelos para reformar o Conselho de Segurança da ONU, instrumento usado, segundo ele, pelos Estados Unidos para “impor sua agenda política”.

O Brasil é um dos países que pede a expansão e a modernização da composição do órgão sancionador das Nações Unidas, ao lado de Alemanha, Índia e Japão.

Em mais de uma ocasião, enquanto Díaz-Canel criticava o governo de Trump, a câmera, que costuma focar o dirigente durante seu discurso, cortou para a delegação americana --que não expressou reação às declarações do cubano.

“O governo dos EUA mantém contra Cuba uma retórica agressiva e uma política dirigida a subverter o sistema político, econômico, social e cultural do país”, afirmou o dirigente, que acusou os americanos de fabricar “artificialmente, com falsos pretextos, cenários de tensão e hostilidade que não beneficiam ninguém.”

Lembrou também o embargo a Cuba, que foi reforçado pela Administração de Trump, depois do ensaio de uma aproximação durante o governo do democrata Barack Obama. Em 2014, os países retomaram relações diplomáticas depois de mais de 50 anos.

Entre outras medidas, o democrata criou 12 categorias que permitiam a não cubano-americanos visitar a ilha. Os próprios viajantes tinham de descrever o propósito de sua viagem. O embargo econômico, porém, foi mantido.

“Consiste no sistema de sanções econômicas mais abrangente e prolongado aplicado contra qualquer país”, disse.

Muitos dos termos usados pelo dirigente também remetiam aos anos da Guerra Fria. O dirigente falou em cooperação e respeito a regras do direito internacional para avançar em direção a um “mundo multipolar”.

Mencionou ainda as potências, o imperalismo e os países industrializados e rechaçou a “ingerência externa” nos assuntos de outras nações.

“Cuba mantém a intenção de desenvolver uma relação respeitosa e civilizada com o governo dos EUA, sobre a base da igualdade soberana e o respeito mútuo”, afirmou. “Sabemos que se trata de uma aspiração compartilhada pela maioria dos cidadãos americanos e particularmente pelos cubanos que moram neste país.”

Ao final do discurso, o dirigente disse estar emocionado por falar na mesma tribuna onde, 58 anos atrás, Fidel “expressou verdades tão poderosas” que, no entanto, “nos estremecem frente aos representantes das mais de 190 nações.”

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