Zona de segurança levará a retorno em massa de refugiados sírios, diz chanceler turco

Operação contra curdos visa enviar 2 milhões de pessoas de volta à Síria

Patrícia Campos Mello
São Paulo

A Turquia espera que o estabelecimento da zona de segurança ao longo de sua fronteira com a Síria leve a um “retorno em massa” de refugiados sírios que estão atualmente em território turco, diz o ministro das relações exteriores da Turquia, Mevlut Cavusoglu.

“Queremos estabelecer um corredor de paz ao longo da fronteira da Síria [com a Turquia] onde os verdadeiros donos da Síria irão morar em paz, segurança e harmonia”, disse Cavusoglu, em entrevista por email à Folha.

Mevlut Cavusoglu
Mevlut Cavusoglu, 51, é ministro das Relações Exteriores da Turquia e um dos fundadores do Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP, na sigla em turco) - Turkish Foreign Ministry/Fatih Aktas/AFP

A Turquia abriga mais de 3,5 milhões de refugiados sírios e pretende, após a operação contra os curdos no norte do país, enviar até 2 milhões de volta para a Síria. No entanto, a maior parte dos refugiados é árabe, e o território para onde serão mandados é de maioria curda.

Mesmo assim, Cavusoglu nega que a Turquia planeje uma “arabização” na região curda. Isso já foi feito antes, pelo regime sírio —nos anos 1970, o governo de Hafez al Assad confiscou terras dos curdos e reassentou famílias árabes no nordeste da Síria, diluindo a maioria curda e enfraquecendo-a politicamente.

Cavusoglu diz que as duas operações que a Turquia já conduziu na região –Escudo do Eufrates em 2016 e 2017, e Ramo de Oliveira, em 2018, mostram como as forças turcas conseguem atingir apenas os terroristas, e evitam mortes ou êxodo de civis.

"Até agora, mais de 365 mil sírios voltaram de forma voluntária e segura para as áreas que nós livramos de terroristas nas operações Ramo de Oliveira e Escudo do Eufrates”, diz.

As duas operações foram realizadas na região curda de Afrin, e causaram êxodo de 167 mil pessoas, a maioria curdos que moravam na região há décadas.

A Turquia mandou para a área refugiados sírios árabes que eram originalmente do sul da Síria, e eles ocuparam as casas vazias dos curdos, que foram impedidos de voltar.

Comentários da reportagem sobre o contexto da região estão em itálico. 


Quem é quem no conflito

PYD (Partido da União Democrática) 
Partido curdo que controla o nordeste da Síria

YPG (Unidades de Defesa Popular) 
Principal milícia curda

SDF (Forças Democráticas da Síria) 
Forças lideradas pelos curdos, mas que têm militares árabes, turcomenos e cristãos, e eram apoiados pelos EUA; foram essenciais para derrotar o Estado Islâmico


Por que é necessário estabelecer uma zona de segurança ao longo da fronteira da Turquia com a Síria? Qual será a extensão e a profundidade dessa zona?

A Turquia está lutando contra uma série de organizações terroristas que representam uma ameaça à nossa segurança nacional.

Infelizmente, algumas dessas organizações terroristas encontraram um abrigo seguro na Síria, por causa do conflito que se instalou no país. A ameaça terrorista que se origina na Síria e tem como alvo a nossa fronteira continua.

Através de túneis cavados pela PYD/YPG ao longo das áreas fronteiriças, explosivos e munição têm sido contrabandeados para a Turquia para serem repassados ao PKK, uma organização terrorista. A PYD/YPG também cometeu ataques terroristas dentro da Síria, contra sírios de origem árabe, curda e cristã.

Durante os últimos dois anos, mais de 320 ataques da PYD/YPG foram registrados. Os ataques terroristas contra os sírios continuam no noroeste da Síria.

Há cada vez mais indícios de que a PYD/YPG comete violações de direitos humanos, como recrutamento de crianças-soldados, intimidação de dissidentes, engenharia demográfica e alistamento compulsório nas áreas que controlam. Cresce a insatisfação das populações locais com o governo tirânico do PYD/YPG.

Para abordar nossas preocupações legítimas com a segurança de nossas fronteiras e para limpar a área de organizações terroristas, nós vínhamos negociando havia bastante tempo com os EUA o estabelecimento de uma zona de segurança no nordeste da Síria. No entanto, apesar de todos os nossos esforços e boa vontade, as negociações foram inconclusivas.

Para piorar, a PYD/YPG estava ficando cada vez mais forte, representando um perigo não apenas para nossa segurança nacional, mas também para as pessoas na região.

Diante disso, lançamos no dia 9 de outubro a “Operação Paz da Primavera”. A operação será limitada e nossa presença militar será temporária. Planejamos estabelecer uma zona de segurança ao longo da fronteira, que será um corredor de paz e estabilidade na região.

A operação está sendo conduzida em respeito às leis internacionais, e de acordo com nosso direito de legítima defesa, conforme descrito no artigo 51 da Carta da ONU e de resoluções do Conselho de Segurança, e em total respeito à integridade e unidade territorial da Síria.

Qual é o objetivo final da operação?

Vamos manter a operação até que todos os terroristas tenham sido varridos da região, a segurança de nossas fronteiras tenha sido garantida, e a população síria local tenha sido libertada da tirania do PYD/YPG, além da ameaça do Estado Islâmico.

Outro resultado positivo dessa operação será fortalecer a integridade territorial da Síria, uma vez que a operação irá impedir o PYD/YPG de impor sua agenda separatista.

Como ocorreu com nossas operações prévias no noroeste da Síria, a “Escudo do Eufrates” e “Ramo de Oliveira”, só os terroristas são alvos. Tomamos o máximo de cuidado para evitar mortes de civis. Temos um histórico bem consistente nesse sentido nas nossas duas operações prévias.

