Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Possível retrocesso do Mercosul sob Bolsonaro preocupa, diz ex-chanceler argentina

Para Susana Malcorra, declarações do futuro governo brasileiro debilitam acordo com UE

Sylvia Colombo
Buenos Aires

Susana Malcorra, 64, diz estar “muito preocupada com os rumos do Mercosul”.

Em entrevista à Folha, por videoconferência em Madri, onde vive agora, a chanceler do presidente Mauricio Macri de 2015 a 2017 contou que já vinha alertando o governo argentino para as declarações do então pré-candidato Jair Bolsonaro com relação à região.

“Agora, as mensagens que venho escutando do presidente eleito do Brasil e de seu entorno é que podemos ter um retrocesso na integração em que vínhamos trabalhando e que será muito ruim que o Brasil não privilegie o vínculo com o Mercosul e, em particular, com a Argentina.”

A então chanceler da Argentina Susana Malcorra durante entrevista coletiva em Buenos Aires, em 2017
A então chanceler da Argentina Susana Malcorra durante entrevista coletiva em Buenos Aires, em 2017 - Martín Zabala - 1º.abr.17/Xinhua

Em entrevista recente, o futuro ministro da Economia brasileiro, Paulo Guedes, disse que o Mercosul “não é uma prioridade” e que havia se tornado “prisioneiro de alianças ideológicas”.

Malcorra lembrou que, há não muito tempo, “Brasil e Argentina tinham temas de conflito entre si, e isso se superou quando veio a democracia e os primeiros presidentes democráticos de ambos os países decidiram que a integração era necessária e que passava necessariamente pela economia. Por isso fundaram o Mercosul e a relação melhorou muito.”

Para ela, as declarações do futuro governo brasileiro debilitam a capacidade de negociação do bloco para, entre outras coisas, fechar o acordo de livre comércio com a União Europeia.

Apesar da lentidão da negociação, que já dura quase 20 anos, Malcorra acredita que, durante seu período no governo e em 2018, “se avançou muito, eu diria que estamos no trecho final. Ou seja, não é o momento de mandar mensagens que possam desestabilizar nossa posição e apontar para um retrocesso de nossa parte".

Acrescentou que desprezar esse acordo seria “não valorizar o tamanho dos mercados e não entender que negociar como mercado comum nos daria uma capacidade maior para conseguir melhores resultados econômicos”.

Malcorra também fez uma autocrítica, afirmando que “se em algo falhamos nos últimos anos foi por não termos sido suficientemente rápidos. Argentina e Brasil foram os principais responsáveis nesse caso. Algumas vezes era o Brasil quem liderava a reação contra e a Argentina se escondia. Noutras, a Argentina o fazia, e o Brasil se escondia. Porém, nunca abandonamos a convicção de que o Mercosul era uma prioridade".

Malcorra está lançando o livro “Pasión Por El Resultado” (Paixão pelo Resultado, sem edição no Brasil), em que, além de contar como foi sua passagem pelo cargo de chanceler da Argentina, fala de sua trajetória na iniciativa privada e como chefe de gabinete da Secretaria-Geral da ONU.

Pessoalmente, uma bandeira que sempre carregou foi o da inserção da mulher nos ambientes de trabalho e de poder. “A Argentina melhorou muito desde que iniciei minha carreira. A política de cotas no Congresso (30%) impulsionou a participação feminina, mas isso ainda não é o suficiente. Quando vemos as imagens dos momentos de tomadas de decisão, elas são essencialmente masculinas.”

Afirmou ter sido insistente com o presidente Macri sobre a necessidade de mais políticas afirmativas, “porque de outro modo, nossas sociedades nunca serão igualitárias” e que é preciso que exista uma mudança cultural por meio da educação.

“Por que uma mulher no poder é vista de forma masculinizada? Isso é um preconceito que temos de vencer. Claro que mudará com a frequência maior em que as mulheres cheguem a esses postos, mas também faz falta uma mudança cultural, e isso se faz por meio de políticas.”

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