Mensagens revelam que presidente do Paraguai sabia de termos prejudiciais de acordo de Itaipu

Conversas divulgadas pelo jornal ABC Color mostram que Abdo Benítez foi informado de prejuízo que tratado traria ao país

São Paulo

Uma troca de mensagens divulgada nesta terça-feira (6) pelo jornal ABC Color revela que o presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez, sabia dos termos do acordo energético de Itaipu assinado com o Brasil em 24 de maio.

O acordo, agora cancelado, elevaria os custos para a empresa estatal de eletricidade do Paraguai em mais de US$ 200 milhões, segundo legisladores e o ex-diretor da entidade. 

Em conversas entre fevereiro e junho com o então diretor da estatal energética paraguaia (Ande), Pedro Ferreira, o mandatário o pressiona a assinar o acordo, que, segundo Abdo Benítez, seria essencial para a economia paraguaia. O presidente também dá a entender que foi pressionado pelo governo brasileiro durante a negociação.

"PEDRO, apresse [a] solução [entre] ANDE [e] Eletrobras. Está tudo parado. Temos que mover a economia. Itaipu é uma ferramenta. Não se pode ganhar totalmente em uma negociação", escreveu, em mensagens de 5 de março.

O presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez, faz pronunciamento ao lado da mulher, Silvana Lopez Moreira, no Palácio de Los López, em Assunção
O presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez, faz pronunciamento ao lado da mulher, Silvana Lopez Moreira, no Palácio de Los López, em Assunção - Jorge Adorno - 1º.ago.19/Reuters

O diretor da Ande disse inicialmente que "faria o possível", mas posteriormente alertou o presidente que o contrato traria prejuízo estimado em US$ 341 milhões ao Paraguai, além de fazer com que os preços da energia para os paraguaios subissem.

No dia 12 de março, Abdo Benítez se encontrou com Jair Bolsonaro para discutir a revisão de cláusulas financeiras do tratado. Na época, o ministro da Fazenda do Paraguai, Benigno López, disse esperar que as conversas acerca da renegociação dessem origem a um acordo "justo e rápido".

Um mês mais tarde, o ABC Color publicou uma nota informando que o Brasil queria ignorar os benefícios concedidos aos paraguaios nas negociações. A reportagem não detalha quais benesses seriam perdidas.

O presidente se diz "preocupado" e dá a entender que as conversas haviam chegado a um ponto complicado, em que "a negociação está sob aparente pressão".

"Teremos que negociar. E, ao negociar, sacrificam-se posições e algumas vezes princípios, mas é a responsabilidade que temos hoje. Não creia que faço tudo o que quero. Todos os dias tenho que digerir bebidas amargas", escreveu Abdo Benítez para Ferreira.

Em 23 de maio, um dia antes da assinatura do acordo, Ferreira enviou a proposta da Ande para as tratativas finais ao diplomata paraguaio Hugo Saguier Caballero em Brasília. A ata foi firmada no dia seguinte, mas não foi divulgada publicamente.

Há uma lacuna nas mensagens entre 23 de maio e 8 de junho. O jornal afirma não saber se houve ou não conversas ou, em caso positivo, alega não ter tido acesso aos diálogos. 

Em 8 de junho, Ferreira avisa o presidente que estava muito preocupado com o que havia sido assinado no Brasil, e explica que o novo acordo traria um prejuízo de US$ 341 milhões. Abdo Benítez envia uma imagem da ata firmada em Brasília, e recomenda que é necessário "manter o silêncio e não polemizar". 

Ferreira mostra-se contrariado e dá a entender que foi pressionado a ficar em silêncio sobre a negociação: "A prova de que é claramente inconveniente o acordo é que querem que o mantenhamos em segredo. Por que aqueles que assinaram e viram a ata não o defendem publicamente?", disse. 

Ele temia que um escândalo estourasse. "Quando isso estourar para você, eu e o chanceler teremos que tirar a cara. Nada mais vai explicar." O chanceler, Luis Castiglioni, e outros três altos funcionários do governo renunciaram no final de julho após o Executivo paraguaio pedir a anulação de ata.

Antes, em 5 de julho, o presidente da Ande colocou o cargo à disposição. "Presidente, se serve de algo, negocie a minha cabeça, não a Ande. Eu não posso assinar algo contrário ao meu país, não conscientemente, e sobretudo algo que creio que vá lhe prejudicar muitíssimo", escreveu.

Ele renunciaria em 24 de julho, após discordar dos termos e se recusar a assinar o acordo, que finalmente veio a público.

As mensagens também mostram que o presidente estava ciente da negociação com a empresa brasileira Leros. As conversas eram tocadas por José Rodríguez, advogado que, em outras mensagens reveladas pela TV paraguaia, afirma representar o vice-presidente Hugo Velázquez. 

Após a renúncia de Ferreira, partidos de oposição anunciaram a intenção de pedir a abertura do processo de impeachment contra o presidente e o vice por "traição à pátria".

Com o cancelamento do pacto assinado em 24 de maio, a formalização do pedido de afastamento arrefeceu, mas a intenção de julgar o presidente politicamente pode voltar a ganhar força.

Agora, os dois países terão se sentar novamente à mesa para voltar a negociar a potência de energia que o Paraguai deverá comprar até 2022.

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