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China defende direito de expressão após Twitter e Facebook culparem país por desinformação

Redes sociais removeram contas 'manipuladoras' ligadas ao governo chinês para influenciar debate sobre Hong Kong

The Washington Post

O confronto entre Twitter, Facebook e o governo chinês alcançou um novo patamar nesta terça-feira (20), quando Pequim defendeu seu direito de divulgar suas opiniões online —mesmo que as táticas violem as diretrizes das empresas para conter a disseminação de informação enganosa.

A resistência da China, manifestada pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Geng Shuang, foi divulgada um dia depois de Twitter e Facebook considerarem o governo chinês responsável pelo que chamaram de "comportamento coordenado e não autêntico" ao moldar a representação online dos protestos políticos que agitam Hong Kong. 

Foi a primeira vez que grandes empresas americanas citaram a China como responsável por uma campanha de desinformação, embora pesquisadores afirmem há anos que o governo do país asiático tem operações sofisticadas nas redes sociais destinadas a influenciar o debate público.

Manifestante segura celular com imagem em referência a garota que sofreu agressão no olho durante protesto em Hong Kong
Manifestante segura celular com imagem em referência a garota que sofreu agressão no olho durante protesto em Hong Kong - Philip Fong - 13.ago.19/AFP

Algumas das milhares de contas fechadas pelas empresas tinham perfis que afirmavam ser de outros países, inclusive de diversas cidades dos Estados Unidos, e o Twitter afirmou que ferramentas tecnológicas chamadas VPNs eram usadas para falsificar a localização dos usuários. 

Geng explicou que as contas não são obra de equipes de desinformação do governo, mas sim de estudantes chineses e outros que vivem no exterior e que "obviamente têm o direito de expressar seu ponto de vista", segundo uma reportagem da agência de notícias Reuters.

"Sobre o que está acontecendo em Hong Kong, e qual é a verdade, as pessoas naturalmente terão seu próprio julgamento", disse o porta-voz. E acrescentou: "Por que a apresentação da mídia oficial da China é obviamente negativa ou errada?".

Nenhuma das empresas respondeu imediatamente aos pedidos de comentários sobre as declarações de Geng.

Os comentários do funcionário do ministério das Relações Exteriores da China ressaltaram o desafio que as empresas de mídia social enfrentam na tentativa de combater as táticas de desinformação usadas pelos russos nas eleições presidenciais dos EUA em 2016 e que são cada vez mais populares em vários países. 

Enquanto as empresas sediadas nos EUA tentam policiar o discurso online globalmente, não há consenso internacional sobre o que se qualifica como discurso permissível —ou táticas permissíveis na divulgação desse discurso, seja por agentes do governo ou qualquer outra pessoa.

Esse debate global emergente repercute nos Estados Unidos enquanto o presidente Donald Trump e muitos conservadores criticam as empresas de redes sociais por serem muito agressivas ao bloquear contas que violariam suas regras de discurso autêntico, retratando tais esforços como censura ao discurso político. 

Trump fez uma cúpula na Casa Branca no mês passado, destacando essas reclamações.

Pesquisadores de desinformação elogiaram Twitter e Facebook na segunda-feira (19) por citarem o governo chinês como responsável por campanhas online que retrataram os protestos de Hong Kong como obra de baderneiros violentos, provocados por forças ocidentais como a CIA. 

O Twitter fechou quase mil contas que, segundo a empresa, faziam parte da operação, e cerca de 200 mil foram criadas para ajudar no esforço. O Facebook fechou cinco contas, sete páginas e três grupos em sua plataforma, descritos como falsos.

Graham Brookie, diretor do Laboratório Digital de Pesquisa Forense do Conselho Atlântico, disse: "A China realizou operações de informação que, assim como sua política externa, foram muito mais sutis e discretas... E isto não é nem sutil nem discreto".

A escala e a sofisticação do esforço não foram particularmente notáveis, mas a decisão das empresas de apontar um governo poderoso como responsável —algo que elas evitavam antes— foi vista como um indicador da crescente assertividade do Vale do Silício. 

As empresas têm enfrentado pressão política e pública nos últimos anos para combater os relatos falsos e enganosos que inundaram suas plataformas e distorceram o debate online em todo o mundo.

"Seria uma tarefa difícil alguém denunciar a China em uma operação de influência", disse Ben Nimmo, chefe de investigações da Graphika, empresa de análise de redes sediada em Nova York que estuda a desinformação online.

Os movimentos do Facebook e do Twitter podem criar um grande confronto geopolítico sobre a possível influência dos países nas formas como a informação se espalha pela web.

A China tem desfrutado de um controle praticamente inatacável nas redes sociais dentro de suas fronteiras, empregando sistemas de censura estrita e vigilância contra assuntos que conflitam com as ambições, a imagem e o poder autodeclarados do governo.

Mas a reação das gigantes das redes sociais sugere que o país tentou táticas semelhantes de manipulação de informações em todo o mundo, provavelmente para reforçar seu apoio internacional e minar os protestos em Hong Kong.

Daniel Sinclair, pesquisador independente de redes sociais em Nova York que acompanha a influência chinesa, diz que as tentativas do país de orientar o debate online no Ocidente parecem ter crescido recentemente, talvez por preocupações sobre como ele está sendo percebido em meio à guerra comercial com os Estados Unidos e a agitação em Hong Kong.

"Esse nacionalismo chinês que está se espalhando pelas redes sociais americanas e ocidentais, em grande parte, não é verdadeira desinformação como a entendemos, mas muito é apoiado por propaganda estatal e notícias falsas", disse Sinclair. 

"Acho que nunca vimos a máquina de mídia deles funcionando nessa escala (...) Com as redes sociais, a China tem novos tipos de influência e novos dedos na mídia ocidental que não tinha antes."

O Twitter e o Facebook não estão amplamente disponíveis na China, mas sim em Hong Kong. O Vale do Silício há anos busca expandir sua presença limitada no país mais populoso do mundo, com sucesso variado, pois empresas chinesas se tornaram grandes atores nacionais e globais em redes sociais e outras áreas de tecnologia avançada.

Para alguns pesquisadores, os movimentos também chamaram a atenção para o gigante solitário das redes sociais que ainda não fez comentários: o Google, cujo YouTube também foi criticado por sua utilização para disseminar desinformação política.

"Duas das três empresas relevantes fizeram declarações públicas", disse Alex Stamos, ex-chefe de segurança do Facebook, que hoje trabalha como professor-adjunto na Universidade Stanford, em tuítes na segunda-feira.

Para as empresas de redes sociais acusarem governos por ataques, "é muito mais difícil quando o ator é financeiramente crítico", acrescentou ele. O Google não respondeu imediatamente a pedidos de comentários.

Craig Timberg, Drew Harwell e Tony Romm

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves  

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