Sexagenária, Revolução Cubana é ideal inconcluso

Legado é negativo do ponto de vista econômico, por tentar manter controle estatal, diz analista

Pôster de Fidel Castro em rua de Santiago de Cuba, na véspera do aniversário de 60 anos da Revolução Cubana
Pôster de Fidel Castro em rua de Santiago de Cuba, na véspera do aniversário de 60 anos da Revolução Cubana - Yamil Lage/AFP
Carolina Vila-Nova
São Paulo

​“Cuba ainda está vivendo uma revolução”, diz o jornal online Havana Times, e a afirmação engendra de fato as perguntas que todos fazem: o que restou do movimento que completa 60 anos neste 1º de janeiro, quão substanciais foram as mudanças socioeconômicas implementadas de lá para cá e para onde a ditadura da ilha se encaminha.

Depois que o grupo capitaneado por Fidel Castro, seu irmão Raúl, Che Guevara e Camilo Cienfuegos derrubou a ditadura de Fulgencio Batista após anos de guerrilha, só em 1961 a Cuba revolucionária se declarou comunista —até então a revolução era “tão cubana quanto nossas palmeiras”, segundo Fidel.

Foi uma manobra necessária diante do bloqueio imposto pelos EUA e do inevitável alinhamento, em plena Guerra Fria, à União Soviética. Em 2002, emenda constitucional declarou que o socialismo é irrevogável e que Cuba “jamais voltará ao capitalismo”.

Hoje a ilha é uma ditadura socialista unipartidária. Em 2018, a Assembleia Nacional elegeu Miguel Díaz-Canel presidente –o primeiro “não Castro” a liderar o país desde 1959.

Comparações estatísticas com o período pré-revolução são complicadas por disparidades metodológicas, como explica o economista cubano-americano Carmelo Mesa-Lago, professor da Universidade de Pittsburgh. Segundo ele, vários indicadores, como PIB e desemprego, não são calculados pela metodologia internacional tradicional. A pobreza não é computada.

Independente disso, o apelo quase romântico do ideário da revolução (ao qual, paradoxalmente, se soma o “vai pra Cuba” dos antiesquerdistas) permanece.

“Revoluções são fatos históricos, como a francesa e a russa. Cuba se orgulha de ter se livrado da ditadura de Batista e da humilhação de ser um bordel de turistas ianques”, afirma Frei Betto, frade dominicano e escritor que foi assessor especial do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Porém, o bloqueio imposto ao país pela Casa Branca afeta duramente o desenvolvimento cubano. E para aquele povo, resistir com dignidade é mais importante do que ceder aos ditames de Tio Sam.” 

“Este é um legado da revolução: comprovar que é possível uma nação pobre existir na América Latina fora da tutela dos EUA”, acrescenta.

Para o venezuelano Moisés Naím, ex-editor da revista Foreign Affairs e membro do Carnegie Endowment for International Peace, apenas o que chama de “necrofilia ideológica“ justifica a contínua atração à revolução.

“Necrofilia é uma perversão em que se tem paixão ou amor por cadáveres. Há uma versão política da necrofilia que é a paixão ou amor por ideias fracassadas. Ideias que foram testadas no mesmo país repetidamente, em países diferentes, em continentes diferentes, em momentos históricos diferentes, e sempre levaram ao mesmo resultado: pobreza, repressão e medo”, diz.

Naím reconhece as conquistas cubanas nos campos da saúde e da educação. “Mas por que para ter isso você tem de ser reprimido e viver numa ditadura?”, questiona.

Para Mesa-Lago, autor de “Voices of Change in Cuba” (Vozes de mudança em Cuba), o legado revolucionário é negativo do ponto de vista econômico, com mudanças que tentaram manter o planejamento vertical com controle estatal sobre o setor privado, em um cenário de incertezas e de falta de incentivos.

“É como se quisessem salvar o sistema e estivessem dispostos a fazer mudanças para isso, mas por outro lado impõem uma série de restrições. É a mão direita fazendo uma coisa, e a esquerda, outra.”

A nova lei de usufruto da terra, por exemplo, duplicou de 10 anos para 20 anos o período de usufruto para agricultores privados e a área recebida. Mas determinou que parte da produção seja vendida ao Estado por valores abaixo dos de mercado, fixados pelo governo.

“Em seu começo a Revolução Cubana foi uma inspiração tremenda para a América Latina e para os países em desenvolvimento do mundo inteiro. Mas a economia não funcionou, e a economia é fundamental para manter qualquer conquista social”, disse. 

A reforma da Constituição aprovada em dezembro pela Assembleia Nacional e que irá a referendo em 24 de fevereiro oferece, timidamente e no longo prazo, possibilidade de abertura econômica, política e social. 

A expectativa de exclusão de artigo que estipula que o país continuará “avançando rumo ao socialismo” não se concretizou, e manteve-se o modelo socialista centralizado de partido único.

Mas o texto reconhece pela primeira vez a propriedade privada, cria o papel de premiê e de governadores e abre caminho para um outro referendo, sobre o casamento gay, disse a mídia local (o texto não foi divulgado oficialmente). 

“Do ponto de vista econômico, a nova Constituição indica que vai haver não mudança, mas consolidação de tudo que se fez nos últimos dez anos”, diz Mesa-Lago. Ele se refere às reformas estruturais feitas por Raúl Castro entre 2007 e 2008 e em 2016, que considera as mais importantes.

“Essas mudanças foram ditadas pela biologia e não pela ideologia. Fidel Castro está morto, Raúl está muito velho, então precisam mudar. Mas em essência, Cuba continua sendo um negócio de família. E todas as mudanças são feitas para apoiar e sustentar a continuidade desse negócio familiar”, avalia Naím.

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