Sem Chapo, cartel de Sinaloa se torna ainda mais rico e difícil de rastrear

Narcotráfico mexicano se reestrutura para se adaptar a prisão de ex-chefe; número de mortes sobe

Sylvia Colombo
Buenos Aires

A condenação recente do narcotraficante mexicano conhecido como El Chapo Guzmán, nos Estados Unidos, mobilizou a atenção midiática e animou as autoridades norte-americanas.

Finalmente, o líder do principal cartel do México, o de Sinaloa, deverá passar o resto de sua vida na cadeia. No entanto, ao contrário dos que consideram essa notícia auspiciosa, a realidade mostra uma situação diferente.

A prisão do Chapo, nos dias de hoje, tem efeitos parecidos ao desmantelamento dos cartéis de Medellín e de Cali, na Colômbia, na década de 1990. O comércio ilegal de drogas continua, só que com reestruturação dos negócios e da hierarquia das organizações criminosas.

No caso da Colômbia, é certo que a morte de Pablo Escobar (Medellín) e a prisão dos irmãos Rodríguez Orejuela (Cali) fizeram com que o número de homicídios no país diminuísse, mas o tráfico continuou acontecendo por meio de um sistema fragmentado de cartéis. O país ainda é o principal provedor de cocaína aos EUA.

Já o cartel de Sinaloa, sem Chapo, vem se reinventando em termos de estrutura e de produto traficado. Agora, é liderado por Ismael Zambada, mas este já não concentra todo o poder em suas mãos.

O líder do cartel de Sinaloa, Joaquin El Chapo Guzman - Tomas Bravo / Reuters

Muito dos "serviços", que vão da produção à distribuição, foram entregues a cartéis ou grupos menores, numa espécie de terceirização em que boa parte do lucro, ao final, volta para o cartel principal. Assim, é muito mais difícil rastreá-lo, e se uma das organizações associadas cai, não compromete a cúpula nem o andamento dos negócios.

Segundo estudo recente do Mexican Institute, ligado ao Woodrow Wilson Center, em Washington, o cartel de Sinaloa é um dos principais responsáveis pela entrada em território americano do fentanyl, um opioide (remédio para a dor) perigoso e viciante.

Popularizado em 2013, o fentanyl, cuja venda é controlada nos EUA, matou 28 mil pessoas no país apenas em 2017. Fabricado em grande quantidade na China, passou nos últimos dois anos a entrar principalmente por meio do México.

A droga chega da Ásia a portos mexicanos controlados pelo cartel e segue até a fronteira por rotas antes percorridas apenas com carregamentos de maconha, cocaína e heroína. De acordo com o estudo, além de facilitar a entrada do fentanyl chinês, o cartel de Sinaloa também passou a fabricar a droga em território mexicano. Houve um incremento de 700% na quantidade da droga que atravessa a fronteira entre 2016 e 2017 segundo o US Customs and Border Protection. 

"A desaparição de um grande barão da droga, como o Chapo, não fez com que o cartel se desmantelasse", diz o jornalista José Reveles, que investiga o narcotráfico no México. "O grupo se preparou para essa mudança e continua sendo um dos principais cartéis do mundo."

Para outro estudioso do assunto, o também jornalista e escritor Ioan Grillo, os cartéis mexicanos "cada vez mais se adaptam a mudanças rápidas para continuar atuando, enquanto os serviços de inteligência não conseguem acompanhar na mesma velocidade".

A luta contra o narcotráfico no México se intensificou em 2006, no início da presidência do conservador Felipe Calderón (2006-2012), que decidiu enfrentar a questão com as Forças Armadas.

O resultado foi um banho de sangue, com cerca de 80 mil mortos, a criação de milícias civis no interior e a cooptação por suborno de vários oficiais pelos narcotraficantes.

Já seu sucessor, Enrique Peña Nieto (2012-2018), do tradicional PRI (Partido Revolucionário Institucional), apostou em uma política de captura dos barões da droga e na associação, nos estados, com algumas dessas milícias de cidadãos, as "autodefesas".

Se por um lado alguns chefões foram presos, como Chapo e líderes dos Zetas e dos Cavaleiros Templários, por outro Peña Nieto não soube lidar com a herança sangrenta de seu antecessor. O narcotráfico virou um dos principais financiadores de campanhas eleitorais no interior do país e com isso controla os governos regionais. 

A maior evidência dessa conexão foi o desaparecimento de 43 estudantes no estado de Guerrero, em 2014, em que autoridades locais, polícia e cartel atuaram de forma coordenada. Até hoje, o caso não foi esclarecido nem julgado.

Além disso, algumas das milícias civis que Peña Nieto armou e treinou se rebelaram contra o Exército e passaram a traficar —é o caso no estado de Michoacán.

O novo presidente, o esquerdista Andrés Manuel López Obrador, diz que sua abordagem será diferente. Planeja criar uma Guarda Nacional, o que contribuiria para acabar com a promiscuidade entre os governos locais e os cartéis. 

Ele defende que os esforços devem ser concentrados não em perseguir os cabeças do narcotráfico, mas em desvelar, por meio de inteligência, toda a estrutura dos cartéis, a localização de seus recursos financeiros e propriedades.

No entanto, desde que assumiu, em dezembro, AMLO, como é conhecido, não implementou essas reformas.

Enquanto isso, a cifra de homicídios relacionados ao narcotráfico cresce. Se em 2017 foi de quase 28 mil pessoas, em 2018 bateu o recorde desde que se iniciou a contagem, em 1997: 33.341 mortos.

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