Moçambique multará comerciantes que superfaturam comida após tragédia

País enfrenta falta de alimentos e risco de doenças depois de passagem de ciclone

Pacientes aguardam atendimento em hospital que perdeu o telhado em Beira, Moçambique - Mike Hutchings/Reuters
Rafael Balago
São Paulo

​A cidade de Beira, em Moçambique, ficou isolada por vários dias, pois as tempestades ocorridas após o ciclone Idai destruíram a estrada de acesso ao local. Com isso, seus cerca de 500 mil habitantes ficaram sem receber comida e suprimentos.

A estrada foi reaberta, mas os moradores seguem com dificuldade para comprar comida. Com a escassez, comerciantes superfaturam os preços. Um frango, por exemplo, passou a ser vendido por até mil meticais (R$ 61), quatro vezes o preço normal, segundo o jornal O País. Há também caso de venda de produtos com validade vencida. 

O governo de Moçambique anunciou, na segunda-feira (25), o envio de uma equipe de fiscais para conferir se os mercados estão cobrando preços justos. “Vamos intensificar a fiscalização. Queremos que os comerciantes também sejam incluídos nesse movimento de solidariedade”, disse o primeiro-ministro, Carlos Agostinho do Rosário, à imprensa local.

A passagem de um ciclone, em 14 de março, seguida de fortes tempestades e inundações que duraram dias, deixou ao menos 686 mortos em Moçambique, Zimbábue e Maláui, três países do sudeste da África.

"A insegurança alimentar segue grande. Alguns estão em situação realmente crítica", disse à Folha Carlota Silva, vice-chefe da missão da entidade MSF (Médicos Sem Fronteiras) em Moçambique.

A área atingida por inundações no país soma cerca de 3.125 km², equivalente ao dobro do território da cidade de São Paulo, segundo a ONU. Helicópteros estão lançando alimentos como biscoitos energéticos para atender a comunidades isoladas. 

De acordo com a ONU, cerca de 1,85 milhão de pessoas foram afetadas nas últimas semanas. A força dos ventos e das inundações destruiu casas, plantações e estradas. Com isso, falta água potável, comida, remédios e abrigo. Muitas pessoas ficaram isoladas por dias sem ter o que comer nem onde se proteger das chuvas. Algumas regiões seguem inacessíveis. 

"Ao menos 1 milhão de crianças precisam de ajuda urgente, e o número pode crescer. Tememos que vilas inteiras possam ter sido destruídas em lugares que ainda não chegamos", disse o secretário-geral da ONU, António Guterres. Segundo ele, há relatos de que as perdas em infraestrutura podem superar US$ 1 bilhão.

O Fundo Monetário Internacional anunciou nesta terça-feira (26) que analisa liberar um empréstimo de emergência para ajudar Moçambique. 

O governo brasileiro doou 100 mil euros (cerca de R$ 436 mil) na sexta-feira (22) para ajudar o governo do país, por meio de um fundo que será criado pelos países da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa). 


COMO AJUDAR

A Central de Apoio, criada por entidades de Moçambique, aceita doações via transferência internacional e presencialmente, em alguns endereços do país, além de fornecer ajuda para encontrar pessoas desaparecidas na tragédia. Mais informações neste site

A Junta de Missões Mundiais, ligada à Convenção Batista Brasileira, que conta com uma equipe atuando na região, aceita doações em dinheiro, em reais, pelo seu site

O Unicef, agência da ONU para a infância, ajuda algumas das 600 mil crianças desabrigadas pela passagem do ciclone. Informações neste site.

A organização Médicos sem Fronteiras, que cuida da saúde da população em situações de crise humanitária, recebe doações para situações emergenciais como essa. Informações neste site.

A entidade internacional ActionAid leva suprimentos para os sobreviventes do desastre. Informações sobre como doar neste site.


Nesta terça (25), chegou a Beira um navio com 1.400 toneladas de mantimentos enviados de Maputo, por cidadãos de Moçambique e estrangeiros. 

O Programa de Alimentos da ONU classificou a situação em Moçambique com o nível de emergência três, similar ao de Síria e Iêmen, países que estão em guerra. A entidade diz que será necessário levar alimentos a 1,7 milhão de pessoas em Moçambique, 732 mil no Maláui e 270 mil no Zimbábue. 

O atendimento médico também enfrenta dificuldades. "A maioria das pessoas segue sem acesso a cuidados de saúde primários, como o acompanhamento de mulheres grávidas e o tratamento de diarreia", diz Carlota, da MSF.

Depois das enchentes, é grande o risco que surjam epidemias de doenças como cólera e malária. Embora ainda não tenham sido confirmados casos de cólera, trabalhadores de saúde registraram um aumento de casos de diarreia, um dos sintomas da doença.

A Médicos Sem Fronteiras realiza ações com os sobreviventes para ensiná-los a tratar a água antes de bebê-la. Uma das formas de transmissão do cólera é quando fezes contaminam a água que será bebida. Assim, é comum que epidemias ocorram em crises humanitárias, quando as condições sanitárias se tornam precárias.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) enviará 900 mil doses de vacina contra o cólera para a região, mas o carregamento só deve chegar em dez dias.

No Zimbábue, onde ao menos 179 pessoas morreram, moradores usam pás e enxadas para escavar e procurar vítimas em meio aos destroços 

Na vila de Chimanimani, uma família busca, há uma semana, os corpos de quatro parentes em meio aos destroços. "Vamos continuar a procurar até encontrar. Não vamos descansar", disse Sarah Sithole, 32, que perdeu um irmão, policial. 

Como as estradas da região foram afetadas, não há como levar escavadeiras até a área. 

No Maláui, em Nsanje, os acampamentos estão superlotados e falta comida e água, segundo a ActionAid, entidade que atua no local.

"Os rios transbordaram e muitas casas ficaram totalmente submersas, deixando mais de 11 mil famílias desabrigadas. As pessoas aqui perderam tudo. Mulheres e crianças estão dormindo no chão e não há saneamento", disse Chikondi Chabvuta, gestor local da ActionAid. 

Reuters
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