'Para quem vota, lado positivo da democracia nem sempre é claro', diz escritora

Para jornalista russo-americana, preferência por líderes autoritários tem lógica e riscos

Sylvia Colombo
Medellín

 O mundo tem de estar alerta aos sinais de autoritarismo que surgem nos atuais governos, mas também às oportunidades que neles se abrem, afirma a jornalista Masha Gessen, 51.

Nascida na Rússia e radicada nos EUA, onde mora em Nova York, é militante LGBT e dura crítica de Donald Trump, nos EUA, e Vladimir Putin, na Rússia. 

Escritora Masha Gessen sentada em um sofá roxo, encontrada em uma parede pink
Autora russo-americana Masha Gessen, em sua casa no Harlem - Naima Green/The New York Times

Gessen está na Colômbia participando do festival Gabo, realizado pela Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano, onde conversou com a Folha.

Ela também prepara um livro-reportagem sobre espaços públicos e aproveitou os dias em Medellín para conhecer as inovações urbanísticas que fizeram a cidade famosa. 

*

Você assistiu ao acirramento de um novo totalitarismo na Rússia. Como ajudar outros países a identificar os sinais de que um governo caminha para isso?
Creio que um Estado totalitarista se caracteriza por um uso muito marcado do discurso ideológico e pelo fato de se transformar, ao mesmo tempo, num Estado terrorista.

Talvez a Rússia esteja num grau mais elevado, mas vejo isso também em outros regimes. 

Os sinais, ainda que os países sejam diferentes, são muito claros. Primeiro, vêm os ataques às instituições, depois, governa-se cada vez mais por decreto.

A gestualidade do líder passa a ser mais marcada, admirada, incorporada pela população. O culto ao poder fica mais evidente.

Os gestos passam a ser mais percebidos pela população do que as políticas públicas.

Não sei se isso está se insinuando como uma possibilidade de ocorrer no Brasil, mas eu diria para ficar atento a esses pontos, caso ganhe o candidato Jair Bolsonaro (PSL).

Há muitas comparações entre Trump e Putin, e você não concorda com elas. Por quê?
Porque creio haver similaridades pontuais e muitas coisas diferentes. O caso é que essas similaridades importam muito, pois são justamente as ameaças. E são as características universais.

Posso contar algumas coisas para você sobre Putin ou Trump e você dirá: [o ex-premiê italiano Sílvio] Berlusconi também é assim, [o ditador venezuelano Nicolás] Maduro também faz isso, mas as sociedades são diferentes. 

As economias, por exemplo, podem ir muito bem, como nos EUA, ou muito mal, como no caso da Venezuela.

É nessas semelhanças de atuação desses líderes autoritários, porém, que você identifica algo que pode se tornar um sistema perigoso e de liberdades mais restritas no futuro. 

Devemos nos concentrar nas ameaças comuns. São elas que podem deixar marcas difíceis de sanar na democracia, nas instituições. Espero que não ocorra no Brasil, mas ficaria alerta a esses pontos.

Você vê uma tendência global de sensação de falha da democracia?
Acho que não sabemos o que a democracia é hoje. Creio que é um ideal, uma aspiração, e que estamos lidando com uma crise mundial que decidiu colocá-la como um alvo.

Será o alvo correto para o que vai mal? Não creio. Para muita gente foi dito que o que temos é uma democracia, só que para boa parte da população não é palpável a razão pela qual a democracia é algo positivo, que a democracia as representa de fato. 

Então todos jogamos as regras que nos ensinaram como sendo corretas na democracia. Mas então muitos foram deixando de acreditar, deram-se conta de que isso não fez a vida melhor.

Para essas pessoas, a vida continua piorando. Temos de entender que a reação contra isso não é um ato irracional.

Por quê?
Nos EUA, as pessoas que se creem informadas são muito guiadas por uma mídia que prefere se apoiar no que dizem certos analistas políticos segundo os quais quem vota em Trump ou em líderes como ele o faz porque não é bem informado ou não é muito inteligente.

Acho isso errado. Creio que essas pessoas votaram nele de modo muito racional do ponto de vista deles. E isso é a democracia. 
Trump apareceu e disse: eu vou ser a granada que irá explodir o sistema. Ele não está melhorando a vida dos americanos de baixa renda, mas está destruindo o sistema.

Nesse sentido, está levando adiante suas promessas e até obteve certa estabilidade para seu governo nesses parâmetros.

Estamos falhando em perceber novos fenômenos?
Com certeza. Ainda por cima, os analistas políticos norte-americanos agora acham que Trump está sendo suave comparado a suas promessas eleitorais.

A verdade é que isso não é notícia boa. O país está pior, quem era pobre está mais pobre, ao passo que ele está implodindo o sistema.

