Descrição de chapéu Queda do Muro, 30

Alemanha unificada se volta à direita, sobretudo no Leste

Ressentimento impulsiona ultradireita 30 anos após queda do muro de Berlim

Marcelo Leite
Berlim

Trinta anos após a queda do Muro, a Alemanha é um país reunificado, de fato e de direito, mas não na cabeça de todos os cidadãos. No Leste que foi socialista, cresce uma Alemanha de direita que vota nos extremistas da AfD.

Alternativa para a Alemanha é o significado da sigla AfD. Conquistou 12,6% dos votos nas eleições de 2017 e ficou com 94 das 709 cadeiras do Bundestag (Parlamento).

Já é o terceiro partido do país. Cresceu explorando o ressentimento de parte da população com a política da chanceler Angela Merkel (CDU, União Democrata-Cristã) de receber 1 milhão de refugiados, em 2015. Avançou ainda mais em pleitos regionais recentes da banda oriental.

Em Berlim, população se reúne em volta de parte do muro derrubada em novembro de 1989; até hoje, existe disparidade de renda entre alemães-orientais e ocidentais - Carol Guzy/The Washington Post/Getty Images

Na Turíngia governada por uma coalizão entre Esquerda (Linke) e Verdes (Grüne), a AfD teve, domingo passado (27), o maior crescimento. Saltou para a segunda posição, com 23,4% dos votos.

A esquerda venceu com 31% e deve liderar o novo governo. A grande perdedora foi a CDU (21,8%): cerca de um oitavo de seus apoiadores se bandeou para a ultradireita.

No estado tradicionalista da Saxônia, espécie de Baviera do Leste, a AfD obteve em setembro 27,5%. Quase empatou com a CDU (32,1%).

Em Brandemburgo, estado que circunda a cosmopolita Berlim, chegou a 23,5%, há dois meses, muito perto do SPD (26,2%), de centro-esquerda.

A explicação convencional para o progresso da ultradireita na antiga República Democrática Alemã (RDA, ou Alemanha Oriental) aponta para a insatisfação com o desemprego e a diferença de renda perante a população do oeste do país. A disparidade, com efeito, ainda é marcante.

Alemães-orientais sem emprego são 6,9%, contra 5,2% no geral do país (4,8% no lado ocidental). O salário médio de 2.790 euros (R$ 12.400) representa 84% do que ganham compatriotas a oeste.

“Apesar de todas as diferenças que ainda continuam a existir, somos uma nação unida”, diz Wolfgang Schäuble, 77, político da CDU que negociou o tratado de unificação pela antiga República Federal da Alemanha (RFA) e hoje preside o Bundestag.

Schäuble atribui o ressentimento eleitoral no leste ao duplo choque vivido por alemães-orientais: “Nas últimas décadas, os habitantes da antiga RDA tiveram de enfrentar mais transformações que os da RFA —além das fundamentais que já aconteciam no mundo todo, como a globalização e a digitalização”.

O social-democrata Wolfgang Thierse, 76, alemão-oriental que chegou a presidir o Bundestag pelo SPD depois da “Wende” (a virada de 1989), concorda. Como Schäuble, ele diz que não seria correto só comparar Leste e Oeste.

Regiões orientais como as de Dresden, Leipzig, Berlim e Potsdam tiveram grande desenvolvimento. Por outro lado, na parte ocidental, também há áreas decadentes, como o Ruhr, com sua economia baseada no poluidor carvão.

“No geral, foi um sucesso. Nós estamos em um país unificado e democrático, um Estado de direito. Vivemos em paz com todas as nossas nações vizinhas, e isso não é tão óbvio para a Alemanha.”

A maior parte dos alemães-orientais vive uma vida melhor hoje do que na época da Alemanha Oriental e do que na década de 1990, pondera Thierse. “Mas é claro que não estamos no final do caminho.”

Mulheres e velhos do Leste se deram melhor que homens maduros

“A reunificação mudou muita coisa na minha vida. Fiz o segundo grau já na Alemanha unida, não tive de passar pela juventude socialista nem aprender Lenin e Marx”, comemora Hanno Hochmut, 42.

“Mas o mais importante foi conhecer minha mulher, que nasceu em Berlim Ocidental. Nos encontramos debaixo do Portão de Brandemburgo.”

O historiador alemão-oriental, um dos curadores da exposição “Berlim Leste, Meia Capital”, diz que a reunificação teve impacto muito positivo em seu caso. Deu-lhe a chance de estudar numa universidade de Berlim Ocidental e nos EUA. Seus irmãos mais velhos tiveram de ir a Moscou.

O cientista político Maximilian Ostmann Freitag, 32, tinha dois anos quando o Muro ruiu. Para ele, a Alemanha é uma só e, para os avós, também.

“Para a geração de meus pais, que cresceram durante a divisão [das Alemanhas], ainda existem muitas diferenças. No Oeste e no Leste, ainda há esse muro em suas cabeças.”

Hochmut diz que os idosos da RDA, assim como os jovens, se deram bem. Aposentados, ganharam, após a queda do Muro, liberdade e meios para viajar, com pensões de um sistema para o qual nunca contribuíram.

A virada se mostrou mais problemática para homens entre 35 e 45 anos na época. Tiveram as carreiras interrompidas, pois seus diplomas e competências —como falar russo— de pouco serviam na nova realidade do mercado sob hegemonia ocidental.

Quem tinha idade e disposição para se mudar deixou a Alemanha Oriental para trás. Muitas mulheres jovens o fizeram, estudando e casando do lado ocidental, enquanto contemporâneos do sexo masculino ficavam e caíam no desvão do desemprego.

Homem martela trecho do muro - Fabrizio Bensch/Reuters

​Estima-se que 3,5 milhões de pessoas emigraram após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, e antes da construção do Muro, em 1961. Outros 3,5 milhões saíram após sua derrubada.

Como resultado, segundo Hanno Hochmut, a área da antiga RDA tem hoje a mesma população de 1905, cerca de 16 milhões de pessoas. No mesmo período, a população ocidental dobrou.

A imigração também foi muito diferente nas duas Alemanhas. Na RDA havia trabalhadores de países socialistas, como Vietnã e Moçambique, mas desacompanhados das famílias. Em geral, não fincaram raízes.

Já do lado ocidental houve um fluxo considerável de imigrantes, principalmente da Turquia. Há quase 1,5 milhão de turcos na Alemanha, hoje. Mesmo com todos as barreiras culturais, a antiga RFA sempre foi mais cosmopolita que a RDA.

Com a reunificação e a crise de refugiados, chegaram poloneses (860 mil), sírios (750 mil), romenos (700 mil) e muitos outros. Vivem no país 10,9 milhões de estrangeiros, e alemães-orientais são os primeiros a ressentir-se com sua presença no mercado de trabalho.

Não é à toa que a AfD reciclou o brado do movimento alemão-oriental pela liberdade de 1989, “Nós somos o povo”. Transformou-o em slogan eleitoral para dizer que só a ultradireita pode cumprir as promessas da reunificação.

A ênfase da frase, porém, é diferente, como explica Hochmut: “A tônica não está em ‘nós’, mas sim em ‘povo’, um termo que na Alemanha tem uma história muito carregada”, diz o curador. “[Era] um dos termos chave dos nazistas: nós somos o povo, não os judeus.”


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