Os sete milagres de um sobrevivente do Holocausto

O polonês Jorge Klainman, 91, conta os horrores dos cinco campos nazistas pelos quais passou dos 11 aos 17 anos

Kfar Saba (Israel)

Por mais de 50 anos, ele guardou para si os horrores que vivenciou na Segunda Guerra. Não contou nem à mulher. 

Mas hoje, o sobrevivente do Holocausto Jorge Israel Klainman, nascido em Kielze (Polônia) há 91 anos, acredita ser importante contar o que presenciou em cinco campos de concentração nazistas, para que as novas gerações saibam do que o ódio e o racismo são capazes.

Sobrevivente do Holocausto Jorge Klainman em 1947
Jorge Klainman em Milão, na Itália, em 1947, dois anos após o fim da Segunda Guerra - Arquivo pessoal

Em 1998, morando em Israel após 24 anos na Argentina (1947 a 1971), Jorge decidiu relatar tudo na autobiografia “O sétimo milagre” -- que deve, em breve, se tornar um filme de produção argentina.

Único sobrevivente de uma família judia de seis pessoas, Jorge tinha 11 anos quando a Alemanha nazista invadiu a Polônia. 

Era o filho mais novo do comerciante Meloch Klainman e sua mulher, Bela, e tinha três irmãos mais velhos: Debora, Ruth e Moyses (Moniek). 

A infância feliz se tornou m inferno assim que o Exército alemão entrou em Kielze. 

 

Quando os alemães bombardearam Kielze, nos refugiamos no porão do prédio em que vivíamos. Quando saímos, tudo estava devastado. Só um prédio ficou em pé: o nosso.

Pouco depois, veio uma ordem Berlim para que metade dos membros de todas as famílias judias fizesse trabalhos forçados. Eu e meu irmão fomos trabalhar na construção de uma linha de trem. Era um trabalho duro.

Uma tarde, fiquei por um minuto olhando os pássaros. Um guarda ucraniano me viu parado e atirou uma pá em mim com toda a força, cortando o músculo do pé e criando uma ferida como uma boca aberta. 

O sangue começou a jorrar. O médico olhou e disse que, se tivesse gangrena, teria de amputar. No dia seguinte, a perna melhorou drasticamente. O médico disse: “É um milagre”. Haveria outros.

Os alemães mandaram todos se reunirem na praça e começaram uma seleção. Os mais jovens, aptos para o trabalho, iam para a fila da direita. Mulheres, crianças até aos 18 anos, doentes e velhos, para a da esquerda. 

Sobrevivente do Holocausto Jorge Klainman
Jorge Klainman, 91, em sua casa em Kfar Saba (Israel) - Daniela Kresch/Folhapress

De repente, veio um judeu alto e forte carregando um bebê. O oficial nazista disse: “Jogue-o no chão”. Ele não respondeu. Então, o nazista atirou na cabeça do bebê. O pai jogou o bebê morto no chão e partiu para cima do oficial com um estilete. Foi perfurado a balas.

Na confusão, eu e meu irmão correremos para a fila dos mais fortes. Tudo foi tão rápido que não pude dizer adeus à minha mãe e à minha irmã.

Ao chegarmos aos vagões de trem, um soldado mandou o meu pai para a fila dos mais fracos. Eu e Moniek ficamos sozinhos.

Quando chegamos ao campo de concentração de Prokocim, tivemos de deixar tudo de valor em uma caixa na entrada. Se pegassem você com um relógio ou uma joia, te matavam. Me mandaram lustrar as botas de ucranianos cujo trabalho era fuzilar pessoas. Eu saía tão cedo que perdia o café da manhã – um chá ralo e uma fatia fina de pão.

No terceiro dia, senti que minhas mãos fraquejavam pela fome. Fui até o alojamento dos ucraniano tentar roubar um pouco de pão, mas um deles me pegou e começou a gritar em russo: “Ladrão judeu!”. 

Veio o comandante,  olhou para mim e sinalizou com a cabeça para eu fugir. Com medo de uma vingança, disse ao meu irmão que ia fugir do campo.

Me juntei aos 300 prisioneiros que iam todos os dias trabalhar no Gueto de Cracóvia. Mas a situação no gueto era precária. Dezessete mil judeus viviam em casas bombardeadas. Eles não recebiam comida nem remédios. As pessoas começaram a morrer como moscas.

No terceiro dia, senti que a alma estava saindo lentamente do meu corpo. Decidi pedir ajuda aos policiais judeus que colaboravam com os nazistas e tinham privilégios. A maioria me dava um pouco de sopa ou um pedaço de pão.

