Descrição de chapéu Queda do Muro, 30

Para social-democrata, reunificação alemã foi um sucesso, mas resta muito por fazer

Alemão-oriental que presidiu o Parlamento considera que 30 anos não bastaram para igualar condições

Marcelo Leite
Berlim

Assim como Angela Merkel, Wolfgang Thierse era mais um militante do movimento por direitos civis, na Alemanha Oriental, quando o Muro de Berlim veio abaixo. A chanceler entrou para CDU (centro-direita), e ele, para o SPD (centro-esquerda), partido em que faria carreira notável, chegando a presidente do Bundestag (Parlamento) na Alemanha reunificada.

Aos 76 anos, Thierse avalia que a unificação andou depressa demais e fez muitas vítimas, mas que não havia alternativa na época. “Os alemães-orientais queriam estar o quanto antes sob proteção da República Federal da Alemanha”, relembra.

O segundo fator de aceleração, para ele, foi o colapso real da economia da Alemanha Oriental, incapaz de competir com a máquina poderosa do lado ocidental. Tudo tão rápido que ele diz ter ficado “zonzo”. 

Wolfgang Thierse, 76, foi presidente do Bundestag entre 1998 e 2005
Wolfgang Thierse, 76, foi presidente do Bundestag entre 1998 e 2005 - DPA - 13.out.2003/AFP

Apesar do sucesso, os salários ainda são menores, carreiras foram interrompidas, houve grande impacto social. Thierse não aceita, porém, que isso seja desculpa para votar na ultradireita, como fazem muitos na antiga RDA.

“O nível da renda do Leste é 70-80% da renda da Alemanha Ocidental. Isso não é uma razão real para a indignação e a raiva. Nenhum alemão oriental caiu na pobreza absoluta.”

Às dificuldades da reunificação se somam, acredita, as ansiedades da globalização, da digitalização do mundo e da distopia ecológica.

“Apesar de materialmente bem, as pessoas sentem falta das respostas fáceis, claras e rápidas. E esse é o momento dos populistas. Estamos enfrentando isso com o partido AfD [Alternativa para a Alemanha], com Trump, com Bolsonaro.” 

Onde estava quando recebeu a notícia sobre a queda do Muro? E o que fez naquele momento e nos dias seguintes? 

Quando a notícia veio, estávamos em casa em Berlim Oriental e no início não acreditamos na notícia, porque nunca acreditávamos no que os líderes comunistas falavam.

Só aos poucos, ao longo da noite, enquanto víamos nos programas de televisão ocidentais as imagens da fronteira, como pessoas estavam se reunindo lá e que elas realmente estavam passando, pressionando o muro do Leste, pensamos: “Caramba, é verdade mesmo!”.

Na noite seguinte também não conseguimos ir, havia uma grande reunião do movimento Novo Fórum na igreja Gethsêmane, da qual participamos. Então só no dia seguinte fomos a Berlim Ocidental junto com as crianças.

Foi incrível, desconhecidos vinham, cumprimentavam e abraçavam a gente e nos recebiam com festa. Berlim nunca foi tão divertida e feliz como naquele momento.

Aos poucos foi se normalizando. Sabia-se que agora era possível ir a Berlim Ocidental, mas as pessoas ainda tinham os seus trabalhos, as suas obrigações. Não se sabia se a queda do Muro significava já o final da Alemanha Oriental, mas ficamos pensando o que teria ainda de acontecer para que a Alemanha Oriental se transformasse, para que a queda do Muro não levasse centenas de milhares de pessoas a fugirem.

Começamos a pensar, nós, o novo movimento político, como poderíamos mudar o país, tornar mais democrático, transformá-lo em um Estado de Direito, para que as pessoas ficassem no país.

Homem martela trecho do muro - Fabrizio Bensch/Reuters

Depois o sr. teve um papel importante na reunificação, primeiro no partido SPD, como seu presidente alemão-oriental, e depois como presidente do Bundestag. Diria que esse foi o acontecimento mais importante em sua carreira? 

Sim, os anos 1989 e 1990 foram os mais importantes e emocionantes da minha vida inteira. Isso precisa ser dito: a Revolução Pacífica foi uma revolução de liberdade. Primeiro, a ação de autolibertação dos alemães orientais e, depois, a abertura do Muro, e só então o processo de reunificação. Essa foi a ordem dos fatos: primeiro a liberdade e depois a unidade.

