Descrição de chapéu Diplomacia Brasileira

Reações ao discurso de Bolsonaro na ONU vão de 'extraordinário' a 'inadequado'

ONGs de defesa do meio ambiente criticaram pronunciamento do presidente

Igor Gielow Italo Nogueira
São Paulo e Rio de Janeiro

Num Brasil polarizado, as reações ao discurso de Jair Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) nesta terça (24) só poderiam variar de elogios derramados a críticas ferrenhas.

Os adjetivos para classificar o pronunciamento em Nova York foram de “extraordinário” a “inadequado”, esse último usado pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB).

Para o tucano, a fala foi “inoportuna”, tendo faltado “bom senso”.

“[O discurso] não teve referências que pudessem trazer respeitabilidade e confiança no Brasil no plano ambiental, econômico ou político”, afirmou após evento em São Paulo. Disse ainda que já havia notado a “péssima repercussão” mundial da fala.

O governador paulista, João Doria, que tem o nome especulado com presidenciável para 2022
O governador paulista, João Doria, que tem o nome especulado com presidenciável para 2022 - Pedro Ladeira - 20.ago.2019/Folhapress

Para ele, faltaram "bom senso e humildade" a Bolsonaro, que criticou duramente os países que questionaram sua gestão da crise dos incêndios na região amazônica.

Sem nomeá-lo, o presidente repreendeu seu contraparte francês, Emmanuel Macron, com quem teve divergências que desaguaram até em uma ofensa pessoal à primeira-dama da França.

A farpa de Doria faz parte de uma política estabelecida pelo governador para afastar-se de Bolsonaro.

Ambos são presidenciáveis para a disputa de 2022, mas o tucano aproveitou-se da promoção do chamado voto BolsoDoria no segundo turno de 2018 para se eleger, por transitar em faixa semelhante do eleitorado de centro-direita.

Neste ano, contudo, ambos têm colecionado desavenças públicas, não perdendo oportunidade de atacar um ao outro. Usualmente, Doria se aproveita da incontinência verbal de Bolsonaro.

Diversas ONGs que lutam pela defesa do ambiente também criticaram o discurso.

“A fala do presidente sobre meio ambiente foi uma farsa. Tentou convencer o mundo que protege a Amazônia, quando, na verdade, promove o desmonte da área socioambiental e negocia terras indígenas com mineradoras estrangeiras”, disse Marcio Astrini, coordenador de políticas públicas do Greenpeace.

O Observatório do Clima chamou o pronunciamento de “ecocídio”, afirmando que o presidente “envergonhou o Brasil no exterior ao abdicar da tradicional liderança do país na área ambiental em nome de sua ideologia”.

Para a ONG, Bolsonaro também não teria tomado atitudes para tranquilizar investidores, “nem para aplacar o clamor crescente por boicote a produtos brasileiros”, o que colocaria em risco o agronegócio que diz defender.

O vice-presidente Hamilton Mourão, por sua vez, endossou o discurso de Bolsonaro. No exercício da Presidência durante a viagem do mandatário, Mourão disse que ele foi “incisivo, explícito e soberano”.

“Foi um discurso extraordinário. Porque ele bateu em soberania, bateu na questão indígena, colocou a questão do meio ambiente, colocou o posicionamento do Brasil perante ditaduras que ocorrem no mundo inteiro. Falou que o Brasil está aberto a se relacionar com países de todo o mundo. Foi um discurso patriótico e altivo. Isso tem que ser capitalizado”, afirmou.​

Ele disse que a única contribuição que deu ao discurso foi, junto com o ministro Augusto Heleno, do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), sugerir que escrevesse e falasse "de coração".

General reformado, Mourão proferiu palestra na sede do Clube Militar, no centro do Rio de Janeiro, entidade que presidiu até o ano passado.

A presidente do PT, Gleisi Hoffman, se manifestou nas redes sociais. Ela afirmou que Bolsonaro “mentiu sobre proteção do meio ambiente, destilou xenofobia, ofendeu indígenas, atacou imprensa, médicos cubanos e ONU, demonstrou fanatismo ideológico, defendeu a ditadura militar”. 

"Falta de dignidade e preparo assustam o mundo e envergonham o Brasil", completou.

Já a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL) postou um vídeo em que diz ter os "melhores momentos da fala do presidente brasileiro na Assembleia Geral da ONU". Nas imagens, Bolsonaro diz "senhoras e senhoras", bebe um gole de água e diz "meu muito obrigado".

"Bolsonaro na ONU ataca o mundo todo e só elogia Trump. O que a população brasileira ganha com isto?", postou no Twitter o deputado federal Zeca Dirceu (PT). "Vivemos hoje o maior vexame diplomático da nossa história."

Para Fernando Haddad, "Bolsonaro, como sempre, aproveitou a oportunidade para mostrar o que ele é", disse o ex-prefeito no Twitter.

A deputada federal Carla Zambelli (PSL) destacou o trecho em que o presidente cita o ministro Sergio Moro. "Linda homenagem."

 
 
 
 
 
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