Descrição de chapéu Análise Governo Trump

Sucessos descritos na ONU por Trump e Temer não existem no mundo real

Opostos naquilo que exaltam, discursos de líderes só se encontram no autoelogio

Patrícia Campos Mello
São Paulo

Enquanto o discurso do presidente americano, Donald Trump, foi um desaforo contra a ONU e toda e qualquer instituição multilateral, como previsto, a fala de Michel Temer soou como música para os ouvidos dos defensores da combalida ordem global.

“Rejeitamos a ideologia do globalismo e abraçamos a doutrina do patriotismo”, discursou Trump, que chamou o Conselho de Direitos Humanos da ONU de “uma vergonha” e disse que o Tribunal Penal Internacional “não tem legitimidade, nem autoridade”.

 

Em contraste, Temer descreveu o Brasil como um “país que, diante do isolacionismo, propõe mais abertura e integração” e, diante do unilateralismo, “propõe mais diplomacia e multilateralismo”.

Pena que esse paladino das instituições multilaterais seja um presidente pato manco, em fim melancólico de mandato, com rejeição de 82%. E que várias das vitórias listadas por Temer não sejam muito precisas.

Trump teve a desfaçatez de “agradecer” os países vizinhos à Síria por acolher refugiados da guerra civil e dizer que lá é o melhor lugar para essas pessoas ficarem. “Como vemos na Jordânia, a política mais compassiva é manter os refugiados o mais próximo possível de suas casas, para facilitar seu retorno e participarem da reconstrução (de seu país)."

Os países em desenvolvimento abrigam 85% dos refugiados do mundo. Líbano e Jordânia, países com renda per capita bem inferior aos EUA, têm 980 mil e 670 mil refugiados sírios, e frequentemente pedem ajuda de nações mais ricas para reassentamento. Sob Trump, os EUA reduziram de 45 mil para 30 mil a cota de refugiados reassentados ao ano –o número mais baixo em décadas

Já Temer fala que o Brasil tem “orgulho de nossa tradição de acolhimento.” E descreve os esforços do governo federal para receber os cerca de 55 mil venezuelanos que estão em território brasileiro, com construção de abrigos, permissão para trabalhar e estudar.

De fato, o governo federal tem agido para acolher o fluxo de venezuelanos. No entanto, a governadora de Roraima, Suely Campos, acaba de fechar acordo com o ditador venezuelano, Nicolás Maduro, para “devolver” venezuelanos. 

Trump rejeitou o “Pacto Global para Migração”, dizendo que cada país tem o direito de ter sua própria política de migração, de acordo com seus interesses nacionais. Para ele, a solução para o problema dos refugiados é cada um ficar na sua casa. “A única solução de longo prazo para a crise da migração é ajudar as pessoas a construir futuros melhores em seus países de origem: fazer seus países grandiosos de novo”

Não que essa ajuda aos países mais pobres devesse ser de graça –para Trump, deveria funcionar como escambo. “Os EUA são os maiores provedores de ajuda externa no mundo, mas poucos países dão alguma coisa para a gente.”  

Temer defende o pacto global e fala sobre o dever de proteger os refugiados.

No entanto, ele não mencionou a promessa que fez em sua primeira participação na assembleia geral da ONU, em 2016. Temer se comprometeu a receber mais 3.000 sírios no Brasil. No começo deste ano, Temer foi cobrado publicamente por Filippo Grandi, alto comissário da ONU para refugiados. Mas a promessa não se concretizou.

Em relação à Venezuela, a diferença de tom é gritante. Trump fala que 2 milhões fugiram das “aflições causadas pelo socialista Maduro e seus patrocinadores cubanos” e que o socialismo “quebrou a nação rica em petróleo e levou sua população a uma pobreza abjeta”.

Mais uma vez, o americano pede ação e anuncia sanções.

“Pedimos às nações aqui reunidas que reivindiquem a restauração da democracia na Venezuela; e hoje anunciamos mais sanções contra o regime repressivo.”

O governo brasileiro não adota sanções unilaterais e o Grupo de Lima rejeitou sugestões de intervenção militar na Venezuela.

“Mas sabemos que a solução para a crise apenas virá quando a Venezuela reencontrar o caminho da democracia e do desenvolvimento", disse Temer, em frase delicadamente construída para não sugerir nenhuma intervenção externa.  

Erramos: o texto foi alterado

Diferentemente do informado anteriormente, a rejeição ao presidente Michel Temer é de 82%, segundo a última pesquisa Datafolha sobre sua popularidade, em 10 de junho passado. Além disso,  era errada informação de que havia um representante da Casa Civil da Presidência na reunião entre a governadora Suely Campos e o ditador Nicolás Maduro. O texto foi corrigido.

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