Mas a macroeconomia mostra bons números, não?
Sim, a macroeconomia está muito bem. Porque os muito ricos são os que estão indo muito bem, mas isso serve a ele e a pessoas como ele, que criaram esse mercado, esse sistema de bolsa e se beneficiam dele.

Não há a reversão de uma deterioração do emprego, um problema de décadas.

Apesar de tantas mostras de sistemas políticos caminhando para o autoritarismo, algumas coisas têm avançado. A luta pelos direitos da mulher e das pessoas LGBT, causa que está entre suas preocupações, tem dado frutos, ainda que lentamente em alguns casos. É um paradoxo?
Não. Num momento de crise, abrem-se oportunidades.

É importante estar consciente delas, e em vários países isso está acontecendo, como no movimento de mulheres na Argentina [Ni Una Menos, contra feminicídio] ou o #metoo [que expôs casos de agressão sexual] nos EUA. É preciso usar bem essas oportunidades.

Nos EUA esses movimentos são resultado da crise de valores da sociedade que Trump expôs e da polarização que impulsionou. Não creio que se possa generalizar.

Os EUA agora são dois países. Há leis que servem ao país de Trump e leis de um país que não é o de Trump. O #metoo é desconhecido dos eleitores de Trump. Há uma batalha desses dois países hoje em dia.

Mas acho que não veríamos isso acontecer sem Trump. Portanto, implodir o sistema talvez não sirva a seus eleitores, mas ao final talvez sirva, em alguns aspectos, a seus opositores.

Deve-se estar muito atentos às oportunidades que surgem em situações autoritárias ou autocráticas, é nossa fonte de esperança.

Outra similaridade entre esses regimes é o uso do passado. Isso seria intencional?
Difícil dizer em que casos é intencional, mas sem dúvida é generalizado. Trump, [o presidente turco, Recep Tayyip] Erdogan e Putin trabalham com imagens do passado, com uma nostalgia de um tempo supostamente melhor que nunca foi exatamente assim, mas em que as pessoas pareciam se sentir mais seguras, um mundo mais simples, em que havia a sensação de que não era necessário lidar com coisas que os deixassem desconfortáveis ou ansiosos.

[O ditador alemão Adolf] Hitler [1889-1945] usou isso, não é nada novo. O caso é que os políticos tradicionais não sabem responder a isso, pois não usam a ideia de futuro glorioso, falam de políticas reais.

O Putin de hoje é diferente do de 20 anos atrás?
Sim, no sentido de que é humano, aprendeu a estar nessa posição, e passou de um burocrata a possivelmente um dos homens mais ricos do mundo. Isso muda qualquer homem. 

Porém, suas ideias básicas continuam as mesmas: de que o mundo está se corroendo e que ele pode oferecer proteção, que a democracia não funciona e que é uma bagunça que traz corrupção.

E, mais importante, que a Rússia tem de ter seu poder restaurado, pois foi tratada de modo injusto pela história. Tudo isso segue sendo seu norte.

Em que momento ele se deu conta de que poderia passar a influenciar além das fronteiras da Rússia? 
Isso existe desde o mundo soviético. Foi potencializado por sua megalomania particular. Mas o que a Rússia fez com as eleições norte-americanas [o governo russo é acusado de tentar influenciar as campanhas presidenciais em 2016] foi uma continuação do que a União Soviética sempre fez, mas com novas tecnologias. O que mudou foi o tamanho da influência por causa da internet.

A resposta, creio, deveria estar também em nossos países e não só na Rússia, pois sempre se fez isso, mas há 20 anos o impacto era ridículo. Hoje, pode definir uma eleição.

Há que se estar mais vigilante. Mas há outra razão pela qual esses truques estão funcionando —e olha que são truques mal feitos: as outras sociedades estão muito vulneráveis, muito mal informadas, e não estão sabendo identificar notícias falsas, não estão com o espírito crítico desperto.

Como seria o fim do governo Putin?
Sua popularidade tem caído, mas ele teve sucesso em construir um sistema eleitoral que funciona para ele, então não sabemos quando colapsará.

Pode ser quando ele morrer ou quando peças do sistema colapsarem. Não creio que esse regime termine por pressão internacional.
 

Livros de Masha Gessen

Putin - A Face Oculta do Novo Czar
2012, ed. HarperCollins, 296 págs.

Palavras Quebrarão Cimento - A Paixão de Pussy Riot
2014, ed. Martins Fontes, 316 págs.

Dead Again - The Russian Intelligentsia after Communism
1997, Verso, 222 págs. (em inglês)

The Future Is History - How Totalitarianism Reclaimed Russia
2017, ed. Riverhead Books, 528 págs.

Gay Propaganda: Russian Love Stories (in Russian and English)
2014, OR Books, 224 págs.

Never Remember: Searching for Stalin’s Gulags in Putin’s Russia
2018, Columbia Global, 156 págs


 

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