No ano de 1990, quando eu era parlamentar da Volkskammer [Câmara do Povo, Parlamento alemão-oriental] e presidente do SPD alemão-oriental, estávamos empenhados em montar uma unificação razoável, para que não houvesse muitas vítimas, muita dor.

Tudo ocorreu muito mais rapidamente do que esperávamos, planejávamos. A pressão temporal foi sem precedentes. Posso assinalar os fatores de aceleração: primeiro, a pressa dos alemães-orientais.
Em 1990, fugiam ainda mais pessoas do Leste para o Oeste. Os alemães-orientais queriam estar o quanto antes sob proteção da República Federal da Alemanha.

O segundo fator de aceleração foi o colapso real da economia da Alemanha Oriental. Os alemães orientais compravam produtos do Ocidente, e não mais produtos da Alemanha Oriental. Com a abertura das fronteiras e a adoção do marco alemão [moeda ocidental], as redes de parceiros de negócio no Leste Europeu acabaram. Eles não conseguiam mais bancar os produtos e então deixaram de comprar.

O terceiro fator era a incerteza da política externa. Ninguém sabia até que ponto Gorbachev, até que ponto a União Soviética concordava com uma possível Alemanha reunificada. Um ano depois houve o golpe contra Gorbachev.

A unificação alemã foi obtida num período de alguns meses, com o consentimento do Aliados, dos EUA, da França, do Reino Unido e da União Soviética. Mas foi tudo muito mais rápido do que nós... Eu fiquei zonzo naqueles meses, tive de aprender tanta coisa nova, ao mesmo tempo em que decidia e discutia outras coisas. Foi um ano emocionante.

Depois da aprovação do Tratado de Reunificação, veio o trabalho mais duro: a reunificação real. O que foi nesse momento o maior desafio? 

Economicamente, tratava-se da transformação de uma economia planificada em uma economia de mercado. A privatização de empresas estatais. Tratava-se também de fazer com que essas empresas alemãs-orientais conseguissem competir no mercado. Foi um processo de muita dor e com muitas vítimas. A grande preocupação era impedir que milhões ficassem desempregados.

Houve greves, houve greves de fome, houve muitas demissões. A Treuhand [instituição fiduciária] conduziu as privatizações em ritmo acelerado. Algumas delas deram certo, há exemplos bons e há exemplos muito ruins. E por isso a Treuhandanstalt ficou para muitos alemães-orientais como um tipo de carrasco, culpado por todas as dores e por todas as vítimas.

 

O sr. acha que a Alemanha é hoje, de fato, um país reunificado? 

No geral, foi um sucesso. Nós estamos em um país unificado e democrático, um Estado de Direito, um Estado social comum. Vivemos em paz com todas as nossas nações vizinhas, e isso não é tão óbvio para a Alemanha e para a história alemã na Europa. Mas é claro que não estamos no final do caminho.

O que é chamado de reunificação interna está longe de estar terminada. Há ainda diferenças econômicas e sociais entre o Oeste e o Leste: a renda, a produtividade de trabalho, a economia, as receitas fiscais.

Também há diferenças no que chamamos de mentalidade, as biografias, as percepções subjetivas ainda se diferenciam.

A economia alemã-ocidental era muito forte, tão forte que ela, na verdade, nem precisava da economia alemã-oriental para atender a 17 milhões de consumidores [população do lado oriental]. Ela conseguia fazer isso sozinha.

Foi uma força enorme, sabe, centenas de bilhões foram diretamente para a Alemanha Oriental, em subvenções, para modernizar empresas e fazer com que elas conseguissem competir no mercado. Mas também incluiu o corte de empregos.

A economia da Alemanha Oriental era muito menos produtiva, se comparada à Ocidental. Só com isso já ficava claro que o número de vítimas seria grande, que envolveria uma redução da força de trabalho sem precedentes.

É preciso dizer que a maior parte dos alemães orientais vivem uma vida melhor hoje do que na época da Alemanha Oriental, e também melhor do que na década de 1990.

Na Alemanha Oriental não havia herança. O legado da Alemanha Oriental é que não havia riqueza privada, portanto isso também faz uma diferença. Quem eu devo culpar por isso? Isso é assim. A história não é justa.

No que diz respeito a igualdade de renda, ou estatísticas de desemprego, quanto tempo ainda seria necessário?

