China inova em nome de crescimento e controle após 40 anos de reformas

Manter partido único com expansão da classe média é o próximo desafio

Jaime Spitzcovsky
Guangzhou, Zhaoqing, Zhuhai e Shenzhen

Quatro décadas depois de iniciar as reformas, a China implementa nova fórmula para enfrentar a ampliação do paradoxo chinês, representado pela manutenção do regime de partido único ao lado de inovação científica e expansão da classe média. 

Tecnologia de ponta a serviço do governo e criação de “super-regiões capitalistas”, espelhadas no sucesso econômico de Singapura, despontam como ferramentas do Partido Comunista para desafiar previsões de que a modernidade inocularia democracia e implodiria a alquimia inaugurada em 1978.

Deng Xiaoping (1904-1997), patriarca das reformas, mudou o curso da história ao anunciar, em dezembro de 1978, o “socialismo com características chinesas”, rótulo oficial do sistema vigente. 

O dirigente comunista buscava combater a pobreza e o isolamento a modelar, a partir do século 19, o país mais populoso do planeta —tendências agravadas pela ortodoxia ideológica da era Mao Tse-tung (1949-1976).

Prédios de Shenzhen são iluminados em ato dos 40 anos das reformas  - Thomas Suen - 4.dez.18/Reuters

​Deng, com a cartilha do pragmatismo, reviu dogmas e injetou doses cavalares de economia de mercado no universo dominado pelo Partido Comunista. Abandonou a criação do “paraíso proletário” e abraçou a missão histórica de recuperar, para o país, o status de potência global, após dois séculos de decadência.

Com a decolagem, a China construiu a segunda maior economia do mundo e personifica o mais significativo desafio, desde o fim da Guerra Fria, à hegemonia planetária dos Estados Unidos.

Washington e Pequim, apesar da interdependência econômica, protagonizam guerra comercial e corrida por liderança tecnológica, em cenário ainda marcado pela forte primazia americana.

As quatro últimas décadas testemunharam mudanças tectônicas na sociedade chinesa. Em 1978, mais de 80% da população vivia em extrema pobreza, com menos de US$ 1,90 por dia. A cifra despencou para 2% em 2017. 

A renda per capita anual saltou, entre 1978 e 2017, de 171 yuans para 25.974 yuans (US$ 3.700). O custo da mão de obra subiu, e a remuneração média por hora na China supera em cinco vezes a indiana.

A urbanização avançou em ritmo meteórico. Há 40 anos, 82% da população viviam na zona rural. Industrialização frenética e suas consequências atraíram mais de 500 milhões de chineses às cidades e, hoje, quase 60% do 1,4 bilhão de habitantes se aglomeram em titânicos centros urbanos.

Surgiu ainda um novo personagem: a classe média, figura rara na trajetória milenar marcada por feudalismo e comunismo. Estimativas falam em 400 milhões de chineses com acesso inédito a padrões de consumo comparáveis aos de sociedades ocidentais.

No início da metamorfose, a China passou pela “descoletivização” da agricultura e engendrou a maior plataforma de exportações do planeta. 

Ofereceu mão de obra barata, abundante e pouco qualificada para baixar custos de produção e atrair investimentos estrangeiros. Bugigangas chinesas, com preços ultracompetitivos e qualidade muitas vezes deplorável, inundaram mercados globais.

A partir da crise financeira de 2008, responsável por golpear sobretudo as economias americanas e europeias, o governo chinês revisou o modelo de desenvolvimento. Priorizou mercado doméstico em vez de exportação, e setor de serviços (tecnologia e finanças) no lugar da indústria.

Bússola reorientada, a China também se transmuta em relevante investidor global, e seus capitais saem a adquirir empresas pelo mundo.

Os avanços na China, no entanto, geram desequilíbrios como degradação ambiental, níveis alarmantes de endividamento, envelhecimento da população e dilatação de desigualdades. O índice de Gini, que mede distribuição de renda, já testemunha a versão chinesa se aproximar do padrão americano (0,465 ante 0,479).

Na configuração atual da alquimia de Deng, duas tendências se destacam. Em 2016, o regime anunciou planos para criar 19 “super-regiões”.

Três “city clusters” já se desenvolvem, ao redor de Pequim, Xangai e Guangzhou. Parecem querer se tornar “grandes Singapuras”, referência ao próspero país asiático, com população de 5 milhões de habitantes, em sua maioria de origem chinesa. 

E, na trajetória singapuriana de sucesso econômico, impera um regime autoritário, dominado por um partido há cerca de 60 anos.

O Partido Comunista aposta ainda na tecnologia como instrumento de controle social. 

O uso de gigantescos bancos de dados sobre comportamentos e preferências da população, assim como de controles na internet, proporciona ao regime a expectativa de prolongar sua permanência no poder, comandando a maior revolução capitalista da história recente.


 

O jornalista Jaime Spitzcovsky viajou a convite do China International Publishing Group-Revista China Hoje

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