Após ataque de Bolsonaro a Bachelet, chanceler chileno defende parceria entre países

Em visita ao Brasil, Teodoro Ribera cita investimentos e diz que relações devem transcender governos

Daniel Carvalho
Brasília

Um dia após o presidente Jair Bolsonaro (PSL) atacar o pai da ex-presidente chilena Michelle Bachelet, o ministro das Relações Exteriores do Chile, Teodoro Ribera, lembrou o volume de recursos de seu país investido no Brasil e disse que as relações precisam transcender pessoas, governos e épocas.

Ribera está no Brasil e fez uma visita na manhã desta quinta-feira (5) ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), antes de uma reunião com o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo.

Michelle Bachelet em Genebra na quarta-feira (4)
Michelle Bachelet em Genebra na quarta-feira (4) - Fabrice Coffrini/AFP

A passagem do ministro chileno por Brasília se dá em meio ao constrangimento provocado por manifestações de Bolsonaro sobre o pai de Michelle Bachelet, torturado e morto pela ditadura militar de Augusto Pinochet.

"Entre Chile e Brasil há relações econômicas interessantes. Somos o segundo parceiro regional em matéria de comércio de Brasil. Vocês são o nosso primeiro parceiro. Existem mais de US$ 30 bilhões chilenos investidos no Brasil", disse Ribera.

Segundo o Itamaraty, o Brasil concentra o maior estoque de investimentos externos chilenos no mundo, ultrapassando a marca dos US$ 35 bilhões em áreas como papel e celulose, varejo e energia.

O Brasil tem investimentos na economia do Chile de mais de US$ 4,5 bilhões nas áreas de energia, serviços financeiros, alimentos, mineração, siderurgia, construção e fármacos. 

O ministro chileno lembrou ainda do acordo de livre comércio entre os dois países assinado em novembro do ano passado, no fim do governo Michel Temer. Ribera disse que o assunto ainda não começou a tramitar no Chile, mas que a seu governo interessa aprovar o pacto.

"Temos que garantir que as relações diplomáticas entre países transcendam pessoas, governos e épocas", disse o chanceler chileno ao deixar o Senado.

Num tom mais diplomático, Ribera afirmou que o governo chileno já se manifestou sobre as declarações de Bolsonaro e que "este é um tema próprio do Brasil com ela [Bachelet]".

As falas de Bolsonaro —que acusou Bachelet de defender "direitos humanos de vagabundos"— geraram forte repercussão negativa no meio político e na imprensa do Chile. 

O presidente do Senado chileno, Jaime Quintana, exigiu publicamente uma "resposta contundente" do presidente Sebastián Piñera e da sua chancelaria.

Diante das cobranças, o presidente chileno declarou em um pronunciamento que não compactua com as falas de Bolsonaro. 

"Não compartilho em absoluto com a menção de Bolsonaro em respeito à ex-presidente do Chile, e especialmente em um tema tão doloroso como a morte de seu pai", afirmou.

O presidente chileno também disse que o seu compromisso sempre foi com a democracia, a liberdade e os direitos humanos.​

Interlocutores que acompanham o tema afirmaram que Ribera estava em voo com destino ao Brasil enquanto ocorriam as manifestações de repúdio, no Chile, às declarações de Bolsonaro. 

O desconforto gerado foi tamanho que, ao chegar ao Brasil, ele divulgou um vídeo com desagravo a Bachelet.

A crítica de Bolsonaro ao pai da ex-presidente veio após Bachelet, alta comissária da ONU para direitos humanos, dizer em uma entrevista coletiva que o Brasil sofre uma "redução do espaço democrático", especialmente com ataques contra defensores da natureza e dos direitos humanos.

"Michelle Bachelet, seguindo a linha do [presidente francês Emmanuel] Macron em se intrometer nos assuntos internos e na soberania brasileira, investe contra o Brasil na agenda de direitos humanos (de bandidos), atacando nossos valorosos policiais civis e militares", escreveu o presidente em uma rede social.

"Diz ainda que o Brasil perde espaço democrático, mas se esquece de que seu país só não é uma Cuba graças aos que tiveram a coragem de dar um basta à esquerda em 1973, entre esses comunistas o seu pai brigadeiro à época", prosseguiu Bolsonaro, que publicou também uma foto de Bachelet, quando presidente, ao lado das ex-mandatárias Dilma Rousseff (Brasil) e Cristina Kirchner (Argentina).

Alberto Bachelet, pai de Michelle, era general de brigada da Força Aérea e se opôs ao golpe militar dado por Augusto Pinochet em setembro de 1973. Ele foi preso e torturado pelo regime e morreu sob custódia, em fevereiro de 1974. 

A ex-presidente chilena também foi presa e torturada por agentes de Pinochet em 1975. A estimativa da Justiça do país é que cerca de 3.000 pessoas tenham desaparecido durante a ditadura e que mais de 30 mil tenham sido torturadas.

Ao deixar o Palácio da Alvorada na quarta-feira (4), o presidente disse que a alta comissária da ONU "está acusando que eu não estou punindo policiais, que estão matando muita gente no Brasil".

"Essa é acusação dela. Ela está defendendo direitos humanos de vagabundos (...) Senhora Michelle Bachelet, se não fosse o pessoal do Pinochet derrotar a esquerda em 1973, entre eles o teu pai, hoje o Chile seria uma Cuba", afirmou.

"Eu acho que não preciso falar mais nada para ela. Quando tem gente que não tem o que fazer, vai lá para a cadeira de direitos humanos da ONU", acrescentou o presidente.

Na fala que gerou a reação de Bolsonaro, Bachelet também apontou um aumento do número de pessoas mortas por policiais no Brasil, que afeta mais a negros e a moradores de favelas.

A ex-presidente chilena ainda lamentou o "discurso público que legitima as execuções sumárias" e a persistência da impunidade, além de questionar a política do governo de facilitar o acesso a armas. 

A comissária recordou que ao menos oito defensores dos direitos humanos foram mortos no Brasil entre janeiro e junho, e que a maioria dessas mortes teve relação com disputas de propriedade, relacionada à "exploração ilegal de recursos naturais, principalmente agrícolas, florestais e minerais".

Para ela, essa violência ocorre em todo o país e afeta especialmente as comunidades indígenas. "Um terço dos incêndios florestais ocorrem em áreas indígenas ou de proteção", apontou, ao ser questionada sobre a Amazônia.

"Dissemos ao governo que ele deve proteger os defensores dos direitos humanos e do meio ambiente, mas também examinar as medidas que podem desencadear violências contra esses defensores", afirmou Bachelet.

A Alta Comissária destacou que não estava sugerindo que os incêndios são intencionais, mas que ocorrem em áreas indígenas preservadas ou em áreas de conservação.

​Bachelet, então, solicitou às autoridades brasileiras que implementem as recomendações de seu escritório para a proteção de minorias.

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