Descrição de chapéu Brexit

Com mais um premiê, Oxford domina vida política britânica

Hegemonia da universidade se manterá com Johnson ou Hunt, ambos ex-alunos

Lucas Neves
Paris

​Não há melhor passaporte para Downing Street, a sede do governo britânico. Um diploma da Universidade de Oxford, a segunda mais antiga e uma das melhores do mundo, abre muitas portas nos altos escalões da política do Reino Unido.

Sete dos últimos dez primeiros-ministros do país têm na instituição do centro-sul inglês sua alma mater.

Na história, até hoje, 27 figuras que chegaram à chefia de governo haviam passado pela escola criada no fim do século 11.

A atual primeira-ministra britânica, Theresa May, teve aulas no St. Hugh’s, um dos 38 colleges (faculdades multidisciplinares) da universidade. Seu antecessor, David Cameron, no Brasenose.

sua sucessão será disputada, na segunda quinzena de julho, por dois outros ex-alunos de Oxford: Boris Johnson e Jeremy Hunt.

Boris Johnson (esq.) e Jeremy Hunt participam de debate dos candidatos conservadores a premiê - Jeff Overs/BBC/AFP

O aspecto “fratricida” do duelo pela liderança do Partido Conservador (que, neste caso, equivale ao comando do país) não é mera coincidência: seis dos sete candidatos mais bem votados na fase inicial da eleição interna se formaram na arquirrival da Universidade de Cambridge.

O “patinho feio” da disputa, Sajid Javid, atual secretário (ministro) do Interior, até tentou capitalizar em cima da padronização dos adversários.

“Precisamos de mudança. As pessoas não querem uma final que se pareça com um debate da União de Oxford [organização estudantil da universidade]”, disse em meados de junho o então candidato, filho de um motorista de ônibus paquistanês. 

Segundo ele, “o que as pessoas querem é alguém autêntico, honesto, que tenha respostas e experiência de vida, vida real”. Se é verdade, não será desta vez que saberemos: Javid foi o quarto colocado na etapa em que só votaram os deputados conservadores e não avançou para o escrutínio no qual todos os filiados à maior legenda britânica de direita escolherão seu novo líder.

Uma comparação com outros países em que existem “linhas de montagem” universitárias de chefes de Estado e/ou governo reforça o caráter excepcional da conexão entre Oxford e Downing Street.

Na França, quatro dos últimos dez presidentes se formaram na Escola Nacional de Administração (ENA). Nos EUA, entre os dez últimos chefes de Estado, há quatro com graduação ou pós em Yale e 2 com diplomas de Harvard.

O diâmetro da bolha elitista no Reino Unido ultrapassa os limites do campus de Oxford, diz Luke Heselwood, pesquisador-sênior do centro de estudos Reform, que visa a repensar o serviço público no país. Há que estender a vista até os ensinos fundamental e médio.

Ele aponta para um levantamento recente segundo o qual, em média, 39% das pessoas em postos de comando no governo, na Justiça, na diplomacia, na mídia, na indústria, nas empresas de tecnologia ou​ no Legislativo britânicos passaram por instituições privadas, portanto, pagas.

A base da pesquisa é de 5.000 entrevistados. Considerada toda a população do Reino Unido (cerca de 66 milhões), essa fatia é de apenas 7%. Segundo a sondagem, 17% desse topo da pirâmide possuem formação em Oxbridge, corruptela que funde os nomes das duas principais universidades do país.

Fora a bolha, apenas 1% possui diploma de uma dessas instituições. “Há uma cadeia de privilégio anterior à universidade que é difícil quebrar”, afirma Heselwood. “Isso envolve a escola em que você começou seus estudos e o quão fácil, por causa dela, foi ingressar em Oxford.”

Para ele, “o problema não é que as duas principais universidades sejam avenidas para o poder, porque seu nível de exigência é mesmo alto, e seus alunos, brilhantes”.

A questão é ampliar o acesso a essas plataformas de lançamento para cargos decisórios a estudantes vindos de meios desfavorecidos, tornando o corpo discente mais representativo da população.

Segundo o pesquisador, o fato de os alunos dessas universidades exibirem perfil muito homogêneo tem também raízes culturais.

“Há uma barreira de autoconfiança: quem atinge as notas fixadas para entrar lá, se vem de um meio mais pobre, nem sequer se candidata.”

Para mudar esse quadro, prossegue Heselwood, seria preciso instituir um sistema de admissão mais subjetivo, que levasse em conta, entre outros fatores, as circunstâncias de criação dos candidatos —em lares mono ou biparentais (ou orfanatos), com mais ou menos irmãos, com que renda familiar etc.

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