Brasil espera poucas mudanças no comércio com Uruguai e alinhamento em relação à Venezuela

Atual governo uruguaio não integra Grupo de Lima, fórum de discussão sobre crise no país caribenho

Brasília

No curto telefonema em que recebeu os parabéns de Jair Bolsonaro por sua vitória nas eleições uruguaias, Luis Lacalle Pou fez questão de falar em português com o presidente brasileiro. 

O detalhe, embora pequeno, simboliza o que interlocutores do governo ouvidos pela Folha esperam da relação Brasil-Uruguai com a chegada da centro-direita ao país vizinho: poucas mudanças na área comercial, mas uma melhora significativa na interlocução de alto nível entre os dois países.

Além, é claro, de um realinhamento dos uruguaios em relação à crise da Venezuela

O presidente eleito do Uruguai, Luis Lacalle Pou, discursa a apoiadores
O presidente eleito do Uruguai, Luis Lacalle Pou, discursa a apoiadores - Pablo Porciuncula - 24.nov.19/AFP

Embora de centro-esquerda, a política comercial da Frente Ampla, que esteve no poder nos últimos 15 anos no Uruguai, nunca foi vista como um empecilho pela administração Bolsonaro.

Por ser um país pequeno, o Uruguai comemorou a assinatura do acordo de livre-comércio com a União Europeia.

Além do mais, mesmo o governo atual, liderado por Tabaré Vázquez, vinha defendendo a agenda de flexibilização do Mercosul e as negociações de novos tratados comerciais com outros países —como Canadá e Líbano.

Montevidéu também apoia a agenda brasileira de redução da TEC (Tarifa Externa Comum) do Mercosul. 

Nas palavras de um auxiliar de Bolsonaro, o tamanho do Uruguai faz com que o país precise da maior inserção internacional possível, esteja no poder a esquerda ou a direita. 

A expectativa de assessores do presidente é que uma maior convergência ideológica ajude, sim, a destravar determinados pontos da agenda bilateral. O simples fato de Vázquez ser de centro-esquerda dificultava o diálogo com Bolsonaro e seus ministros, relatam.

Se são esperadas poucas novidades na área comercial, o governo brasileiro dá como certo que haverá uma guinada em relação à Venezuela. 

O Uruguai da Frente Ampla não reconhece Juan Guaidó como presidente interino do país caribenho, tampouco integra o Grupo de Lima —formado por governos que pressionam diplomaticamente o ditador Nicolás Maduro a deixar o poder. 

Embora seja certo que a nova postura será contrária a Maduro, o governo brasileiro ainda não sabe exatamente quão longe Lacalle Pou poderá ir. 

Ainda há dúvida, por exemplo, sobre se ele de fato reconhecerá Guaidó como presidente interino e se decidirá integrar o Grupo de Lima. 

Interlocutores ouvidos pela Folha lembram que a margem de vitória de Lacalle Pou foi estreita e que isso pode de alguma forma limitar suas ações nesse sentido.​

Contribuiu Talita Fernandes

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