Massacre na Nova Zelândia foi planejado e seguido em tempo real em fóruns e redes sociais

Ataques a duas mesquitas deixaram 49 mortos; extremista de direita assumiu atentado

Armas exibidas em vídeo ao vivo no Facebook, pouco antes do ataque na Nova Zelândia - Reprodução/Facebook/AFP
São Paulo

Na quarta-feira (13), a conta do Twitter de Brenton Tarrant publicou imagens de armas que seriam usadas por ele no ataque a duas mesquitas em Christchurch, na Nova Zelândia, nesta sexta (15). 

O massacre deixou ao menos 49 mortos. Quatro pessoas foram presas, mas a polícia não revelou seus nomes. Tarrant transmitiu o ataque ao vivo pelo Facebook. 

As armas estavam cobertas de nomes de outros assassinos que realizaram massacres, além do número 14, que se refere a uma frase de 14 palavras criada pelo líder racista americano David Lane e que se tornou uma espécie de slogan do movimento supremacista branco na internet. 

Outros tuítes do mesmo usuário na quarta incluíram referências à queda nas taxas de fertilidade das mulheres, artigos sobre extremistas de direita em vários países e crimes cometidos por imigrantes ilegais.

O perfil de Tarrant no Twitter tinha 63 posts, 218 seguidores e havia sido criado no mês passado.

Uma pessoa envolvida com os ataques também costumava postar regularmente no fórum "Politicamente Incorreto", no 8chan, um site de conversas virtuais conhecido por permitir praticamente qualquer conteúdo, incluindo discurso de ódio.

Perto de 13h30 no horário local, o usuário anônimo publicou no grupo "Eu vou realizar um ataque contra os invasores, e vou transmitir pelo Facebook". O post teve respostas de aprovação, que incluíram memes e imagens nazistas.

O post também tinha um link para o manifesto de 74 páginas, no qual o autor se declara fascista e diz que pretende combater o "genocídio branco", termo usado por supremacistas para questionar a imigração e o crescimento da presença de estrangeiros.

O manifesto foi também incluído em uma publicação no Facebook, na mesma conta usada para fazer a transmissão ao vivo.

Quando o ataque de sexta começou, um usuário anônimo do 8chan disse: "Acontecendo agora. Delete esta sequência agora ou será o fim do 8pol", em referência a um dos espaços de debate extremista.

Alguns minutos depois, outro usuário escreveu "Bom tiro, Tex". Outro disse: "Isso parece divertido".

Os perfis de Brenton Tarrant, no Twitter e no Facebook, foram apagados logo após o ataque.

O Facebook disse nesta sexta-feira que removeu rapidamente o vídeo com a ação, e ofereceu condolências às vítimas.

"A polícia nos alertou sobre um vídeo no Facebook logo após o início da transmissão ao vivo e rapidamente eliminamos as contas do Facebook e do Instagram do atirador, bem como o vídeo", afirmou a empresa. "Também estamos eliminando qualquer elogio ou apoio a esse crime ou ao(s) atirador(es)".

No entanto, o Facebook foi criticado por demorar a retirar o material, por permitir que esse tipo de conteúdo fosse transmitido ao vivo e por não impedir que usuários sigam republicando o vídeo.

Outras redes sociais também são questionadas por não conseguirem conter rapidamente a disseminação desse tipo de conteúdo. Um porta-voz do Twitter disse que a empresa "tem rigorosos processos e um time dedicado para gerenciar situações de emergência como essa", disse, em nota. "Nós também cooperamos com as forças de segurança para facilitar as investigações."

O YouTube, de propriedade do Google, tuitou que "nossos corações estão quebrados pela terrível tragédia na Nova Zelândia".

​Nolween Bervas, analista de terrorismo da Risk Advisory Group, disse que há numerosos espaços na internet para pessoas como o atirador de Christchurch se reunirem.

"A quantidade de informação e de propaganda ligados à extrema-direita, à extrema esquerda ou o jihadismo é extensa e acessível", diz Bervas. 

"Um dos atiradores de Christchurch publicou seu manifesto online antes do ataque e escreveu que ele recebeu, pesquisou e desenvolveu suas crenças na internet, e disse que 'você não encontrará a verdade em nenhum outro lugar'. Ele citou pessoas como os assassinos em série Dylan Roof e Anders Breivik como inspirações, pessoas que também pesquisaram e desenvolveram suas crenças online", prosseguiu o analista.

"Mais do que qualquer outra coisa, as redes sociais fornecem uma plataforma para o compartilhamento de visões extremistas", diz Anwita Basu, analista da Economist Intelligence Unit.

Reuters
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