Mostramos à comunidade internacional que é possível conduzir operações antiterrorismo sem atingir civis ou infraestrutura civil.

O presidente Erdogan pretende reassentar até 2 milhões de refugiados sírios que estão atualmente na Turquia. Não se trata de uma violação da lei humanitária que impede a devolução involuntária de refugiados para locais onde estejam sob ameaça? 

A Turquia é o país que mais abriga refugiados no mundo. Os serviços que provemos a eles estão entre os melhores do mundo. E a Turquia respeita integralmente a regra de non-refoulement, o retorno dos refugiados deve ser seguro e voluntário. Mas nós também lutamos continuamente contra imigração irregular.

O número de imigrantes irregulares detidos até hoje na Turquia ultrapassa 316 mil. O fardo da migração sobre a Turquia é pesado, não podemos receber mais uma onda de migração.

Há tempos que pedimos à comunidade internacional para assumir responsabilidade sobre isso. Se nós prepararmos o esquema de segurança necessário, condições físicas e de infraestrutura na Síria, os sírios estão dispostos a voltar. Mas isso não pode ser feito sem o apoio e envolvimento da comunidade internacional.

Um dos objetivos da operação é apoiar os esforços internacionais para permitir a volta segura e voluntária de refugiados sírios para seus lugares de origem e outros locais que escolham dentro da Síria, obedecendo à lei internacional e em coordenação com agências da ONU.

Esperamos que o estabelecimento de uma zona de segurança, aliado à preparação de condições adequadas, estimule o retorno em massa para essa região. Até agora, mais de 365 mil sírios voltaram de forma voluntária e segura para as áreas que nós livramos de terroristas nas operações Ramo de Oliveira e Escudo do Eufrates [as operações foram realizadas em Afrin, uma região curda, e causaram êxodo de 167 mil pessoas, a maioria curdos que moravam na região há décadas. Suas casas foram ocupadas por refugiados sírios árabes, que eram originalmente de outras regiões da Síria]. 

Esperamos que mais sírios escolham voltar para sua pátria após a Operação Paz da Primavera estabilizar a área.

Onde os refugiados serão reassentados? A maioria dos refugiados sírios na Turquia é árabe e não é originalmente do nordeste da Síria. Há um potencial para conflitos com os habitantes atuais da área, que são curdos? 

Quero deixar uma coisa muito clara: a Turquia não tem nenhum plano para modificar a estrutura demográfica na área com sua operação. Ao contrário, essa operação antiterrorismo tem como objetivo permitir a volta de sírios que foram desalojados por causa de ações da PYD/YPG, que cometeram crimes contra a humanidade, entre eles limpeza étnica [o ministro se refere a acusações de que os curdos, após liberarem cidades do domínio do Estado Islâmico, expulsaram alguns habitantes árabes, acusando-os de terem colaborado com os extremistas].

Uma zona de segurança, livre de terrorismo, vai estimular esses sírios, inclusive os mais de 300 mil sírios curdos na Turquia, a voltar para suas casas.

Queremos estabelecer um corredor de paz ao longo da fronteira da Síria [com a Turquia] onde os verdadeiros donos da Síria irão morar em paz, segurança e harmonia.

A SDF afirmou que, com uma invasão turca, não teriam mais capacidade para policiar as prisões com milhares de combatentes do EI. A Turquia será responsável por esses combatentes?

Como o único país que se envolveu na luta corpo a corpo contra o EI na Síria, a Turquia considera que o destino dos terroristas presos do EI é de importância vital. Até hoje, nós eliminamos mais de 4 mil terroristas do EI.

Não há dúvidas de que nós iremos manter as conquistas na luta contra o EI. Nós vamos lidar de forma eficiente com o problema dos terroristas estrangeiros, que é essencialmente um problema internacional [calcula-se que existam cerca de 2.000 combatentes do EI presos que não são sírios nem iraquianos].

A única solução sustentável é a repatriação de todos os terroristas estrangeiros para seus países de origem [muitos países se recusam a receber de volta cidadãos que entraram para o EI].

A comunidade internacional não deveria deixar o PYD/YPG explorar essa questão para tentar ganhar legitimidade e manter seu império de terror.

Há um risco de ressurgência do Estado Islâmico em meio ao conflito entre as forças apoiadas pela Turquia e as milícias curdas no norte da Síria?

Essas especulações são totalmente infundadas. PYD/YPG e Estado Islâmico são irmãos gêmeos de alma que recorrem ao terrorismo para atingir seus objetivos.

Na realidade, há indícios de que terroristas do EI detidos pela YPG foram libertados para que, em troca, se infiltrassem na Turquia ou noroeste da Síria para cometer atos terroristas.

A Turquia é o único país da região que tem a capacidade e a determinação para eliminar de vez o EI. Além disso, os esforços antiterroristas da Turquia na Síria vão ajudar na integridade e unidade territorial do país, ao prejudicar a agenda separatista.

O senhor espera que os EUA não interfiram na operação turca contra os curdos sírios?

Como já mencionei, nossas preocupações e expectativas em relação à ameaça da PYD/YPG foram repetidamente levantadas com todos os nossos aliados, começando com aqueles que têm presença militar ao leste do rio Eufrates, especialmente os EUA.

Nós informamos imediatamente aos americanos e à comunidade internacional o objetivo e o escopo da operação. Bases e postos de observação de nossos aliados na região não são alvos.

Estamos conduzindo a operação com o máximo de cuidado para impedir que haja danos colaterais como mortes de civis ou e forças de nossos aliados que estão na região. Os canais de comunicação militar para evitar conflitos continuam abertos e em funcionamento.

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