Consegui sobreviver e uma vez por semana levava pão para o meu irmão, no campo. Um dia, voltei ao campo mas ele não estava mais lá.

Moyses, irmão do sobrevivente Jorge Klainman
Moyses (Moniek), irmão do sobrevivente Jorge Klainman, na década de 1930 - Arquivo pessoal

Em meados de 1943, Berlim decidiu liquidar o gueto. Com megafones, conclamaram a população judia a se reunir na praça central em uma hora. Eu estava resignado. Mas decidi tentar fugir. 

Improvisei um crachá falso e entrei na fila dos trabalhadores que podiam sair. A fila começou a se mover, e eu não parava de tremer. 

Quando cheguei no portão, um oficial nazista me olhou. Pensei que ia me mandar para a morte. Mas, em vez disso, gritou: “Fora!”. Passaram-se quase 75 anos, e até hoje não entendo por que ele salvou a minha vida. 

Nos colocaram em vagões de carga, 120 pessoas por vagão, e nos mandaram para o campo de extermínio de Plaszóvia, o do filme “A Lista de Schindler”. 

O comandante era um sádico chamado Amon Göth. Todos os dias, ele colocava o uniforme de gala e ia até a praça central, onde os prisioneiros esperavam recontagem. Ia de fileira a fileira. Contava nove e, com um golpe de chicote, tirava o décimo da fila.

Quando reunia 200, enviava-os para um lugar fechado no meio do campo, sob estrita vigilância dos ucranianos. 

Um dia, fui escolhido com os outros 199. Nos mantiveram trancados por dez horas. Era um pandemônio. Pessoas choravam, gritavam, rezavam. Nos levaram até o pé de uma montanha. Nos despir e ficamos um ao lado do outro na borda de um buraco. Vi os ucranianos apontando as metralhadoras. 

Daí não me lembro de mais nada. Depois me contaram que eu perdi a consciência quando caí, e os outros cadáveres caíram em mim e me protegeram. Das balas que foram atiradas, só uma atingiu a minha perna, sem tocar no osso. Fui encontrado e tratado em segredo por um médico judeu na enfermaria.

Novamente, subimos em vagões de carga em direção ao infame campo de Mauthausen. Os 120 prisioneiros do meu vagão eram quase esqueletos. Viajamos três dias sem água ou comida. Só 40 chegaram vivos. 

Quando chegamos a Mauthausen, ainda tivemos de andar por 5 km. A SS atirava na cabeça de quem caía. 

Quando saímos de Plaszóvia, éramos 3.200 presos. Chegamos apenas 800. Me deram o número 85143. Mesmo que eu viva 500 anos, jamais me esquecerei desse número.

Na manhã seguinte, nos levaram para trabalhar na mina de mármore do campo. Tínhamos de carregar pedras de 40 kg. Eu pesava 26 kg. 

Sobrevivente do Holocausto Jorge Klainman em 1947
Jorge Klainman em Milão, na Itália, em 1947 - Arquivo pessoal

O médico que havia me tratado em Plaszóvia morreu com uma pedra no ombro. Fui salvo na última hora por um oficial nazista que havia conhecido em Prokocim.

Depois, nos mandaram para o campo de Ebensee, na fronteira com a Hungria. Lá, vi as piores imagens.

Fora dos barracões, mais de 10 mil cadáveres esqueléticos congelados, amarrados como se fossem troncos de árvores. 

Em 5 de maio de 1945, soldados americanos liberaram o campo. Tinham passado por anos de guerra, mas choravam como crianças ao verem os milhares de mortos congelados.

Me mandaram para um hospital militar em Salzburgo, onde me medicaram. Engordei 8 kg. Tinha esperança de encontrar alguém da minha família vivo.

Por dois anos, procurei por Moniek, que alguém tinha dito que sobrevivera. Infelizmente, cheguei atrasado, porque ele morreu de uma apendicite estúpida logo após o fim da guerra.

Atualmente, as coisas vão de mal a pior na Europa e novamente os judeus são perseguidos. A população europeia tem o mesmo antissemitismo, ou mais, do tempo de Hitler. Se aparecer um líder louco, podemos ter um Holocausto 2. 

Mas, desta vez eles não teriam tanta sorte. Antes, tínhamos apenas paus e facas. Agora, temos um Exército e podemos enfrentar qualquer país.

Depoimento a Daniela Kresch

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