Descrição de chapéu Governo Trump

Em audiência, juiz diz que ex-conselheiro de Trump 'vendeu' os EUA

Pronunciamento de sentença a Michael Flynn é adiado para março de 2019

Danielle Brant
Nova York

Era para ser uma audiência para confirmar a sentença de Michael Flynn, ex-conselheiro do presidente Donald Trump que confessou ter mentido ao FBI (polícia federal americana), mas que está ajudando a Procuradoria Especial em investigações sobre a interferência russa nas eleições de 2016.

O juiz Emmet Sullivan, porém, deu toda sinalização de que Flynn dificilmente conseguirá driblar uma pena na cadeia, como defende o escritório do procurador especial Robert Mueller, em troca da colaboração do ex-assessor.

A sentença acabou sendo adiada para março. Mas não antes de o juiz lançar duras críticas a Flynn.

Michael Flynn deixa corte em Washington após adiamento de sentenciamento - Saul Loeb/AFP

Após revisar o caso contra o ex-conselheiro de Trump, incluindo o fato de ele ter trabalhado para favorecer os interesses do governo turco nos EUA, o juiz apontou para uma bandeira americana no tribunal e disse, exaltado: “Indiscutivelmente, isso subverte tudo o que essa bandeira aqui defende. Indiscutivelmente, você vendeu seu país”.

Na audiência, Sullivan disse que Flynn era basicamente “um agente não registrado de um país estrangeiro, enquanto servia como conselheiro de segurança nacional ao presidente dos Estados Unidos".

Ele perguntou ao escritório do procurador especial se Flynn poderia ser acusado de “traição”.

“Esta corte vai considerar isso”, afirmou o juiz. “Eu não posso garantir a você, que se você prosseguir hoje, que você não receberá uma sentença de prisão.”

O ex-conselheiro de Trump pareceu ficar abalado ao ouvir a frase. O juiz, então, pediu recesso para deixar Flynn pensar se queria continuar com a sessão, na qual receberia uma sentença, ou adiar a audiência e cooperar mais com a procuradoria especial.

A decisão do juiz pode marcar uma reviravolta no caso, porque procuradores e advogados de defesa pediam que Flynn não fosse sentenciado à prisão pelo crime de mentir ao FBI.

Eles diziam que o ex-assessor colaborava com a equipe de Mueller desde o início e que havia fornecido informação útil a outras investigações em curso.

Ao submeter a sentença, os advogados de Flynn sugeriram que ele teria sido levado a mentir para o FBI porque não havia sido avisado antes que isso era crime.

O juiz, então, pediu mais documentos, enquanto os procuradores rebateram a hipótese de o ex-assessor de Trump ter sido enganado ou influenciado a mentir ao FBI.

Sullivan questionou Flynn sobre isso na audiência. O ex-assessor de Trump reconheceu que tinha ciência de que mentir ao FBI era crime.

O juiz lembrou a Flynn que ele poderia ter “mais problemas” se mentisse no tribunal, e perguntou: “Você não estava ciente de que mentir aos investigadores do FBI era crime?”

“Eu estava”, resopndeu Flynn.

O magistrado, então, perguntou a ele se desejava adiar a sentença ou reconsiderar sua declaração de culpa.

“Eu gostaria de prosseguir, Vossa Excelência.”

“Porque você é culpado desse crime?”, rebateu o juiz.

“Sim, Vossa Excelência”, disse Flynn.

Sullivan falou, então, que não conseguia esconder seu desgosto e seu desprezo pelo crime. “Ele pode ser acusado de traição?”, perguntou ao procurador Brandon Van Grack.

“É uma pergunta séria, eu não tenho certeza da resposta”, respondeu Van Grack.

Antes do início da audiência, o presidente Donald Trump desejou a Flynn “boa sorte” no tribunal.

“Vai ser interessante ver o que ele tem a dizer, apesar da imensa pressão colocada em cima dele, sobre a conspiração russa em nossa ótima e, obviamente, bem-sucedida campanha política”, escreveu o presidente em uma rede social. “Não houve conspiração!”

Flynn é um dos cinco assessores de Trump que se declarou culpado na investigação do procurador especial.

Em dezembro de 2017, ele admitiu culpa em uma acusação de prestar falso testemunho e de ter mentido ao FBI sobre conversas com o embaixador russo em Washington, Sergei Kislyak.

Ele conversou com o diplomata nas semanas que antecederam a posse de Trump sobre os esforços para conter decisões políticas da administração de Barack Obama, como as sanções contra a Rússia e uma resolução da ONU contra Israel.

O objetivo de Mueller é saber se Trump pediu a Flynn para entrar em contato com o embaixador russo para sinalizar que a nova Casa Branca seria mais flexível com o governo russo.

Flynn também confessou ter mentido sobre negócios com o governo turco.

Na segunda, procuradores de Virgínia acusaram dois sócios de Flynn de atuar como agentes de um governo estrangeiro e disseram que os três trabalharam durante a campanha de Trump para convencer os EUA a expulsar um rival do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

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