Após 5 anos, ataque terrorista ao jornal Charlie Hebdo terá julgamento em 2020

A partir de maio, 14 pessoas vão ao banco dos réus por atentado que deixou 12 mortos

Washington

O ataque terrorista contra o semanário satírico francês Charlie Hebdo completou cinco anos nesta terça-feira (7). O aniversário coincide com o início do julgamento do caso, após um longo período de investigação.

O atentado ao Charlie Hebdo, que deixou 12 mortos em 7 de janeiro de 2015, é ainda hoje um potente símbolo da intolerância contra um humor de tipo irreverente. O episódio motivou intensos, e até hoje não resolvidos, debates sobre os limites da liberdade de expressão. A ferida segue aberta, escorrendo nanquim.

Flores e velas colocadas do lado de fora da antiga sede do jornal Charlie Hebdo, em Paris
Flores e velas colocadas do lado de fora da antiga sede do jornal Charlie Hebdo, em Paris - Gonzalo Fuentes/Reuters

O Charlie Hebdo, criado em 1970 e conhecido pelas recorrentes piadas com religião, havia publicado charges ridicularizando o profeta do islã, Maomé. Descontentes com o que consideraram uma blasfêmia, dois homens armados invadiram a Redação do semanário em Paris. 

Eles disseram que representavam um braço da organização terrorista Al Qaeda e que queriam vingar o seu profeta, segundo os relatos dos sobreviventes. Entre os mortos, estavam repórteres e funcionários da publicação, reunidos ali para mais uma reunião corriqueira.

"O caso explicitou o extremo a que pode chegar a intolerância sobre temas humorísticos”, afirma Paulo Ramos, professor do departamento de letras da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). “Foi um ato de intolerância extremada, incompatível com os princípios de uma sociedade democrática e civilizada.”

O julgamento do caso deve começar formalmente em maio, levando 14 pessoas ao banco dos réus —algumas delas, julgadas também pelo ataque terrorista contra um supermercado judaico em Paris em 9 de janeiro de 2015, que deixou quatro vítimas.

No tribunal, importantes questões devem ser levantadas. A França ainda lida com uma série de perguntas motivadas pelo atentado ao semanário. Entre elas, como jovens se radicalizam ao ponto de integrar facções terroristas, como têm acesso a armas e como conseguem organizar ataques como o que alvejou o Charlie Hebdo. 

Não são questões retóricas. Em novembro daquele mesmo ano, homens armados mataram 130 pessoas em Paris. Em toda a Europa, governos vivem ainda hoje sob a sombra da possibilidade de novos ataques terroristas e debatem a melhor maneira de evitá-los.

Na edição de aniversário do massacre, o Charlie Hebdo publicou depoimentos de pessoas próximas às vítimas. Maryse Wolinski, viúva do desenhista Wolinski, criticou o governo francês por não ter protegido o suficiente a Redação —que já tinha sido alvo de ameaças, ao ponto de ter mudado de endereço antes mesmo do ataque.

Desde o atentado, o Charlie Hebdo gasta mais de R$ 6 milhões ao ano para proteger seu escritório e os funcionários, segundo relatos da imprensa.

Fora dos tribunais, o Charlie Hebdo passou também por outro julgamento. A despeito da solidariedade demonstrada na época do atentado, simbolizada pela frase “Je Suis Charlie” nas redes sociais (“eu sou Charlie”, em francês), houve também quem tentou culpar as vítimas pelo atentado sofrido.

Alguns acusaram o semanário satírico de ter sido demasiado irreverente, muito crítico às religiões, com uma linguagem excessivamente crassa. Em reação a esse tipo de ideia, o Charlie Hebdo criticou na edição desta semana o que chamou de “politicamente correto” e de “novos censores que acreditam ser reis do mundo por detrás de seu smartphone”.

“Muitos não concordam com o que eles escrevem, e ninguém ‘é Charlie’ o tempo todo”, diz à Folha a senadora francesa Nathalie Goulet, envolvida nos debates do combate ao terrorismo. “Mas nós temos que proteger a liberdade de expressão”, afirma a legisladora.

“O nível de tolerância diminuiu nestes últimos cinco anos”, diz. “As pessoas estão menos dispostas a ouvir e a dialogar com seus oponentes, e já não existe mais debate.”

Nesse contexto, diante da violência que sofreu, o Charlie Hebdo deixou de criticar diretamente a figura do profeta Maomé. Dizendo-se insatisfeita com tal autocensura, a repórter Zineb El Rhazoui deixou o semanário em 2017, acusando a equipe de ter cedido à intolerância e ao fanatismo.

Em uma entrevista com a organização Repórteres Sem Fronteiras e representantes das Nações Unidas, marcando o aniversário de cinco anos do atentado, o advogado do Charlie Hebdo Richard Malka afirmou que o “direito à blasfêmia” é um valor necessário. “Quem ainda ousa criticar as religiões?”, perguntou, referindo-se à autocensura.

Segundo Ramos, o professor da Unifesp, a autocensura é de fato uma das consequências do ataque terrorista de 2015 ao Charlie Hebdo —inclusive com possíveis repercussão entre artistas brasileiros. “É bem provável que cartunistas tenham passado a pensar duas vezes antes de produzir alguma piada, com receio de agredir determinado grupo específico.”

Nesse sentido, quando um coquetel molotov foi lançado contra o escritório do programa de comédia brasileiro Porta dos Fundos em 24 de dezembro passado, a comparação foi inevitável. “Impossível não lembrar de Charlie Hebdo”, disse Juliano Medeiros, o presidente nacional do PSOL. Não houve vítimas, no caso do Porta dos Fundos.

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