Isso não dá para prever. Bem, seremos mais rápidos no ajuste das aposentadorias. Já conseguimos avançar nos salários e benefícios, continuaremos avançando passo a passo. Mas isso também depende de a produção moderna ser bem-sucedida na Alemanha Oriental. Ou seja, devemos fortalecer ainda mais a produção digital e inovadora.

Isso já acontece em todos os lugares em que há universidades, onde a ciência é traduzida em tecnologia. O Leste alemão não é mais simplesmente o Leste, mas uma colcha de retalhos.

Regiões como Dresden, Leipzig, Jena, Erfurt, Berlim e Potsdam são regiões de sucesso. Mas essas diferenças também existem na Alemanha Ocidental. Basta olhar para as cidades ao norte da região do Ruhr, elas também não vão muito bem.

 

O legado traumático da polícia secreta, a Stasi, foi superado? 

É claro que deixou consequências dolorosas. E para essas cicatrizes, para a herança da Stasi, também vale que o tempo cura tudo. Mas nós fizemos algo importante: ainda no tempo da Volkskammer livremente eleita em 1990 se decidiu que os documentos da Stasi deveriam ser abertos, seguindo regras claras.

Queríamos fazer diferente de 1945, depois da ditadura nazista. Queríamos que as vítimas pudessem entender o que aconteceu, quem eram os responsáveis. Por isso criamos um órgão federal para administrar o arquivo da polícia secreta.

Até agora, 1 ou 2 milhões de pessoas já tiveram acesso a seus documentos, puderam ver as suas biografias.

No início havia medo de que isso levasse a injustiças, a vinganças. Mas isso não aconteceu. Às vezes era doloroso para os atingidos, para as vítimas, e talvez também para os agentes. Mas, no geral, foi um processo que fez muito bem, que permitiu esclarecimento, impediu que funcionários da polícia secreta abusassem do poder com as informações que tinham, impediu que esse legado fosse instrumentalizado politicamente, ou por um partido político, muito tempo depois.

A ultradireita está ganhando apoio no Leste alemão. Isso tem como causa a insatisfação gerada pela desigualdade persistente?

Sim, mas só parcialmente. O nível da renda do Leste é 70-80% da renda da Alemanha Ocidental. Isso não é uma razão real para a indignação e a raiva.

Os alemães-orientais sempre se sentiram como cidadãos de segunda categoria em relação aos alemães-ocidentais. Nós, alemães-orientais, sempre tivemos um complexo de inferioridade. É claro que isso continua.

Para mim, o motivo decisivo é outro, e não é exclusivo dos alemães-orientais, mas global: estamos vivendo hoje várias transformações simultâneas.

A globalização, a intensificação da concorrência, a aceleração do desenvolvimento. Estamos experimentando afluxo de refugiados, que também são parte da globalização, que nos aproximam do estrangeiro, do estranho, e que colocam o próprio modo de vida em dúvida.

Vivemos a transformação digital que está mudando radicalmente o mercado de trabalho, trazendo incertezas. Estamos enfrentando uma desordem mundial, terrorismo.

São muitas mudanças simultâneas. E elas criam medo do futuro, incertezas, algo que eu chamo de medo de desfamiliarização, ou seja, o medo de perder o que é familiar. Pessoas que, apesar de materialmente bem, estão cheias de ansiedades, incertezas. Elas sentem falta das respostas fáceis, claras e rápidas. E esse é o momento dos populistas. Estamos enfrentando isso com o partido AfD [Alternativa para a Alemanha, ultradireita], com Trump, com Bolsonaro, e nem preciso citar os populistas europeus.

Na Alemanha Oriental isso é mais agudo, uma vez que nós, alemães-orientais, já tivemos de enfrentar tantas mudanças nesses últimos 20, 25 anos.

Isso faz com que pessoas acreditem mais facilmente nas mensagens dos populistas. Esse é o segredo do sucesso da AfD. Como disse, há motivos gerais e há motivos específicos dos alemães-orientais.


Wolfgang Thierse, 76

Formado em letras na Universidade Humboldt, Berlim Oriental, não era filiado a partido até a queda do Muro. Entrou no movimento Novo Fórum em 1989 e, em seguida, no Partido Social-Democrata (SPD) da Alemanha Oriental. Elegeu-se deputado na primeira eleição livre para a Volkskammer (Parlamento alemão-oriental) e, após a reunificação, para o Bundestag, que presidiu de 1998 a 2005.

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