Guerrilha do ELN na Colômbia quer benefícios das Farc, mas ainda aposta na violência

Apontado como autor de explosão que matou 21 em Bogotá, grupo se nega a parar sequestros e ataques

Sylvia Colombo
Buenos Aires

O governo colombiano apontou, nesta sexta-feira (18), o Exército de Libertação Nacional (ELN) como responsável pelo ataque com um carro-bomba a uma escola militar localizada em Bogotá, com pelo menos 21 mortos e 70 feridos.

Embora a guerrilha ainda não tenha reivindicado a autoria do ataque até a publicação deste texto, as autoridades colombianas, em entrevista coletiva na manhã desta sexta-feira (18) com presença do ministro da Defesa, Guillermo Botero, e do produrador-geral, Nélson Humberto Martínez, mostraram evidências de que o autor do atentado, José Aldemar Rojas Rodríguez, pertencia ao ELN havia pelo menos 25 anos.

Foto de novembro de 2017 mostra guerrilheiros do ELN em um de seus acampamentos no departamento de Choco, na Colômbia
Foto de novembro de 2017 mostra guerrilheiros do ELN em um de seus acampamentos no departamento de Choco, na Colômbia - Luis Robayo-19.nov.17/AFP

Logo depois do anúncio, o responsável por assuntos relacionados à paz na gestão do presidente Iván Duque, Miguel Ceballos, disse que o governo manterá sua posição de não voltar a sentar-se para negociar com o ELN.

"O presidente deixou claro que nenhuma negociação de paz poderia ser negociada sem a entrega total dos sequestrados e sem o fim dos atentados e das atividades de extorsão", disse Ceballos.

Desde que o ex-presidente Juan Manuel Santos (2010-2018) começou, em fevereiro de 2017, a negociar com o ELN, a guerrilha cometeu mais de 400 atos de terrorismo e sequestrou outras nove pessoas, totalizando agora 17 em seu poder.

Enquanto representantes do governo e do ELN se reuniam em Quito, no Equador, sede dos diálogos, Santos afirmou diversas vezes que essas atividades criminosas deveriam parar. Caso contrário, seria impossível continuar.

Obteve algum sucesso com um longo cessar-fogo, de setembro daquele ano a janeiro de 2018, mas logo as atividades da guerrilha foram retomadas.

Segundo o ELN, o sequestro e a extorsão não podem ser abandonados enquanto não houver um acordo de paz porque, sem eles, não é possível financiar a existência da guerrilha.

Flores em frente à academia de polícia onde um atentado matou 21 pessoas em Bogotá
Flores em frente à academia de polícia onde um atentado matou 21 pessoas em Bogotá - Daniel Munoz/AFP

Nascido também nos anos 1960, como as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), o ELN tem hoje uma força bem menos volumosa que no passado —apenas 1.500 pessoas, enquanto as Farc tinham 7.000 no momento de sua desmobilização.

Porém, o ELN muitas vezes se mostrou mais letal que as Farc. Enquanto estas se voltaram mais para o narcotráfico e se desideologizaram muito nos últimos tempos, o ELN é mais convicto de suas reivindicações de origem —querem uma transformação geral do país a partir da tomada do poder, com uma ampla reforma agrária.

Além disso, seus ataques são muito letais, e além dos atentados a bomba contra civis, realizam muitos cujo objetivo é danificar a infraestrutura do país, destruindo oleodutos e estradas.

E, se as Farc reduziram os sequestros e atentados enquanto estavam negociando, o ELN ainda aposta muito nesta via mais violenta, como ocorreu na última quinta-feira (17), em Bogotá.

Nas conversas em Quito, os representantes do ELN disseram que queriam os mesmos benefícios entregues às ex-Farc, principalmente uma Justiça especial, que lhes daria penas alternativas e não a prisão.

O próprio Juan Manuel Santos, ao final de seu mandato, porém, estava muito decepcionado com a guerrilha, que seguia sequestrando como antes e, mal terminado o cessar-fogo, realizou novos atentados. Achou melhor suspender as conversas até encontrar uma nova saída.

Quando Iván Duque assumiu, disse que avaliaria o estado das negociações para decidir se continuariam ou não. Sua resposta foi negativa, e de forma contundente. As negociações não iam ser retomadas.

O que Duque não parece ter analisado, como os funcionários de Santos vinham fazendo, é que há rachas internos no ELN. Se uma ala quer continuar com os ataques, outra ainda quer negociar, e talvez pudesse ser buscada como porta de entrada para uma nova tentativa de acordo.

Os funcionários de Santos estavam tentando reestabelecer a mesa, agora não mais em Quito, e sim em Havana, onde os ex-líderes das Farc se sentiram mais à vontade para colaborar, enquanto elaboravam uma nova estratégia de diálogo.

Duque, porém, mostrando um gesto de mão-dura, mandou parar tudo. E pode ter começado a pagar o preço com o atentado desta semana.

Outro fator a que Duque talvez não tenha posto suficiente atenção é que o ELN hoje é mais forte do que quando as Farc estavam na ativa, pois conta com a adesão de alguns dos cerca de 500 a 700 ex-guerrilheiros das Farc que não quiseram entrar no acordo de paz.

Além disso, o ELN vem se instalado, com a anuência do ditador Nicolás Maduro, em território venezuelano. Afinal, ter a principal guerrilha colombiana acampada e instalada em seu território pode servir a Maduro como forte moeda de troca ou de pressão contra Duque, de quem hoje é inimigo.

Assim, o ELN, que parecia condenado a largar as armas ou a sumir por seu tamanho reduzido e com o acordo de paz com as Farc assinado, acabou ganhando nova força. Quem está pagando, como sempre, são vítimas inocentes de seus atentados.

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