Pela 1ª vez, tradicional concurso de soletrar nos EUA premia 8 v-e-n-c-e-d-o-r-e-s

Seis dos ganhadores têm ascendência indiana, padrão que se repete com frequência desde 1999

Washington

"Isso é português?" 

Os olhos arregalados que acompanhavam a pergunta de Christopher Serrao quase enganaram a plateia. 

Já passava das 22h de quinta-feira (30), e ele estava cansado. Com pouca comida e quase nenhuma bebida —ir ao banheiro pode fazer com que os competidores percam a vez—, o garoto estava pouco seguro sobre a origem da 13ª palavra que soletraria diante dos jurados. 

"Imbirussú: do Tupi para o português" foi a resposta que ouviu antes de pronunciar cada letra do termo que remete à árvore típica da América Central.

Era o passe para uma vitória histórica. Aos 13 anos, Serrao se juntou a outros sete estudantes vencedores da edição deste ano do Scripps National Spelling Bee, concurso de soletrar que existe nos EUA desde 1925.

Após inéditas 20 rodadas que navegaram por palavras como bougainvillea e tetranychild —com espaço para brasilidades que foram de maxixe a vuvuzela—, os organizadores do evento perceberam que faltaria vocabulário suficientemente desafiador para os finalistas. 

Os campeões do concurso de soletrar celebram vitória no resort Gaylord National, em Maryland
Os campeões do concurso de soletrar celebram vitória no resort Gaylord National, em Maryland - Alex Wong/Getty Images/AFP

Decidiram então, pela primeira vez em 94 anos, conceder o prêmio a oito concorrentes. "Nós basicamente arremessamos o dicionário em vocês e, até agora, vocês estão mostrando a ele quem manda", disse Jacques Bailly, pronunciador oficial do concurso desde 2003 —e vencedor da edição de 1980.

Era a 17ª rodada, e Bailly já havia definido, repetido e fornecido a origem de milhares de palavras para um total de 565 participantes.

Cercados na vida diária por aplicativos que muitas vezes exigem abreviações e gírias para o fluxo mais rápido de mensagens, os competidores pareciam formar, dentro do Gaylord National Resort, em Maryland,  um oásis ortográfico .

Mas, para além da disciplina que envolve horas diárias de prática, os estudantes desenvolvem métodos para saber como soletrar palavras sem necessariamente conhecê-las ou saber como usá-las.

Até porque ninguém costuma conversar sobre uftaktigkeit ou omphalopsychite, por exemplo.

"Não conheço todas as palavras, mas sei soletrá-las devido à origem, por causa da definição", explica Paul Hamrick, 14, sétimo colocado na edição de 2018.

Neste ano, não participou da competição. Foi acompanhar o irmão mais novo, eliminado ainda nas primeiras fases.

Sentado de frente para o palco, Paul anotava absolutamente todas as palavras propostas para os competidores e conferia com a mãe se estavam corretas.

"Ele faz isso só por diversão", disse Jennifer Hamrick. Questionada se o treino ajuda na hora de falar e a escrever melhor, olha para o filho, ainda meio cética: "É, talvez".

Já Melodie Loya, que girava no palco e fazia coração com as mãos toda vez que acertava uma palavra, separa o concurso da vida real.

"Treino oito horas por dia, mas sou bem normal, então, quando estou no celular, uso abreviações e gírias, claro."

Depois de soletrar corretamente madrague e gnotobiotic, empacou em theileriasis. Chorou abraçada às amigas e ao iPhone.

Além de teorias e treinos, professores particulares são a chave do sucesso de muitos competidores. Pagar um tutor específico para soletrar é uma das vantagens para alunos em boa situação financeira, além do controverso programa criado no ano passado que permite ao estudante pular as fases regionais e ir direto para a nacional. 

Isso, claro, se a família topar uma taxa de US$ 1,5 mil (R$ 6 mil) mais seis dias de hospedagem no resort com diárias a US$ 300 (R$ 1,2 mil). Neste ano, dos 565 competidores, 292 estavam no palco sob essas condições.

O concurso nacional dura quase uma semana —entre preliminares e eliminatórias—, e a grande final é transmitida ao vivo pela ESPN, canal a cabo da TV americana.

Cada estudante tem até dois minutos para pedir todas as informações sobre uma palavra e pronunciá-la corretamente. Um único erro o elimina da competição.


Glossário

auftaktigkeit (palavra de origem alemã): um princípio na música

omphalopsychite: aquele que olha fixamente para o seu umbigo para induzir um transe místico

madrague (palavra de origem francesa): um grande lago de peixes ou um cerco para capturar atum no Mediterrâneo

gnotobiotic (palavra de origem grega): de, relativo a, vivendo em, ou sendo um ambiente controlado contendo um ou alguns tipos de organismo

theileriasis: infecção ou doença causada por um protozoário do gênero Theileria

Fonte: Merriam-Webster


Do total de participantes que iniciaram as provas na segunda, sobraram 50 na manhã de quinta-feira. Por volta das 14h, já eram 25 e, no meio da tarde, estavam classificados os 16 que foram para o horário nobre na TV.

Desde 1999, 19 dos 23 ganhadores do Spelling Bee tinham ascendência indiana, incluindo o mais novo da história, que ganhou aos seis anos em 2016. A primeira delas, Nupur Lala, é retratada no documentário "Spellbound", de 2002.

Na edição histórica de 2019, seis dos oito vencedores —que ganharam US$ 50 mil (R$ 200 mil) cada um— mantiveram a tradição: Rishik Gandhasri, Saketh Sundar, Shruthika Padhy, Sohum Sukhatankar, Abhijay Kodali e Rohan Raja.

A eles, somam-se Erin Howard e Christopher Serrao, aquele do imbirussú.

Melodie Loya, a garota do iPhone, estava em sua terceira participação no concurso, mas não conseguiu ficar entre os ganhadores. Era uma das 30 melhores.

"Se você tivesse se preparado oito horas por dia para uma coisa e não conseguisse, você também estaria muito triste, né?", perguntou para esta repórter.

D-e-f-i-n-i-t-i-v-a-m-e-n-t-e.

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