Arquitetura de Notre-Dame reúne em um único símbolo todo o espírito da Idade Média

Edificação que une estilos românico e gótico abrigou velórios de políticos franceses e beatificação de Joana D'arc

Gabriela Longman
São Paulo

Monumento mais visitado da Europa, a igreja de Nossa Senhora, ou Notre-Dame, de Paris, levou quase dois séculos para ser erguida.

Esse arco temporal que se estende de 1163, data da primeira pedra, a meados do século 14, faz com que seu estilo não seja exatamente uniforme, mas misture elementos da arquitetura românica (plano cruciforme, nave elevada, transepto e torre) e do gótico primitivo  (arcos pontiagudos e abóbada de nervura).

Ao misturar os dois, é como se conseguisse unir num único símbolo todo o espírito da Idade Média europeia.

Estampada à exaustão em fotografias, cartões postais, chaveiros e camisetas, é mais conhecida por sua fachada ocidental: um conjunto simples e harmonioso cuja força e sobriedade derivam de um jogo de 
quatro contrafortes que sobem até o topo das torres e os elevam para o céu (em direção ao divino) e duas bandas horizontais bastante largas (em direção à terra / à dimensão humana).
 
Foi essa arquitetura ao mesmo tempo sóbria e sofisticada que fascinou historiadores da arte e arquitetos dos últimos nove séculos.

Mestre do modernismo, Le Corbusier (1887-1965), por exemplo, falava de uma pura criação do espírito, atentando para a estrutura geométrica regulada pelo quadrado e pelo círculo.

Outros preferiam atentar-se aos detalhes, como o Portal do Julgamento, representando o Juízo Final tal e qual descrito no Evangelho de São Mateus ou as gárgulas —esculturas de monstros e demônios dispostas na parte alta.

Espécie de "guardiões do templo", essas inquietantes figuras que ajudaram a dar o clima sombrio ao romance de Victor Hugo (“Notre-Dame de Paris”, 1831) serviam para lembrar aos fiéis de que nada poderia ameaçá-los lá dentro e que o Mal seria vigorosamente mantido fora.

Ao mesmo tempo, no entanto, tinham uma função técnica: captar a água da chuva e descartá-la a uma boa distância das paredes.

Símbolo religioso, mas também político, a igreja sediou a consagração de Napoleão, em 1804, e uma missa emblemática por ocasião da libertação de Paris da ocupação nazista em 26 de agosto de 1944.

Também foi onde aconteceram os ritos fúnebres dos presidentes Général de Gaulle (1970), Georges Pompidou (1974) e François Mitterand (1996), para citar alguns acontecimentos. 

Tão grande ou maior que a lista de acontecimentos ali vividos, é a lista de relíquias no interior da igreja —de túmulos a pinturas, de estatuária, como a famosa estátua de Joana D’Arc, beatificada em cerimônia na igreja em 1909, a seus vitrais em mosaico multicor.
 
Na geografia única de Paris, ela é um dos eixos de orientação.

Numa cidade formada majoritariamente por prédios baixos, suas torres servem de marco para localizar o rio Sena e a Île de la Cité, parte da cidade original romana onde está localizada.

É nessa pequena ilha, entre livreiros, sorveterias, pequenos restaurantes e lojas de souvenir que cerca de 30 mil visitantes iam diariamente visitá-la, acendendo velas, entendendo sua história, tirando fotos e tendo fé.​

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.