Justiça da Turquia decide liberar pastor americano preso no país

Prisão de Andrew Brunson, acusado de terrorismo, gerou crise diplomática entre Washington e Ancara

Aliaga (Turquia)

A Justiça da Turquia determinou nesta sexta-feira (12) a liberação do pastor evangélico americano Andrew Brunson e suspendeu suas restrições de viagem, permitindo seu retorno aos Estados Unidos, como exigia o presidente Donald Trump. A prisão do religioso levou a sanções econômicas que foram o pivô para a crise financeira turca.

Líder de uma igreja em Esmirna, no oeste do país, por mais de 20 anos, o religioso estava havia dois anos preso acusado de terrorismo. Ele foi relacionado ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), considerado um grupo terrorista por Turquia, EUA e União Europeia.

As autoridades turcas também o ligaram ao movimento Hizmet, do líder islamita Fethullah Gülen, acusado pelo mandatário turco, Recep Tayyip Erdogan, de ser o mandante da tentativa de golpe contra ele, em julho de 2016.

O pastor americano Andrew Brunson em foto de julho de 2018
O pastor americano Andrew Brunson em foto de julho de 2018 - AFP

Foi em um dos expurgos decorrentes do levante, em outubro, que Brunson foi preso. Sem ser sentenciado, o pastor passou 21 meses na cadeia.

O regime seria convertido para prisão domiciliar em julho, na mesma época em que Trump ameaçou aplicar sanções devido à prisão e dobrar as tarifas a importações de alumínio e aço turcos. 

A medida não satisfez o republicano: ele oficializou as punições, que aprofundaram a desvalorização da lira turca. A moeda perdeu 45% de seu valor no ano, chegando à cotação máxima de 7,24 em relação ao dólar —o câmbio fechou em 5,87 nesta sexta.

Brunson foi condenado oficialmente a três anos, um mês e 15 dias de prisão. Os juízes, porém, decidiram liberá-lo em definitivo pelo tempo detido e por bom comportamento. O crime de terrorismo tem pena máxima de 35 anos.

Em sua última declaração antes do veredicto, o pastor chorou enquanto tentava se defender. “Na nossa igreja nós ajudamos a todos, curdos, árabes, sem nenhum tipo de discriminação. Sou um homem inocente. Eu amo Jesus. Eu amo a Turquia”, disse.

Depois do julgamento, abraçou chorando sua mulher, Norine, que o acompanhava. Ele voltou para casa e foi levado na sequência para o aeroporto de Esmirna, de onde partiu em avião privado para a base americana de Rammstein, na Alemanha, onde ficará por um dia antes de ir aos EUA.

“É o dia pelo qual nossa família vem rezando. Estou encantado de estar a caminho de casa nos Estados Unidos”, declarou Brunson, em nota.

“Nós estamos cheios de alegria que Deus respondeu as orações de tanta gente de todo o mundo”, disse Pam Brunson, mãe do pastor, que mora em Black Mountain, no estado americano da Carolina do Norte, em entrevista à agência de notícias Reuters.

Trump comemorou a libertação e disse que deve receber o pastor na Casa Branca neste sábado (13). “Boas notícias. O pastor Brunson já está no ar”, disse antes de um evento de campanha em Cincinatti.

Questionado sobre a retirada das sanções e das tarifas, Trump disse que não houve nenhum acordo com as autoridades turcas para permitir a libertação do pastor.

A defesa da libertação de Brunson pelo republicano veio principalmente devido à pressão de setores evangélicos que o apoiaram na campanha eleitoral e têm relações próximas com dois membros de seu gabinete: o secretário de Estado, Mike Pompeo, e o vice-presidente, Mike Pence.

As sanções foram aplicadas após reunião de Pompeo com o chanceler turco, Mevlut Cavusoglu, em julho passado. As tarifas aos metais foram anunciadas em 10 de agosto.

Nas últimas semanas, a tensão diminuiu entre os dois países. Enquanto o secretário de Estado dizia que a libertação de Brunson ocorreria logo, Erdogan manifestou sua disposição a resolver os problemas com os EUA embora tenha criticado o uso das sanções.

Os EUA têm outros cidadãos presos na Turquia, como o cientista da Nasa Serkan Gölge e dois empregados turcos do corpo diplomático americano. 

Por outro lado, a Turquia pede a extradição de Gülen, que desde 1999 mora no estado da Pensilvânia.
Outro caso que alimenta a tensão entre os dois países é o do banco Halkbank, cujo ex-vice-diretor-geral Mehmet Hakan Atilla, foi condenado pela Justiça dos EUA 2 anos e 8 meses de prisão por não respeitar as sanções econômicas americanas contra o Irã.

A relação também está estremecida do lado militar. Aliados dos EUA na Otan, os turcos pretendem comprar um sistema antimísseis da Rússia.

Embora a tensão esteja elevada, a libertação também poderá ajudar a Turquia, levando as autoridades a concentrarem esforços na crise diplomática com a Arábia Saudita devido ao desaparecimento do jornalista Jamal Khashoggi.

AFP
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